Denise Silveira

Jornalista e ciclista urbana

Governar para carros não é governar para pessoas. Mais uma gafe de Lula, desta vez com a bicicleta

Cicloentregadores de São Paulo ficaram revoltados com a fala do presidente Lula sobre o uso de bicicletas. Foto: Stock Adobe

Há 14 dias - Tempo de leitura: 5 minutos, 22 segundos

Não é de hoje que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acumula gafes. Desta vez, Lula fez piada com a nossa querida bicicleta, uma “brincadeira” durante a cerimônia de regulamentação de novas regras para emissão da CNH, realizada no dia 9 de dezembro, quando anunciou que o governo pretende facilitar financiamento de motos, de preferência elétricas, para cicloentregadores.  Essa intenção de lançar um apoio para comprar moto já havia sido mencionada em junho deste ano. Mas, desta vez, Lula adicionou mais uma gafe para seu farto arquivo.

Aí eu vou de bicicleta? Na verdade ele não vai, a bicicleta é o único transporte que ela não leva ninguém. É a pessoa que leva ela. E a pessoa, como a gente se engana… ‘Ah eu vou de bicicleta’, não, ela que vai de você. Porque se você não pedalar, ela não sai do lugar. Então eu não acho que é correto o Tiago andar 50 km de bicicleta, se fosse entregar comida há 50 km, vai chegar tudo gelada, cara. Não, ele tem direito de financiar uma ‘motozinha’, com uma CNH nova, sabe, ganhando um pouquinho mais. Aí a gente vai financiar uma ‘motozinha’ pra você se transformar no entregador mais feliz de Brasília”, disse Lula. E as autoridades presentes riram.

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Motocentrismo não é política social e não resolve problema dos trabalhadores

Quando ouviu a fala do presidente pela transmissão do Canal Gov no youtube, o ciclista Daniel Freitas, 39 anos, que faz entregas na zona sul de São Paulo, ficou revoltado. Ele usa sua bike para trabalhar desde 2010 e é ativo nas redes sociais na luta por melhores condições de trabalho.

“Reflete o status quo, reflete um viés que a sociedade carrocrata carrega e que, para mim, não é nenhuma surpresa no atual momento das relações internacionais em que há um interesse muito grande de importar essas motos elétricas da China”, afirma Daniel, inconformado.

A indignação é compartilhada por Beatriz Gomes da Silva, 20 anos, cicloentregadora desde 2023 que circula entra a zona leste e o centro da capital paulista. Para ela, o Estado poderia ajudar a baratear bicicletas elétricas para os entregadores, que, na maioria das vezes, estão presos a uma empresa que faz o aluguel das e-bikes. “Se fosse mais barato comprar uma bicicleta elétrica, já seria um adianto total no corre diário do entregador”, acredita.

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Mobilidade não é colocar mais motocicletas no trânsito. Logística para entrega de moto e de bike é diferente

Podemos imaginar o impacto de milhares de motocicletas que passariam a fazer parte do trânsito nas grandes cidades, caso o financiamento fosse implementado hoje. Além do impacto no SUS, que  irá receber os acidentados. Os motociclistas são maioria nos leitos e UTI’s dos grandes hospitais.

Durante vários dias no meu trajeto diário de 22 km entre o centro de São Paulo e a zona sul da cidade, perguntei a dezenas de entregadores se eles trocariam a bike por uma moto. Muitos responderam que sim. Mas o entregador Fernando Bazilio dos Santos, 26 anos, também da cidade de São Paulo, fez essa mudança por conta própria e não está se adaptando. Ele foi cicloentregador por quatro anos. Trocou a bike por uma moto elétrica alugada porque foi atropelado por um carro, quebrou o tornozelo e ainda não pode pedalar. De bike ele fazia 50 km por dia. De moto, em média 100 km.

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“Na rua vale mais o tempo do que o dinheiro em si da entrega. O que mais pesa para mim é essa questão de trajeto, de não poder cortar um caminho, de não poder passar por meio de uma praça para conseguir chegar ao destino mais fácil. Então, uma rota de bicicleta que eu faria por 2 km, na moto vira 4 km porque tem que dar a volta no quarteirão”, argumenta. E a conta? Fernando diz que dá elas por elas, porque paga R$ 2.000 pelo aluguel da moto. Ele questiona quanto seria a parcela desse financiamento do governo e também não gostou da fala do presidente.

Para George Queiroz, um dos criadores do pedal em apoio a Lula, o PedaLula, o presidente moldou sua personalidade como um sindicalista criado no pátio das montadoras de automóveis nos anos 70.

“Passou décadas vendo os automóveis sendo feitos e os trabalhadores que os construíram sem ter nenhuma condição de ter aquilo que eles produziam. Então, a defesa que Lula faz da classe pobre ter a mesma possibilidade de se locomover que o rico sempre teve não é injusta. Seria muito elitista para nós, ativistas da bicicleta, imaginar que o cidadão pobre periférico tem que andar 50 km de bicicleta enquanto o rico que já mora no centro pode escolher o seu transporte”, defende George.

Questionada, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República informou que a fala de Lula não teve em nenhum momento a intenção de desvalorizar quem trabalha de bicicleta.

“A medida defendida tem como objetivo ampliar as opções a trabalhadores que muitas vezes pedalam longas distâncias por falta de alternativas, enfrentando desgaste físico e limites de rendimento, mas não exclui quem prefere ou precisa continuar pedalando. O Governo do Brasil reconhece que a bicicleta permanece um meio essencial, sobretudo pela acessibilidade e pelo impacto ambiental reduzido, mas trabalha para garantir que cada trabalhador tenha o direito de optar pelo veículo que melhor atenda sua realidade”.

Com o Ano Novo chegando e as eleições cada vez mais próximas, Lula precisa engajar melhor nas políticas públicas para a bicicleta como promoção social e também como mobilidade. Não é preciso lembrar que no início da COP-30, em Belém, não havia sequer bicicletário. E alguém precisa alertá-lo que o futuro das entregas não será feito por bikes nem por motos. Já está sendo feito com drones.