‘Brasil tem enorme potencial para carros voadores’, diz diretor da chinesa EHang

O eVTOL EH216,da EHang, já tem 15 unidades encomendadas no Brasil. Fotos Divulgação EHang
Mário Sérgio Venditti
11/06/2024 - Tempo de leitura: 4 minutos, 47 segundos

José Ignacio Rexach Vega, diretor comercial na Europa e América Latina da EHang, fabricante chinesa de carros voadores, visitou a Expo eVTOL, realizada em São Paulo em maio, e gostou do que viu. Depois de participar de muitas reuniões e fóruns, concluiu que o mercado brasileiro tem muito potencial para absorver as aeronaves, que devem revolucionar a mobilidade urbana mundial.

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Vega está otimista com o novo cenário do eVTOL (veículos elétricos de decolagem e pouso verticais) que começa a se formar, conforme revelou na entrevista ao Mobilidade.

José Ignacio Rexach Vega, diretor comercial na Europa e América Latina da EHang,

Depois de comparecer à Expo eVTOL, que balanço o senhor faz sobre o interesse do brasileiro pelos chamados carros voadores?

O entusiasmo é tão grande que, provavelmente, o evento será desmembrado em dois já em 2025. A demanda global tem acompanhado o nível do desenvolvimento das aeronaves e no Brasil não é diferente. Esse sentimento reflete a conscientização por uma mobilidade mais sustentável e segura.

Mas, na prática, qual é o potencial desse mercado?

Estamos falando de um mercado que, segundo estimativas, poderá movimentar US$ 1 trilhão até 2040, com serviços, locomoção de passageiros e atividades logísticas. Além disso, há a parte de suporte técnico e o pós-venda no mundo todo.

No Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro juntas representam uma carteira de vendas de 10 mil unidades, com receita potencial de US$ 7,3 bilhões até 2040. Em um cálculo preliminar, uma viagem de 30 quilômetros deverá custar US$ 100 por pessoa. A redução será gradual com o avanço da tecnologia e aumento da demanda.

A operação do eVTOL no Brasil não corre o risco de esbarrar na burocracia, na demora da aprovação da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil)?

A homologação nunca é um processo rápido. Onde não há indústria aeronáutica é ainda mais complicado, porque as autoridades demoram para entender a complexidade do projeto.

Felizmente, não é o caso do Brasil. Europa, Japão e países do Oriente Médio também estão nas etapas de homologação. A China enfrentou um longo caminho até que o eVTOL fosse autorizado a operar. A burocracia existe em todos os países, é natural porque estamos diante de uma tecnologia totalmente inovadora.

As empresas do setor estão em entendimento com a Anac para acelerar a certificação?

Eu mesmo já me reuni com representantes da Anac, estamos conversando há muitos meses e eles estão completamente familiarizados com a tecnologia. Acredito que, até o fim do ano, a Agência homologará os carros voadores no País, o que permitiria iniciar os voos em 2025.

Os congestionamentos são tão pesados que precisamos urgentemente oferecer outros meios de transportes sustentáveis. É uma questão de necessidade.

A seu ver, o usuário brasileiro vai aderir ao carro voador no primeiro momento ou verá o veículo com certa desconfiança?

Há experiências que só podem ser vividas a bordo de um eVTOL, que apresenta agilidade e rapidez na eletromobilidade urbana. Tenho convicção de que o mercado vai se multiplicar rapidamente. Basta amadurecer um pouco mais e ganhar confiança.

Mesmo sem a permissão para voar, as fabricantes já enfrentam muita concorrência para vender seus equipamentos no Brasil?

A EHang é a primeira fabricante de eVTOL do mundo e apostamos na nossa experiência. Não considero, por exemplo, a Eve Air Mobility, braço da Embraer, uma concorrente direta.

Com autonomia de 30 quilômetros, nosso eVTOL tem vocação e transporta uma pessoa. O da Eve é para distâncias maiores, leva quatro passageiros e voa 200 quilômetros com a carga completa das baterias.

Como a EHang está atuando no Brasil?

A empresa Gohobby negocia nossas aeronaves no País. Até o fim de maio, ela tinha 15 encomendas e, em um dos dias da Expo eVTOL, fez duas vendas.

No Brasil, nosso carro voador custa aproximadamente R$ 3 milhões. Globalmente, a EHang entregou 263 unidades da série EH216 no primeiro quadrimestre.

Há outras parceiras da EHang no mundo?

Mantemos um acordo com a estatal chinesa Guangzhou Automobile Group (GAC) no sentido de fortalecer a capacidade de produção inteligente do eVTOL da EHang.

No ano passado, o GAC ficou em 49º lugar entre as 500 maiores empresas chinesas e seu trabalho abrange as áreas de investigação e desenvolvimento, veículos, componentes, comércio e viagens, energia e ecologia, internacionalização e investimento e finanças. Isso nos ajuda a aplicar mais know how no desenvolvimento do EH216.

Setor em clima de contagem regressiva

A Expo eVTOL, principal feira da América Latina de carros voadores, foi marcada por um clima de contagem regressiva. Todas as participantes do evento (como as fabricantes Eve Air Mobility, EHang, Vertical Connect e Moya e as operadoras Gol e Azul) contam os dias para as aeronaves começarem a voar no Brasil, o que se espera que aconteça em dois anos.

Gol e Azul afirmam que o foco inicial será os voos intrarregionais, com viagens a partir de 150 quilômetros de distância.

Segundo Camilo Oliveira, da área de relações institucionais da Azul, há uma lacuna de viagens com destinos entre 100 e 400 quilômetros e é nesse nicho que a empresa quer atuar.

Para Sergio Quito, presidente do conselho de segurança e operações de voo da Gol, o desafio é consolidar a infraestrutura, “pois os helipontos não são suficientes para atender os eVTOLs”, afirma.

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