Meios de transporte

Aperto no crédito reduz venda de caminhões usados em quase 30%

Escassez de seminovos e valor pago pelos fretes também prejudicaram transferências no primeiro bimestre

3 minutos, 37 segundos de leitura

25/03/2022

Por: Mário Curcio

O atual valor do frete não encoraja os caminhoneiros a entrar num financiamento. Foto: Getty Images

Embora a venda de caminhões novos tenha registrado alta de 10% no primeiro bimestre sobre o mesmo período do ano passado, os usados anotaram queda de 27,9%. A maior dificuldade de acesso ao crédito, a baixa oferta de modelos de segunda mão e também os valores dos fretes explicam essa retração no início de 2022.

“Os bancos realmente começaram um movimento de restrição baseados na perspectiva de atividade econômica mais baixa, no desemprego que resiste e na pandemia que trouxe uma nova onda pela variante Ômicron”, afirma Enilson Sales, presidente da Federação Nacional das Associações de Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto).

Para a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), há uma escassez de caminhões extrapesados com quatro a cinco anos de uso, muitas vezes exigidos por quem quem contrata um frete: “O mercado de caminhões novos foi muito fraco num passado recente [sobretudo de 2015 a 2018], daí a baixa oferta atual”, recorda Sérgio Zonta, vice-presidente para caminhões da Fenabrave.

Para ele, a dificuldade de trocar o veículo também explica o menor volume de negócios. “Essa retração no bimestre ocorreu pelas taxas de juros mais altas e também pela menor capacidade de compra. O atual valor do frete não encoraja os caminhoneiros a entrar num financiamento”, diz Zonta.

Para a fabricante de caminhões Iveco, a queda entre os usados neste começo de ano pode ser momentânea: “A tendência é que a venda volte com força nos próximos meses”, afirma Ricardo Barion, diretor-comercial da Iveco. O executivo acredita que esse movimento será puxado pelos caminhoneiros autônomos.

A retração no comércio de usados também foi percebida pela Selectrucks, divisão da Mercedes-Benz dedicada ao comércio de modelos de segunda mão. “Com o aumento da taxa Selic há um desestímulo no consumo, o que dificulta esse tipo de operação”, afirma Luiz Pereira, gerente da Selectrucks.

“Continuamos confiantes em 2022, mas naturalmente é preciso cautela, afinal estamos atuando com um cenário mundial desafiador, que impacta diretamente o nosso mercado”, diz Pereira. A Selectrucks tem nove lojas distribuídas em quatro regiões (Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste e Sul) e revende usados Mercedes-Benz e de outras marcas.

Sales, da Fenauto, acredita na normalização desse mercado até o fim de 2022: “É natural que a economia se recupere no segundo semestre, exceto quando enfrentamos eventos heterodoxos”, afirma, referindo-se à possibilidade de agravamento no conflito entre Rússia e Ucrânia.

Histórico indica provável recuperação 

Uma análise feita a partir dos arquivos de usados da Fenabrave (com registros desde 2004) leva a crer que venda de caminhões de segunda mão pode mesmo se recuperar durante o ano. Como regra, os caminhões usados acompanham para cima ou para baixo o movimento de venda dos novos, mas os dados mostram que as transações de usados já cresceram também nos anos de 2005 e 2016, quando os zero-quilômetro recuaram.

No intervalo entre 2014 e 2015, quando os emplacamentos de novos caíram quase 50% (de 137 mil para 71,8 mil), as transferências de caminhões usados recuaram apenas 3,4% (de 341 mil para 329,3 mil).

Velhinhos como moeda de troca

Assim como na venda de veículos novos, a maioria dos financiamentos de usados ocorre pelo Crédito Direto ao Consumidor (CDC): “Normalmente se dá um caminhão mais antigo como entrada e completa-se um pouco mais o valor, ajustando a prestação ao bolso do financiado ou da empresa que vai utilizar o veículo”, afirma Sales, da Fenauto.

Na rede Iveco também é comum a utilização do veículo usado na compra de outro com menor quilometragem. De acordo com a empresa, suas concessionárias costumam financiar o saldo restante em 24 a 36 meses.

Já os bancos chegam até 60 meses, dependendo da idade do caminhão e do perfil do cliente. A fabricante de caminhões recorda que é mais fácil conseguir prazos mais longos para veículos até dez anos. O Iveco Capital, banco da montadora, financia até 80% do valor do veículo.

A Selectrucks informa que a maior parte dos caminhões que revende foram fabricados entre 2015 e 2020. Os negócios quase sempre são feitos por CDC, tendo o Banco Mercedes-Benz como principal fornecedor de crédito.

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