Meios de transporte

Etanol ou gasolina: qual a melhor opção para abastecer sua moto flex

Presente em cerca de 70% das motos vendidas no Brasil, tecnologia bicombustível também permite uso do combustível renovável. Mas vale a pena?

5 minutos, 46 segundos de leitura

25/05/2021

Por: Arthur Caldeira

Yamaha recomenda que os proprietários de suas motos flex usem, pelo menos, 3 litros de gasolina no tanque quando a temperatura ficar abaixo de 20 °C. Foto: Divulgação

Criada há mais de dez anos, a tecnologia bicombustível está presente, atualmente, na grande maioria das motocicletas de até 300 cm³ fabricadas no Brasil. Os modelos flex correspondem a cerca de 70% das motos vendidas por Honda e Yamaha, as maiores fabricantes do setor no País.

A tecnologia foi desenvolvida no Brasil e ainda é utilizada apenas em nosso País, grande produtor de etanol. A criação das motos flex foi fruto da entrada em vigor da terceira fase do Promot, o Programa de Controle da Poluição do Ar por Motociclos e Veículos Similares, em 2009, e que, praticamente, obrigou as fábricas a adotarem injeção eletrônica de combustível.

Com alimentação mais precisa, feita por bicos injetores, e comandada por uma central eletrônica, foi possível criar a primeira moto flex do mundo. Lançada em junho de 2009, a Honda CG 150 Mix inovou e virou notícia em todo o planeta.

Além da injeção eletrônica, as motos flex possuem características técnicas específicas para o funcionamento com etanol e gasolina, em qualquer proporção. Além da central eletrônica com programação específica para variação dos combustíveis, peças mecânicas, como tanque, corpo de injeção e até catalisador, recebem tratamentos específicos para utilização de etanol.

Desenvolvidas com o objetivo de oferecer a opção para o motociclista abastecer com etanol ou gasolina, as motos bicombustíveis também são ecologicamente “corretas” – afinal, o combustível renovável polui menos que a gasolina, de origem fóssil. “O resultado da queima do etanol pelo motor produz menos gás carbônico, principal gás responsável pelo efeito estufa”, explica Alfredo Guedes, engenheiro e supervisor de relações públicas da Honda Motos.

A queima do etanol também emite menos partículas na atmosfera. “Comparado com a gasolina, não produz gases nocivos como o benzeno”, acrescenta Alexandre Ramos, engenheiro e instrutor de treinamento da Yamaha no Brasil.

Vantagens do etanol

O etanol também traz vantagens no desempenho do motor. Uma Honda CG 160 Flex, por exemplo, produz 15,1 cavalos de potência, quando abastecida com etanol – na gasolina, a potência é de 14,9 cv. “Isso acontece porque o etanol suporta mais a compressão. Com ela mais alta, o rendimento do motor é melhor”, resume Guedes.

Entretanto, a principal vantagem mecânica é que o etanol produz menos resíduos no motor que a gasolina. “Com o tempo, o acúmulo desses resíduos pode causar mal funcionamento do motor, como pré-ignição e maior desgaste das peças móveis”, completa Ramos.

Em tempos de gasolina tão cara, o etanol também passou a ser vantajoso financeiramente, principalmente em regiões como a Sudeste, onde a produção sucroalcooleira é maior. Entretanto, apesar do preço por litro ser menor, a moto abastecida com etanol utiliza mais combustível. “O consumo em quilômetros por litro com álcool é maior. Essa diferença gira em torno de 30%”, afirma o engenheiro da Yamaha.

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Com etanol, moto “bebe” mais

Em medições feitas pelo Instituto Mauá de Tecnologia, com as motocicletas flex da Honda, essa diferença fica mais clara. Uma Honda CG 160 roda 47,4 quilômetros com 1 litro de gasolina; com etanol, o consumo médio é de 30,3 km/litro, de acordo com dados coletados pela fabricante em um modelo 2016/2017. Vale ressaltar que as medições seguem uma metodologia: são realizadas com o mesmo piloto, em condições climáticas semelhantes e no mesmo percurso. Um programa desenvolvido pelo instituto determina o percurso e simula o uso urbano e rodoviário.

Já em uma Honda CB 250 Twister, de 2019, essa diferença é menor: a moto roda 24,6 km/litro com etanol e 35,5 km/litro com gasolina. Isso acontece, segundo Alfredo Guedes, em função da evolução eletrônica.

Além de receber tratamento especial em diversas peças para resistir a maior corrosão causada pelo etanol, as motos flex contam com uma central eletrônica com diferentes mapas de ignição. Essa central eletrônica detecta, por meio de sensores, qual tipo de combustível está sendo “queimado” pelo motor e escolhe o mapa mais adequado.

“As motos flex têm, em geral, quatro mapas na central eletrônica: só para etanol; mais etanol que gasolina; meio a meio; e mais gasolina. Os processadores modernos escolhem o mapa mais adequado em uma velocidade maior. Por isso, a diferença de consumo entre os dois tipos de combustível está diminuindo”, explica Alfredo Guedes.

Mas é fato que a moto com etanol “bebe” mais. Até mesmo por suas características. Uma boa maneira de saber se vale a pena ou não é dividir o preço do litro da gasolina pelo litro do etanol. Se o resultado for 0,7 ou menor, vale a pena optar pelo combustível renovável.

Em função do consumo ser maior, o uso do etanol também reduz a autonomia da motocicleta. Ao abastecer apenas com etanol, o motociclista rodará menos quilômetros com um tanque e fará mais visitas aos postos de combustíveis.

Os fabricantes ressaltam que os proprietários podem abastecer com qualquer um dos combustíveis ou, ainda, misturar ambos, embora ainda circulem mitos pelas redes sociais como esquentar a moto abastecida com etanol ao dar partida ou reduzir a vida útil da bateria, por causa da dificuldade de partida – esses problemas são negados pelas fábricas.

Só é preciso atenção em regiões extremamente frias, alerta Alfredo Guedes. “Em locais em que a temperatura ficar abaixo de 5 °C, recomendamos usar pelo menos 25% de gasolina no tanque para não ter dificuldade ao dar partida”, explica.

Já a Yamaha recomenda que os proprietários de suas motos flex usem, pelo menos, 3 litros de gasolina no tanque quando a temperatura ficar abaixo de 20 °C.

Por que scooters não são flex?

Honda e Yamaha oferecem motos bicombustíveis com motores que vão de 125 cm³, caso da Yamaha Factor 125, até 300 cc, como a Honda XRE 300. Entretanto, nenhuma scooter de ambas as marcas conta com a tecnologia flex.

Segundo Alfredo Guedes, da Honda, isso acontece porque as scooters são projetos globais, desenvolvidos na Tailândia e Indonésia, e seria preciso um investimento local muito alto para criar uma scooter bicombustível apenas para o mercado brasileiro. “Além disso, tem a questão da autonomia. Como o consumo é maior com etanol e as scooters têm tanques pequenos, a autonomia ficaria muito reduzida”, diz ele. Guedes cita, por exemplo, a motoneta Biz 125, que precisou receber um tanque de maior capacidade quando virou flex.

A Yamaha, por e-mail, afirma que “por se tratarem de produtos globais, presentes em outros mercados, e também pelas características de utilização das scooters, predominantemente urbanas e utilizadas, na maioria das vezes, em curtas distâncias, não haveria nenhum benefício relevante ao cliente”

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