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Meios de transporte

Mulheres buscam o merecido reconhecimento

Em cargos de liderança nas empresas, elas vêm provocando mudanças importantes no segmento

Arthur Caldeira

23/03/2021 - 5 minutos, 15 segundos


mulheres líderes
Da esq. para a dir.: Erica Trosman, Rosy Souza (sentada) e Iael Trosman comandam a Laquila, uma das maiores empresas de motopeças da América Latina. Foto: Divulgação Laquila

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Embora ainda haja quem resista, o empoderamento feminino é uma pauta crescente e necessária em vários segmentos. Com o motociclismo não seria diferente. Há algum tempo, as mulheres deixaram (ou deveriam ter deixado) de ser meros objetos decorativos ao lado das motos.
Em cargos de liderança em diversas áreas no mercado de duas rodas, elas se unem e se organizam para conseguir o merecido reconhecimento profissional. Na edição do Mobilidade da semana passada, publicamos três histórias inspiradoras de mulheres que fizeram da paixão pelas motos sua profissão. Confira, a seguir, mais três relatos semelhantes.

Liderança feminina

Uma das maiores empresas de motopeças do Brasil, a Laquila, localizada em Campina Grande do Sul (PR), tem três mulheres no comando. Rosy Souza é diretora executiva e as irmãs Erica e Iael Trosman, sócias proprietárias, ocupam os cargos de gerentes de suporte comercial e de desenvolvimento de produto, respectivamente. Para Rosy, é desafiador trabalhar em um mercado dominado por homens. Ela afirma já ter sofrido preconceito, mas “estou há tanto tempo nesse mercado que nem percebo mais”. O pior são as cantadas e o olhar desconfiado da capacidade pelo simples fato de ser mulher, afirma a economista de 49 anos. 

A administradora de formação Iael Trosman, 35 anos, também já foi vítima de machismo, mas tem visto mudanças de mentalidade. “Antigamente, em eventos como o Salão Duas Rodas, acontecia muitas cantadas e falta de respeito por eu ser mulher, mas isso tem diminuído.” Tanto Rosy como Iael acreditam que as mulheres vêm conquistando seu espaço no mercado. “A gente não quer nada demais. Só buscamos a igualdade”, diz Iael.

Aos poucos, essa mudança tem sido notada até entre os colaboradores da Laquila. “Antes, abríamos uma vaga e nem recebíamos currículos de mulheres. Hoje, já há varias trabalhando ou querendo trabalhar na empresa”, conta Iael. Em alguns setores, como na colagem de adesivos em capacetes ou no controle de qualidade, as mulheres têm até a preferência. “Somos mais atentas aos detalhes e exigentes”, conta a gerente de suporte comercial.
Do ponto de vista dos negócios, a Laquila também tem criado linhas de acessórios e equipamentos voltados ao público feminino. “Há alguns anos, a mulher motociclista tinha que comprar uma peça masculina. Hoje, já temos jaquetas, luvas, calças e até botas desenhadas para o corpo da mulher”, afirma Iael. 

Acelere em busca dos seus sonhos

Sônia Harue Ando, gerente comercial e de marketing da Kawasaki

Quando viu a atriz Malu Mader acelerar uma Agrale 27.5 nas cenas da novela Fera Radical (1988), Sônia Harue Ando, 52 anos, colocou na cabeça que um dia teria aquela moto. E fez de tudo para alcançar seu sonho. Tirou carta, a despeito da preocupação dos pais, e comprou a tão sonhada moto trail. Mal sabia ela que, décadas depois, entraria para o mundo das duas rodas de vez. Há 11 anos, Ando trabalha na Kawasaki, em que passou por diversas áreas e, hoje, ocupa o cargo de gerente comercial e de marketing da subsidiária brasileira da marca japonesa.

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Formada em telecomunicações, trabalhou na antiga Telesp e sempre transitou em ambientes masculinos. “Nesse tempo todo na Kawasaki, não foram só flores. Em algumas situações, sofri com o machismo, mas estava acostumada a trabalhar onde havia mais homens”, conta ela. Em vez do confronto, Ando prefere mostrar, na prática, sua competência. “O meu trabalho fala por mim”, diz.
Afirma se sentir realizada por conseguir unir sua paixão pelas duas rodas com a profissão. “Trabalhar com motos me rejuvenesceu”, conta Ando, que pilota até hoje. E deixa um ensinamento a outras mulheres. “Você tem que ir em busca do que deseja. Corra atrás dos seus sonhos.” 

Foto: Divulgação Kawasaki

Elas querem viver a paixão por motos

Sara Sobral, analista de pós-vendas da Triumph Motorcycles

Sara Sobral trabalha há dez anos no mercado automotivo, sete deles na Triumph Motorcycles. A distância e o tempo que demorava entre sua casa em São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista, e a sede da empresa, no bairro do Morumbi, Zona Sul da capital, já faziam a administradora de 34 anos pensar em comprar uma moto para se locomover. “Por que não?”, questiona ela. No entanto, ainda se sentia insegura para encarar o trânsito em duas rodas.
Mas foram mesmo o trabalho como analista de pós-vendas e a participação nos eventos promovidos pela marca de motos inglesa os incentivos que faltavam para ela tomar coragem e tirar carta. Supreendida pela pandemia, o processo se iniciou no início de 2020 e demorou mais que o previsto. Ela já fez aulas e foi aprovada nos testes, mas ainda aguarda sua habilitação na categoria “A”.

A percepção de que o interesse das mulheres, como Sara, pelas motos estava crescendo fez com que as colaboradoras da empresa se organizassem em um comitê feminino e propusessem a criação do inédito projeto “Women for The Ride” (algo como “Mulheres pelo Passeio de Moto”, em tradução livre do inglês). A iniciativa foi logo apoiada pela Triumph. “Percebemos que, assim como eu, muitas mulheres queriam fazer parte desse mundo das motos”, conta a analista de pós-vendas.
“Não queremos ser vistas só como um corpo bonito ao lado das motos nos eventos. Nós, mulheres, temos ideias, projetos e inteligência. Prova é que já estamos em diversas áreas da sociedade”, diz, orgulhosa de fazer parte do comitê feminino da Triumph, formado, atualmente, por oito colaboradoras da empresa.

Sobral já sonha com sua moto, uma clássica Street Twin de 900 cc, mas sabe que deve começar aos poucos. “Não vou tirar carta e já pegar o trânsito de São Paulo. Quero comprar uma scooter, me acostumar a andar de moto e só depois vou poder realizar meu sonho”, aconselha. Enquanto isso, diz que já tem calça e jaquetas apropriadas ao motociclismo e pretende participar de cursos de pilotagem quando sua carta chegar. “Quero fazer parte de tudo isso”, diz Sobral, ansiosa para acelerar.

Foto: Arquivo pessoal

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