Meios de transporte

Quando menos é mais no trânsito

Cerca de 90% dos sinistros de trânsito são evitáveis, ou seja, não são acidentes e não devem ser nomeados dessa forma

3 minutos, 6 segundos de leitura

01/06/2021

SUS gastou R$ 15 milhões por ano em acidentes com ciclistas
Foto: Getty Images

A combinação que mais mata no trânsito é a embriaguez somada à alta velocidade e, até hoje, em pleno 2021, aqui, no Brasil, as conversas em rodas presenciais ou salas de WhatsApp ainda são piadas zombeteiras a respeito do pretenso direito de beber e dirigir. Em outras palavras, para o brasileiro é ‘chique’ transgredir as leis de trânsito e dar um ‘olé!’ em blitz cada vez mais raras e ineficientes.

Esse comportamento vem sendo amplamente combatido em todo o mundo e um dos marcos dessa batalha começa, em 1997, na Suécia, com o Visão Zero, método de gerenciar a mobilidade, em que nenhuma morte ou lesão no trânsito é aceitável. Mais interessante é que o Visão Zero parte da premissa de que, se tem um ser humano envolvido, sobretudo do sexo masculino – principais vítimas e causadores de mortes nas ruas e estradas de todo o mundo –, sempre haverá uma combinação de erros humanos e imprudência.

Esse ponto é fundamental para os gestores separarem o termo culpa de responsabilidade, e não se trata de semântica. No Visão Zero, todo o ambiente urbano é projetado de tal forma que um motorista, ao manejar seu veículo, é induzido a respeitar as regras e, com isso, evitar mortes e lesões no trânsito. Análogo ao que acontece na aviação, a cada sinistro, projetistas, gestores do trânsito, engenheiros estudam as causas e modificam as circunstâncias, podendo ser estas no viário como também nos próprios veículos, freios, design, entre outros aspectos.

Sistema integrado

O Visão Zero é um método de gerenciar a mobilidade que trabalha o sistema como um todo, desde o desenho das ruas até os veículos em si, sempre tendo como base salvar vidas e evitar lesões. Não se busca um único culpado, oriundo de um inevitável erro ou mal comportamento humano; no Visão Zero, enxergam-se as causas, que, em geral, recaem no desenho do sistema viário. Com isso, as autoridades assumem para si as responsabilidades. Bem diferente de jogar a culpa na vítima que morreu no asfalto, como fazemos por aqui.

Além de reprojetar o viário, incluindo as necessidades de todos os atores no trânsito, pedestres, entre eles crianças, idosos, pessoas com deficiência física, ciclistas, motociclistas e motoristas – que têm como prioridade a mobilidade ativa –, o sistema Visão Zero possui como principal ferramenta o ‘Acalmamento de Tráfego’, que é a redução das velocidades máximas no ambiente urbano, com ganhos para todos.

Velocidades mais baixas, além de ampliarem o ângulo de visão do motorista e, consequentemente, darem a ele a chance de prever e evitar um possível sinistro, de quebra, aumentam a fluidez de veículos. Em resumo, reduzir a velocidade máxima, que diminui drasticamente as mortes e lesões no trânsito, tem como efeito colateral o aumento na velocidade média do sistema como um todo.

Durante o Maio Amarelo, aqui em São Paulo, foram reduzidas as velocidades de 24 avenidas da cidade, o que representa um imenso avanço nessa batalha contra mortes evitáveis. Agora, cabe a nós, cidadãos, respeitar e usufruir dos benefícios para todos dessa medida.  Para finalizar, repare que eu não usei o equivocado termo ‘acidente de trânsito’ neste texto. Desde janeiro deste ano, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) passou a chamar esses casos de ‘sinistros de trânsito’, seguidos de sua correta denominação, como colisão, atropelamento. Nada mais correto, uma vez que 90% dos sinistros de trânsito são evitáveis, ou seja, não foram mesmo acidentes.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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