‘Se beber, não dirija’: propagandas da indústria do álcool enfraquecem combate a embriaguez na direção
Publicidade da indústria glamoriza consumo de álcool e enfraquece combate a embriaguez na direção

Todo mundo já viu uma propaganda de alguma marca de bebida alcoólica, elas estão nos canais de televisão e nas redes sociais. Para reforçar a imagem positiva, a indústria do álcool financia campanhas sobre os riscos da embriaguez na direção, o famoso “se beber, não dirija”. Entretanto, uma nova análise da Vital Strategies identificou que a maioria dos anúncios patrocinados pela indústria não mostram as consequências de dirigir embriagado.
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Conforme a organização, dirigir alcoolizado está entre os principais fatores de risco para acidentes de trânsito. Para combater essa prática, a Vital Strategies defende campanhas de mídias que alertam os reais perigos e consequências da prática, como mortes e acidentes graves. Entretanto, muitas dessas campanhas patrocinadas pela indústria do álcool deixa a mensagem mais leve e até glamorizam o consumo de bebidas alcoólicas, informa a organização.
“Uma campanha independente bem executada pode reduzir os sinistros em 13% e salvar vidas”, defende Sandra Mullin, Vice-Presidente Sênior de Comunicação da Vital Strategies.
Anúncios que enfraquecem o combate a embriaguez na direção
A pesquisa analisou 32 anúncios de vídeo sobre conscientização da embriaguez na direção veiculados em 14 países, vinculados entre 2006 e 2022. Conforme a Vital Strategies, os principais resultados demonstram que a indústria não quer associar as consequências do consumo de álcool e acabam amenizando as mensagens.
- O consumo de álcool foi retratado na maioria dos anúncios (73,5%). Em 56,3% dos casos, foi de forma explícita, quando o álcool é comprado, segurado ou servido. Ou de forma implícita em 17%.
- Em 61% dos anúncios, o consumo de álcool foi glamourizado e associado a situações aspiracionais. Por exemplo, em celebrações, inclusão social e demonstração de status social ou financeiro.
- Celebridades, incluindo atores, músicos, pilotos de corrida e outros atletas profissionais, apareceram em quase metade (49%) dos anúncios.
- A maioria dos anúncios (56%) não mostrou as consequências da direção sob efeito de álcool.
- 87% dos anúncios incluíam alternativas para evitar a direção sob efeito de álcool, como o uso de transporte público ou outro motorista. Entretanto, a organização diz que evidências demonstrarem que o conceito de “consumo responsável” varia entre indivíduos e é amplamente ineficaz.
- Em aproximadamente um terço (31%) dos anúncios, o chamado à ação, como “se beber, não dirija”, não estava alinhado com o conteúdo apresentado.
Aliás, nenhum dos anúncios utilizou tons que evocassem emoções negativas ou transmitissem claramente as consequências da direção sob efeito de álcool, diz a pesquisa.
O que seria uma campanha que ajuda a combater motoristas alcoolizados?
“Campanhas eficazes também apresentam personagens com os quais o público se identifica, evitam a estigmatização e utilizam narrativas realistas e sérias”, informa a divulgação da organização.
Aliás, essas diretrizes foram desenvolvidas com base em uma década de estudos sobre testes de mensagens conduzidos por meio do Projeto RS-10 da OMS e da iniciativa Bloomberg para a Segurança Viária Global em 20 países da África, América Latina e Ásia.
“Nossa análise mostra que essas campanhas promovem e normalizam o consumo de álcool em vez de prevenir danos. A saúde pública deve vir antes da imagem corporativa – precisamos de estratégias que realmente protejam vidas, não de iniciativas projetadas para servir aos interesses da indústria”, explica Irina Morozova, Diretora de Comunicação para Segurança Viária da organização.
Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apresenta diretrizes no pacote técnico SAFER, disponível para governos em todo o mundo.
O que fazer para prevenir a embriaguez na direção?
De acordo com a Vitar Strategies, governos e ONGs colaboram com a indústria do álcool devido às limitações de recursos em agências públicas. No entanto, essas parcerias frequentemente têm um custo: embora ofereçam financiamento de curto prazo, acabam comprometendo intervenções baseadas em evidências. Em vez de depender de iniciativas da indústria, o estudo recomenda que os governos invistam em estratégias independentes e comprovadas que priorizem a segurança pública.
Outras recomendações incluem que governos, órgãos de transporte e defensores da saúde pública reconheçam que os anúncios da indústria sobre direção sob efeito de álcool funcionam como ferramentas de marketing para promover o consumo de álcool, em vez de prevenirem danos de forma eficaz.
Somado a isso, a organização defende que as gestões locais e nacionais integrem suas comunicações sobre o tema, tornando o debate mais abrangente.
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