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Embaixadores

Adalberto Maluf

Presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico e diretor de marketing e sustentabilidade da BYD do Brasil

Mobilidade para quê?

A hora e a vez do veículo elétrico no Brasil

Precisamos urgentemente de uma política industrial que priorize a inovação e as novas tecnologias.

19/01/2021 - 3 minutos, 26 segundos


veículo elétrico
Foto: Getty Images

O fechamento das fábricas da Ford jogou luz sobre o futuro do setor automotivo e as políticas de subsídios, uma reflexão cada vez mais importante a ser feita em função das mudanças nos setores automotivo e de energia pelo mundo.

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É notório que nosso sistema tributário é complexo e que, muitas vezes, os ‘subsídios’ são medidas para reduzir distorções de um sistema ineficiente. No Brasil, ainda incentivamos tecnologias ultrapassadas, baseadas em combustíveis fósseis e em veículos com baixa tecnologia. Mas será que vale a pena?

As renúncias fiscais ao setor somaram R$ 69 bilhões entre 2000 e 2020. Entretanto, o País emplacou 27% menos veículos em 2019 do que em 2012, auge da política de isenção de Impostos Sobre Produtos (IPI). E, mesmo com as renúncias, o setor perdeu mais de 200 mil empregos diretos e indiretos, reduzindo para 1,3 milhão entre 2012 e 2019. Ademais, a participação do setor no PIB caiu de 5% para 3%.

Diferentemente do resto do mundo, que incentiva a indústria do futuro, com foco em índices de segurança e emissões cada vez mais rígidos, o Brasil optou por estimular a compra de veículos independentemente da tecnologia ou eficiência energética. Com isso, o País ficou para trás na corrida pelos veículos do futuro, todos elétricos, autônomos e conectados. E, pior, não desenvolveu os fornecedores ou tecnologias desses veículos. Preferimos subsidiar a ineficiência, mas esses subsídios não garantiram os empregos.

Esse processo aumentou, ainda, o uso do transporte individual e gerou mais congestionamentos, aumento nos custos do transporte público e pressão no sistema de saúde pública. No caso dos veículos pesados, enquanto o mundo já roda há anos com padrão Euro VI de emissões, a pressão por aqui conseguiu postergar sua entrada para 2023, uma distorção que inibe investimentos produtivos no setor e mata milhares de brasileiros por ano. E, mesmo assim, os caminhões e ônibus produzidos no Brasil perdem espaço de exportação.

Precisamos urgentemente de uma política industrial que priorize a inovação e as novas tecnologias. O Brasil não pode ficar tão defasado em relação aos padrões de emissão e segurança dos países desenvolvidos, sob pena de nossa indústria ficar cada vez menos competitiva e conectada às cadeias produtivas globais. 

China, Colômbia e Noruega

Países como China, Colômbia e Noruega mostram o caminho do sucesso. A China colocou 500 mil ônibus elétricos em circulação. A Noruega atingiu a marca histórica de 54% de mercado com os elétricos em 2020 e a Colômbia celebra as maiores frotas de ônibus elétricos urbanos fora da China.

E o que eles têm em comum? Políticas públicas integradas e coerentes de incentivo à transição energética e à mobilidade sustentável, com liderança dos governos nacionais e apoio aos municípios, por frotas mais limpas e ar mais puro em suas cidades.

Em 2020, mesmo com a pandemia, as vendas de veículos eletrificados bateram recorde no Brasil. Foram 19.745 unidades emplacadas, 66% a mais do que em 2019 (11.858) e 397% a mais do que 2018 (3.970), enquanto as vendas de veículos à combustão caíram 26% em 2020.

A matriz elétrica do Brasil é limpa, temos reservas dos minerais estratégicos para fabricar baterias e a liderança na tecnologia dos veículos flex. Temos de integrar os elétricos aos biocombustíveis. O Brasil pode ser o pioneiro nos híbridos flex plug-in e adensar a cadeia do lítio para os elétricos puros. 

Enfim, o Brasil não precisa copiar modelos externos para fazer a sua transição aos veículos do futuro. Basta não tentar inventar a roda, reduzir distorções que dificultam o crescimento dos veículos elétricos no País e sonhar com a construção da indústria e dos empregos do futuro.”

“Precisamos urgentemente de uma política industrial que priorize a inovação e as novas tecnologias.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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1 Comentário

  • Taciana Ramos - 21/01/2021

    O Brasil vem sempre ficando para trás por motivos de pouco investimento reforçados pelas péssimas escolhas políticas. Continuo otimista acreditando nas iniciativas de grupos que vêm se criando para discutir meios que alavanquem e insira nosso país neste universo tão atual. Como engenheira de produção e amante do universo da Mobilidade Elétrica, fico feliz em ter, cada vez mais, olhares diferenciados acerca do tema, antes pouco explorado e comentado em nosso idioma.

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