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Mobilidade para quê?

Elas dispensaram o carro e escolheram se locomover de bicicleta

Duas mulheres dão dicas preciosas às que querem começar a andar de bike pela cidade

4 minutos, 54 segundos de leitura

08/03/2022

Por: Luiza Wolf

Gisele Gasparotto abriu uma empresa para ensinar mulheres a andar de bike de forma segura. Foto: Arquivo Pessoal

Gisele Gasparotto e Lívia Guizzo têm paixão por pedalar, e tomaram a mesma decisão: trocaram o carro pela bicicleta para se deslocar pela cidade. Mas chegaram a essa conclusão por caminhos bem diferentes. Lívia começou a pedalar por esporte e, em janeiro deste ano, adotou a magrela inclusive como meio de transporte urbano. Gisele, por outro lado, pegou o sentido contrário: começou pedalando na cidade – há mais de 15 anos – e, depois, também passou a se dedicar à prática do ciclismo.

A vida de Gisele mudou depois que ela adotou a bike como estilo de vida. Hoje, aos 42 anos e mãe de uma menina, de 13, ela tem certeza de que encontrou sua vocação. Antes executiva de seguros, ela deixou a profissão para abrir uma empresa, a LuluFive, que ensina mulheres a andarem de bicicleta, seja para esporte, seja para mobilidade.

Mas, até abrir o próprio negócio no ramo, Gisele passou por muita coisa sobre duas rodas. “Tudo começou em 2005. Eu estava bem cansada da minha rotina, de pegar trânsito.” Veio de uma amiga o exemplo de pedalar até o trabalho. “Ela ia de bike ao escritório, e eu achei sensacional. Resolvi tentar. Comprei uma bicicleta simples, sem entender nada desse universo.”

Atualmente, a cidade de São Paulo conta com 667 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas. Mas, quando Gisele começou a pedalar, elas ainda não existiam. “Foi bem difícil; eu tinha medo. Na primeira vez em que pedalei para o trabalho, até demorei mais do que de carro.” Três anos depois, quando se divorciou, Gisele vendeu o carro e adotou de vez a bicicleta como meio de transporte.

Muitos perrengues

Com anos de experiência nos pedais, ela já passou por tudo: pegou metrô com a bicicleta – e decidiu que só aos fins de semana é possível fazer o trajeto, com o vagão do trem mais vazio –, sofreu um atropelamento, em 2015, e passou por casos de assédio no trânsito.

“Uma vez, eu estava voltando para casa de bike e um motoqueiro passou e me deu um tapa no bumbum. Ele acelerou e foi embora, e eu me senti impotente. Mas não pensei em desistir de pedalar.”

Gisele Gasparotto

A boa notícia é que Gisele analisa que, com o passar dos anos, ficou mais fácil ser ciclista. Os casos de assédio diminuíram, e os motoristas de carro aprenderam a respeitar mais as bicicletas.

O aumento da malha cicloviária também ajudou. Apesar disso, a maioria dos estabelecimentos ainda não está preparada para receber ciclistas. “Somos tratados com hostilidade quando chegamos com bicicleta”, diz Gisele. “Já deixei de almoçar em restaurante e até perdi consulta médica porque não pude estacionar a bike.”

Lívia Guizzo, por outro lado, foi para as ruas de São Paulo quando elas já eram mais convidativas às magrelas. Aos 28 anos, ela é ciclista profissional e participa de campeonatos há três anos. Poucos meses atrás, decidiu sair das estradas e, também, andar de bike na cidade.

“Acabei percebendo que eu não precisava mais ter carro. Era um gasto desnecessário”.

Lívia Guizzo

Em janeiro, a bicicleta virou o único meio de transporte de Lívia, que pedala até o escritório: ela trabalha na equipe de marketing da Semexe, plataforma online de compra e venda de bicicletas e artigos para ciclistas.

Diferentemente de Gisele, que utiliza bike de corrida para andar na cidade mesmo, Lívia deixa sua Speed em casa. “Prefiro utilizar as bikes de aluguel, que não são incríveis, mas me atendem bem no trajeto até o trabalho”, conta.

Lívia Guizzo começou a pedalar por esporte. Foto: Arquivo Pessoal

Todos os dias, Lívia pedala cerca de 8 quilômetros – tudo pelas ciclovias. “Acho que, atualmente, São Paulo possibilita muito bem a mobilidade com bicicleta”, avalia. “A manutenção é que, por vezes, deixa a desejar. Poderia ter mais iluminação à noite e há sempre alguns buracos ou desníveis”, diz.

Para ela, o maior problema ainda é o comportamento das pessoas – tanto dos motoristas de automóvel quanto dos próprios ciclistas. “Tem carro que quase atropela bicicleta e ciclista que vara o semáforo vermelho… Eu acho que ainda falta conscientização mútua para o ciclismo urbano”, afirma.

Apesar de se sentir segura na ciclovia, Lívia conta que, à noite, presta muito mais atenção, com receio de roubos ou assédio. “Eu adoraria bater no peito e dizer que pedalo sem medo. Mas é fato que assédio acontece; já passei por situações desagradáveis. As pessoas mexem, assobiam, falam coisas que você não quer ouvir”, diz. “Acho que a questão da segurança pega para todo mundo, mas, infelizmente, as mulheres acabam sendo mais vulneráveis, porque há a cultura de machismo.” Ainda assim, ela não vai desistir de pedalar.

“Nos sentiremos mais seguras com mais mulheres pedalando nas ruas.”

Gisele Gasparotto

4 dicas para começar a pedalar

Gisele Gasparotto dá dicas preciosas às mulheres que querem começar a andar de bike pela cidade

  • 1 – Sempre use equipamento de segurança, como capacete, mesmo na ciclovia.
  • 2 – Lembre-se de que a bicicleta é um veículo. É preciso respeitar as leis de trânsito. “Tem gente que resolve pedalar na contramão porque quer ver os carros vindo. Isso é errado e muito perigoso”, alerta.
  • 3 – Pense na rota antes de sair de casa. “Se você não se sentir segura, pesquise e faça um caminho que tenha ciclovias. Escolha ruas com menos movimento”.
  • 4 – Sempre sinalize as suas intenções. “Use as mãos para avisar que vai virar à esquerda ou à direita” E nada de pedalar com fone de ouvido. É preciso prestar atenção ao que acontece a seu redor.

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