Mobilidade para quê?

“Criação de políticas públicas é o maior desafio da mobilidade”

Camilo Adas, presidente da SAE Brasil, fala da mais recente ação apoiada pela entidade e das barreiras enfrentadas pela eletrificação no País

5 minutos, 39 segundos de leitura

13/10/2021

Por: Mário Sérgio Venditti

Camilo Adas e os pesquisadores Tobias Hückeholfen e Ariane Marques: jornada apoiada pela SAE Brasil. Fotos: Divulgação Mercedes-Benz

A SAE Brasil é uma associação que desenvolve, incentiva e patrocina ações voltadas a inovações tecnológicas da indústria automotiva e aeroespacial. A mais recente iniciativa chama-se Observatório da Mobilidade, em que 40 cidades brasileiras serão visitadas para um levantamento completo a respeito da mobilidade de cada local (veja quadro).

O engenheiro mecânico Camilo Adas, 60 anos, presidente da SAE Brasil, soube da ideia do casal Ariane Marques e Tobias Hückeholfen e não hesitou em apoiá-la. “Essa jornada fará uma radiografia da atual situação da mobilidade em 24 Estados brasileiros”, afirma. Adas concedeu entrevista ao Mobilidade para falar sobre o Observatório da Mobilidade e da eletrificação da frota brasileira.

 
Mobilidade: Que resultados o senhor espera do Observatório da Mobilidade? 

Camilo Adas: O estudo vai explorar um Brasil aonde o Brasil não vai. Ele investigará a mobilidade do País para colher insumos de conhecimento, que poderão ser aplicados daqui a dois, três anos. Sempre gostei de trabalhar muito próximo da realidade brasileira e o Observatório da Mobilidade é isso: uma tentativa de conhecer o Brasil como ele, de fato, é e de maneira inédita. 

Os apontamentos da jornada poderão servir de subsídio para a implantação de políticas públicas em prol da mobilidade?

Adas: Não dá para saber até que ponto o material coletado será aproveitado para a execução de políticas públicas. Por isso, é importante que as partes envolvidas, como SAE Brasil, Mercedes-Benz e também os jornalistas, repercutam os resultados ao máximo, com o objetivo de jogar luz na direção de possíveis soluções. O levantamento do estudo precisa atrair o interesse de órgãos públicos e montadoras.

Qual é um dos maiores desafios da mobilidade no País?

Adas: Hoje, 55% da população brasileira vive nos grandes centros urbanos e esse número aumentará para 70% até 2050. O que explica isso? A meu ver, o ser humano sente uma necessidade absurda por conforto, de ter por perto um bom hospital e uma estrutura educacional decente. Uma das consequências da migração desenfreada é que não se consegue mais andar de carro nas cidades. Portanto, o principal desafio da mobilidade diz respeito à criação de políticas públicas de zoneamento desses lugares, de saber como as pessoas vão se locomover. 


Em algum momento, o Observatório da Mobilidade certamente abordará e eletromobilidade. Qual é a visão da SAE Brasil sobre isso? 

Adas: Alguns assuntos ganham mais ou menos força de acordo com suas motivações. Até dez, cinco anos atrás, esse debate não cabia, mas, hoje, todo mundo sabe que a interferência humana no meio ambiente tem sido desastrosa, provocando mudanças climáticas. Atualmente, a descarbonização da atmosfera é o principal pilar para a defesa de uma gestão energética, embora o motor elétrico seja conhecido há muito tempo. A diferença é que, agora, existem questões muito importantes na pauta, como a recarga e o descarte das baterias dos veículos elétricos. 

O Brasil está preparado para desenvolver uma frota totalmente elétrica? 

Adas: A eletrificação está batendo na porta, mas a pergunta é: em que velocidade ela vai acontecer? Não esqueçamos que, no Brasil, a tecnologia do motor híbrido flex é importante, inclusive em termos de responsabilidade econômica e macrossocial, uma vez que as montadoras precisam pensar nas operações de suas fábricas no Brasil. Até 2035, é preciso pensar na transição para a eletromobilidade, e o sistema híbrido flex é fundamental nesse sentido.

As empresas estão empenhadas nessa transição? 

Adas: Sim, na medida em que as políticas ESG (meio ambiente, social e de governança) ganham mais destaque dentro das corporações, que vêm buscando intensificar seus trabalhos em prol da descarbonização. A SAE fala de eletromobilidade há dez anos, mas, naquela época, não existia massa crítica sobre o assunto. Só os engenheiros discutiam isso, e olhe lá. Hoje, as mudanças climáticas fizeram a pauta mudar. Não podemos desconsiderar, também, o motor movido a célula de combustível, que não agride a natureza e ainda é pouco falado no Brasil.


O senhor compartilha da opinião de que, sem uma política bem definida em torno da eletromobilidade, muitas montadoras deixarão o País? 

Adas: Definitivamente, não. Trata-se de uma visão pessimista e radical. Essa discussão não pode virar um Fla-Flu nem deve pender para o lado de uma única tecnologia, no caso a elétrica. Até porque, ainda há questões que não foram totalmente respondidas, como a disponibilidade de energia em um País que, hoje, vive às voltas de um apagão. Será preciso encontrar uma fórmula para equacionar as tecnologias, sem colocar em risco milhares de empregos na indústria automotiva.
Boxe

Viagem busca estimular soluções entre os modais

Hückeholfen e Marques na van Sprinter, da Mercedes-Benz, adaptada em motor home: 40 cidades visitadas ao longo de dez meses

Novas ações que estudam a mobilidade no Brasil sempre figuram no radar da SAE Brasil. No momento, a entidade está apoiando a jornada do Observatório da Mobilidade, uma viagem que está sendo feita pela dupla Ariane Marques e Tobias Hückeholfen, que visitará 40 cidades de 24 Estados brasileiros. Durante dez meses, eles cruzarão o País a bordo de uma van Mercedes-Benz Sprinter, convertida em motorhome pela implementadora Eco X.
Durante a jornada, que começou no dia 16 de setembro, Marques e Hückeholfen farão um levantamento minucioso para verificar se as localidades visitadas possuem um plano de mobilidade, analisando questões como relação habitantes por automóvel, integração entre os modais, urbanização, existência de incentivos a energias renováveis e percepção sobre acessibilidade. “Queremos saber como os avanços tecnológicos transformam a mobilidade nesses lugares”, afirma Ariane Marques.

A estimativa é que eles rodem, aproximadamente, 30 mil quilômetros, coletando dados técnicos que serão compilados em um eBook. Todas as informações servirão de subsídio para a discussão de grupos de estudos da SAE Brasil, compostos por representantes do mercado, Poder Público, terceiro setor e da academia. “Nosso objetivo é social, ou seja, fomentar políticas públicas e soluções de mobilidade”, revela Hückeholfen.

O casal pretende dirigir, no máximo, 600 quilômetros por dia. Para deixar a Sprinter sempre em ordem, eles terão à disposição uma rede de concessionários de 175 pontos ao longo do caminho, além da Vans Connect, plataforma de conectividade para gestão avançada de frota e monitoramento logístico.

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