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Mobilidade para quê?

“Em 2023, vamos ter o carro elétrico compartilhado”

Depois do serviço de bicicleta criado há 12 anos, Itaú oferecerá automóveis para viagens curtas

9 minutos, 16 segundos de leitura

01/02/2022

Por: Tião Oliveira

“A gente não vê sinais de canibalização do mercado do carro próprio. E não há indícios de queda nos próximos anos.” Foto: Divulgação Itaú

Rodnei Bernardino trabalha no setor financeiro há 23 anos. O que pouca gente sabe é que um dos primeiros empregos do estatístico foi na Pirelli. Talvez isso ajude a explicar sua paixão por soluções de mobilidade, sobre as quais ele fala com entusiasmo.

Desde 2013 no comando da área de negócios de veículos do Itaú Unibanco, o executivo comemora o melhor resultado da história do banco na liberação de crédito para a compra de veículos. E falou ao Estadão sobre o projeto da bike Itaú, que deu origem ao Veículo Elétrico Compartilhado (VEC), e as perspectivas para o setor em 2022.

Que balanço o sr. faz de 2021?

Rodnei Bernardino: O ano passado foi bastante especial para nós, na área de mobilidade como um todo. E também na área de financiamento de veículos. Foi um ano de crescimento muito relevante. Investimos muito na nossa operação de veículos, no VEC (veículo elétrico compartilhado), em comunicação, no tag Itaú, que oferece o serviço para todos os clientes sem o pagamento de mensalidade.

Na área de financiamento, de janeiro a setembro colocamos no mercado R$ 25 bilhões em crédito, o que significa crescimento de 67% na comparação com o mesmo período do ano anterior. No terceiro trimestre, o banco liberou R$ 10 bilhões em novas concessões de crédito para pessoas físicas e jurídicas.

Crescemos 44% no período. Foi o maior patamar da série histórica do Banco. O mercado cresceu bem menos. Ou seja, ganhamos participação de mercado. Isso mostra o quanto a gente acredita no segmento automotivo e na melhoria da oferta de transporte e mobilidade. Nossa operação de veículos tem como propósito viabilizar o acesso às soluções de mobilidade.

A mobilidade urbana é uma das causas em que o Itaú Unibanco tem um compromisso muito claro com a sociedade. Temos uma longa história de atuação, que começou há 12 anos com a bike e vem crescendo ano após ano. A (plataforma de streaming) WTW e o Cubo Smart Mobility (aceleradora de startups) também mostram que acreditamos nesta causa, que é um pilar importante de sustentabilidade. Vamos continuar sendo um relevante agente do segmento.

Essa grande busca por crédito mostra que há muita gente interessada na posse do carro…

Bernardino: É muito interessante ver as pessoa procurando novas formas de mobilidade. Estão aí Uber e 99 além do táxi, da bicicleta e do patinete, que a gente não sabe se volta ou não. Há um movimento forte no aluguel de longa e curta duração. Montadoras, locadoras e concessionárias estão investindo nesse segmento.

Em grandes cidades, como São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte, a relação de carro por habitante é grande. Mas, no Brasil, há um espaço enorme para crescer. E, mesmo nas cidades populosas, a frota é antiga. Tem entre sete e oito anos no caso de veículos leves varia de 15 a 20 anos nos pesados. Dos 12 milhões de veículos comercializados no Brasil por ano, só 2 milhões são novos. Estudamos muito o comportamento do consumidor.

Ele é multimodal. Muitos têm carro e também usam carro por app e bike, por exemplo. Por causa da pandemia, quem pôde fugiu do transporte público e migrou para o individual. É interessante que o Brasil tem mercado para muita coisa. Mesmo havendo mais bicicletas, mais veículos compartilhados e de aluguel, a gente não vê sinais de canibalização do mercado do carro próprio. Não há indícios de queda nos próximos anos.

Quando a gente projeta para 20, 30 anos para frente, ainda haverá muito espaço. Tanto que há várias montadoras chegando ao Brasil. Há duas grandes chinesas (BYD e Great Wall Motors), por exemplo, fazendo novos investimentos no mercado brasileiro, por causa do bom potencial. Somos o sétimo maior mercado do mundo. O de usados, é o terceiro maior, só perde para a China e os EUA.

Quem quer fazer uma viagem, um passeio de fim de semana, pode usar o carro próprio. Para trabalhar durante a semana ou ir a um almoço de negócio, pode usar o VEC ou a bike, por exemplo. Então, o uso dessas múltiplas opções de modais é muito forte no consumidor brasileiro.

Como está o projeto do VEC?

Bernardino: É um motivo de orgulho fazer esse projeto. Estamos aprendendo muito. Vamos esperar um pouco mais para ter a experiência totalmente azeitada para ir para rua. Ou seja, primeiro ir para as empresas e depois ir para o público em geral. Temos de melhorar essa experiência.

O projeto atrasou porque percebemos que ainda há questões para resolver. Por exemplo, como abrir e fechar o carro quando você está sem o celular. É o caso, por exemplo, se o usuário resolver deixar o carro no estacionamento. Como o manobrista vai fazer, se a chave é o seu celular?

Obviamente, o serviço é para ser utilizado para ir do ponto “A” ao “B”. Porém, em algum momento você pode precisar parar na rua. Seja como for, o VEC vai incentivar o uso do veículo elétrico, que ainda é um produto muito caro. O VEC vai permitir que mais pessoas utilizem esse tipo de veículo, que é mais sustentável, confortável e seguro e silencioso.

Um aspecto interessante é que esse projeto atrai mais empresas do que a gente imaginava. As montadoras querem expor seus veículos. Também há, por exemplo, locadoras e supermercados e outras empresas do varejo.

Estamos conversando muito com redes de estacionamento, porque podemos instalar as estações nesses locais, que são seguros e, assim, o cliente vai ter uma boa experiência. No começa, não imaginamos que o projeto atrairia tantos players diferentes.

Quando o VEC estará disponível para o público em geral?

Bernardino: Neste ano eu creio que ainda não vamos oferecer. Vamos focar as empresas, um mercado que, inclusive, a gente não imaginava que atrairia. Começamos dentro do próprio Itaú, para os funcionários.

Muitas empresas viram o projeto e nos procuraram para oferecer também aos funcionários delas. Então, preferimos começar com esse mercado para depois ampliar. Acreditamos que, em 2023, o mercado estará mais maduro e vamos poder lançar o VEC para o público.

A partir do segundo trimestre ou início do primeiro semestre (de 2021), você vai começar as ver o VEC nas ruas. Mas ainda para empresas.

A bike é muito usada por entregadores e, assim, gera receita. Também produz um enorme volume de dados que pode ser utilizado até para ajudar o Poder Público a definir políticas de transporte…

Bernardino: Com a pandemia, cresceu muito a utilização da bike por pessoas querendo trabalhar. Isso é resultado do aumento do comércio eletrônico, que gerou enorme demanda por entregas.

Muito da experiência da bike está nos ajudando com o VEC. Há uma riqueza enorme de informações extraídas de dados com as viagens e os caminhos percorridos pelos usuários.

Portanto, conseguimos identificar a demandas. E o VEC, que é extremamente conectado, vai nos ajudar ainda mais para gerar insights para novas soluções. Isso vai permitir a criação de estratégias de negócios. Estamos aprendendo muito no dia a dia.

O que é o Cubo Smart Mobility é qual é o objetivo do projeto?

Bernardino: Lançamos o Cubo Smart Mobility em janeiro. É um hub de inovação aberta que tem, como objetivo, estimular o desenvolvimento de soluções de mobilidade no Brasil e na América Latina. A meta é beneficiar a população e incentivar o uso de vários modais. É uma grande oportunidade para empresas e startups mostrarem seus trabalhos e atrair investidores. Além do Itaú, participam empresas, como Tim e Stellantis.

Assim, a ideia é fomentar soluções de transporte individual, público e a integração desses multimodais. Como resultado, há também a redução das emissões de dióxido de carbono (CO2). Onde há problemas a resolver, há oportunidades de negócio. Então, a gente atrai empresas querendo resolver problemas e crescer.

Ficamos impressionados com o número de empresas interessadas em participar. E estamos apenas engatinhando no tema. Ou seja, esse hub vai crescer bastante.

Há planos de expandir essas soluções de mobilidade para outros mercados?

Bernardino: A bike está em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Recife e Olinda. E também em Buenos Aires e em Santiago, no Chile. Ou seja, temos um know how muito grande.

No caso do VEC, depois de estar consolidado no Brasil faz sentido ampliar para a América do Sul ou a América Latina. O Cubo Smart Mobility já atrai empresas de todo o Brasil. E as soluções são para o país inteiro.

“Em 2021, foram liberados mais de R$ 200 bilhões para a compra de veículos no País. Há muito crédito disponível.” Foto: Divulgação Itaú

A área de mobilidade é uma unidade de negócios do Itaú Unibanco?

Bernardino: Mais ou menos. Sou responsável pela unidade de negócio voltada ao financiamento de veículos. Há uma unidade que cuida dos projetos ligados à mobilidade e da gestão da bike.

Seja como for, eu falo em nome do Itaú Unibanco, que tem várias frentes para cuidar dessa grande causa, que é a mobilidade. Não há uma área específica. Mas todas estão voltadas para um mesmo objetivo.

Há ações voltadas à redução das emissões de carbono?

Bernardino: Sim. O banco todo está olhando para questões ligadas à ESG. Isso faz parte da nossa estratégia e do nosso compromisso.

Entre outras iniciativas, temos taxas de financiamento diferenciadas para a compra de veículos elétricos, por exemplo. Esses temas são discutidos no comitê estratégico e direcionados a várias áreas do banco. A mobilidade é apenas uma delas.

Quais são as metas para 2022 e o que será feito para alcançá-las?

Bernardino: O ano de 2022 será desafiador. O banco divulgou uma previsão de PIB de -0,5. Então, acreditamos que o financiamento de veículos deve andar de lado e crescer, no máximo, 1,5%. Não deverá haver crescimento da massa salarial e o desemprego está elevado, assim como a inflação.

Além disso, as taxas de juros subiram. A inadimplência costuma crescer no começo do ano, mas não deve causar nenhuma crise. O dado preocupante é o grande endividamento da população. Continuamos atuando fortemente no mercado de financiamento de veículos e queremos ganhar participação.

Porém, obviamente com os pés no chão. Pode haver um soluço aqui e ali, mas o setor não deverá ter nenhum tipo de problema sistêmico. Em 2021, foram liberados mais de R$ 200 bilhões para financiamento de veículos no Brasil. Há muito crédito disponível.

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