Mobilidade para quê?

Escritor do Capão Redondo lança livro afrofuturista

O escritor Raphael Silva Santos, de 25 anos, nasceu e cresceu no Capão Redondo, zona sul da cidade de São Paulo. Desde pequeno gostava de histórias e, mais velho, conheceu o afrofuturismo — um movimento estético, social, político e cultural que atribui símbolos futuristas a personagens e narrativas negros, celebrando-os. Raphael gostou da ideia. Em […]

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16/09/2021

Por: Riviane Lucena, Embarque no Direito

Raphael Silva, escritor do Capão Redondo, é autor do livro Ubuntu 2048, da editora Kitembo. A obra afrofuturística e de ficção especulativa tem ilustrações de Inara Régia. Foto: arquivo pessoal

O escritor Raphael Silva Santos, de 25 anos, nasceu e cresceu no Capão Redondo, zona sul da cidade de São Paulo. Desde pequeno gostava de histórias e, mais velho, conheceu o afrofuturismo — um movimento estético, social, político e cultural que atribui símbolos futuristas a personagens e narrativas negros, celebrando-os. Raphael gostou da ideia.

Em 2019, ele enviou uma história para a editora independente Kitemboque estava selecionando trabalhos para uma coletânea de contos. Especializada em publicar jovens autoras e autores negros, a editora gostou tanto do texto do Raphael que o convidou a escrever um livro inteiro. Duas páginas se tornaram 200 e receberam o título Ubuntu 2048. As ilustrações são de Inara Régia. “Sempre escrevi como forma de desabafo e isso foi uma oportunidade de desabafar mais”, diz o autor. “Tudo que criamos é baseado em algo que vivemos. Tem muito de mim e de pessoas próximas nos personagens. Sou muito fechado e saber que alguém está lendo algo íntimo meu ainda é estranho.”

A tentativa de sobrevivência do jovem Tsehaí em uma carcaça que restou da cidade de Salvadora no ano de 2048 é o gancho da história. As condições de vida são as piores possíveis, em um mundo assolado por desastres ambientais causados principalmente por grandes indústrias de bilionários. Uma crise política e econômica. Há uma epidemia de suicídio, o fascismo se impõe e os meios de comunicação sofrem um apagão. A humanidade está muito próxima da extinção e a preocupação do protagonista é conseguir recursos para sobreviver pelo menos mais um dia. Difícil confiar em alguém, mas Tsehaí encontra uma ajuda inesperada na androide Kinaya, muito esperta e acolhedora e, assim como ele, caçada por uma espécie de milícia.

“No meio do caos, os dois entendem que só conseguirão sobreviver se colaborarem um com o outro em todos os níveis e desafios. Eles começam a experimentar a filosofia zulu ubuntu”, diz Raphael. Na tradução mais próxima da expressão africana, ubuntu significa eu sou porque nós somos. “Na prática, representa a ação de empatia autêntica, não só sentir a dor do outro, mas colaborar ativamente para solucionar o problema”, completa o autor.

Afrofuturismo é uma estética cultural que combina elementos da ficção científica, tecnologia, ficção histórica, fantasia, arte africana e arte da diáspora africana. Um exemplo de sua presença é o filme da Marvel Pantera Negra

Raphael afirma que seu objetivo com o livro é contar “uma história eletrizante, cheia de ação e detalhadamente emocionante, viciante, que desperta diversos sentimentos como medo, revolta, tristeza, e também esperança e compaixão”. Ele pretende, agora, escrever uma coletânea de contos de terror igualmente inspirada  no afrofuturismo. Para os jovens de periferia, deixa um recado. “Se você gosta de escrever, escreva; se você é negro, principalmente. Gostaria muito de ver livros de atores negros periféricos gerando renda, movimentando uma comunidade.”

Ubuntu 2048, escrito por Raphael Silva e ilustrado por Inara Régia, é vendido no site da editora Kitembo e na livraria Martins Fontes.

Trecho de Ubuntu 2048

“Ele, verdadeiramente uma gota do Sol na Terra, cai novamente do céu. Em outras vidas foi ela, e vestiu penas e labaredas. Outrora, no oeste da África, trajou formas mais diversas: Falcão, leopardo, dragão e Serpente. Entre passado e presente. Entre o inferno e o abismo. Tudo o que tocou virou cinzas. Sempre lhe disseram que seu destino seria queimar o universo. Destruir tudo ao seu redor. Talvez seja isso mesmo. Mas nesse rolê doido que é a vida, ou a gente faz o destino começar e terminar dentro de nós mesmos, ou a gente acaba aceitando o destino que alguém, em alguma salinha no alto de algum prédio, definiu pela gente.”

 

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