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Conteúdo original Brasil Estadão

Mobilidade para quê?

Mobilidade com foco nas pessoas

Cenário ideal é aquele que deixa as pessoas felizes em se movimentar pela cidade, afirma especialista

Luiza Pollo, especial para O Estado

07/06/2019 - 4 minutos, 3 segundos


Timothy Papandreou Confundador e assessor do Programa de Mobilidade Urbana Start Up In Residence da City Innovate, durante o Summit Mobilidade Urbana 2019.
Timothy Papandreou; Fundador da Emerging Transport Advisors. Foto: Werther Santana/Estadão

Há muitos anos que Timothy Papandreou adicionou a palavra mobilidade a seu cotidiano. Adepto de diferentes modais, da bicicleta ao carro compartilhado, mas sem veículo próprio, ele dá exemplo cotidiano do que prega em seu trabalho: um mundo com mais modais convivendo em harmonia e segurança.

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No Google, ele participou do projeto de desenvolvimento de carros autônomos em 2016. Além disso, ocupou cargos ligados à questão dos transportes em agências governamentais nas cidades de Los Angeles e São Francisco, nos Estados Unidos. Em 2018, fundou a Emerging Transport Advisors, uma consultoria que fornece informações e soluções sobre mobilidade. Papandreou esteve em São Paulo na semana passada para abrir o Summit Mobilidade Urbana 2019, promovido pelo Estadão, com parceria do aplicativo 99.

A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva.

Quais são os erros mais comuns ao se falar em mobilidade no futuro?

As pessoas ficam distraídas pela tecnologia e esquecem que, na verdade, ela não é um veículo. Nós não deveríamos estar esperando a tecnologia nos entregar resultados, deveríamos dizer o que queremos e fazer acontecer. Olha quantas reportagens dizem que os veículos autônomos farão isso ou aquilo. Eles não conseguem fazer nada, eles são apenas computadores. Agora, se nós dermos a eles os parâmetros do que fazer, eles vão responder.

Como você pensa que os carros podem fazer parte do futuro e conviver bem com outros meios de transporte?

Eu nunca digo que os carros são ruins. A tecnologia é na verdade muito boa, mas nós não estamos usando-a corretamente. Os carros são feitos para nos levar mais rápido em distâncias longas. Se a maior parte do nosso movimento é em distâncias curtas, o carro não é o meio correto. Além disso, o formato do carro está ultrapassado. Em geral, o carro tem cinco lugares, mas só uma pessoa usando, tem um grande motor na frente, um grande porta-malas atrás. Se reduzirmos esse espaço para o que realmente precisamos, para uma ou duas pessoas, isso ocupa muito menos espaço, mais parecido com uma moto. E mantemos o benefício do carro, que é a mobilidade rápida, é o acesso quando você quer. No cenário ideal, nós todos teríamos a possibilidade de combinar o transporte certo para cada tipo de viagem, com o perfil de cada usuário. Se conseguirmos fazer isso ao oferecer mais opções, as pessoas vão escolher sozinhas o que faz mais sentido para elas. Se você tem uma criança pequena e várias sacolas de compras, você não consegue pegar uma bicicleta nas condições que temos hoje. Mas, quando tem uma infraestrutura melhor de ciclovias, você poderia pegar uma bicicleta de carga e colocar a criança. Se chove muito na cidade onde você mora, você precisa de um carro. Mas não precisa do carro grande o tempo todo. Essa é a diferença.

Na sua opinião, qual é o cenário ideal para a mobilidade?

O ideal é um futuro em que você possa se movimentar de um jeito que te deixe feliz e que deixe o planeta feliz também. Muito do nosso transporte hoje nos deixa bravos e tristes. Se conseguirmos ficar felizes e trazer alegria de volta ao movimento, ajudando ainda a melhorar o meio ambiente, o que mais você pode querer? Talvez um tapete mágico.

Leia também: Os desafios da mobilidade hoje e no futuro

Solução para mobilidade está em ‘novos’ centros

Pensar em melhorar a mobilidade em uma cidade como São Paulo e seus 11 milhões de habitantes, que precisam se locomover de maneira eficiente todos os dias, não é uma tarefa fácil. Mas há medidas que podem ajudar. “Em cidades como São Paulo há vários centros. O ideal é transformar cada um deles em pequenas vilas”, sugere Papandreou.

É preciso fazer com que os primeiros três quilômetros em volta desses centros sejam como pequenas cidades, e a maioria delas poderá ser acessada sem carro. Isso significa melhorar a estrutura para os pedestres, criar mais praças e espaços públicos. Significa também criar postos de trabalho longe do centro financeiro. Assim, os deslocamentos do dia a dia ficam mais curtos, desafogando o trânsito nas longas distâncias e o transporte público.

Outra solução é o home office, embora o especialista reconheça que o trabalho é uma atividade social e realizá-lo de casa nem sempre é o ideal. Depois de diminuir o fluxo de pessoas em longos deslocamentos, vem a parte mais complicada, segundo Papandreou, que é conectar os centros entre si. “Não é construir mais metrôs, e sim mais vias exclusivas para que as pessoas possam ir e voltar rapidamente e com segurança.”

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