Mobilidade para quê?

Modais em (des)equilíbrio: solução é planejar e investir em mobilidade limpa

Na cidade de São Paulo, um terço das pessoas se deslocam a pé ou de bike, um terço de transporte coletivo e um terço em veículos particulares; o problema é que 80% do espaço urbano é ocupado por motorizados

3 minutos, 54 segundos de leitura

13/09/2021

Por: Ricardo Brandt

Foto: Getty Images

Em São Paulo, há um equilíbrio aparente quando se observa o modo de transporte usado pelas pessoas para se deslocarem de um local a outro: um terço vai a pé ou de bicicleta, um terço usa transporte coletivo e um terço utiliza carro ou moto. O problema é que 80% do espaço viário está destinado aos carros e motos particulares, o que desequilibra o ecossistema da mobilidade urbana, na mais populosa metrópole da América Latina. 

Os dados são da Pesquisa de Origem e Destino de 2017, feita que pelo Metrô SP e monitora os deslocamentos na Região Metropolitana de São Paulo a cada dez anos. Há quatro, eram cerca de 26 milhões de “viagens” (termo usado para cada deslocamento feito por pessoa) por ano, só na capital paulista.

Desse total, 17,8 milhões de viagens eram motorizadas (em transporte coletivo, como ônibus, metrô e trem, ou individual, carro particular, táxi e moto) e 7,9 milhões de modo não motorizado (bicicleta, patinete, a pé). Se considerarmos os deslocamentos por veículo individual, metade (56%) das pessoas utiliza carros e motos para percursos de, no máximo, 5 quilômetros, trajeto considerado curto, que pode ser feito de bike, de patinete ou a pé.

Desatar esse nó é essencial para uma cidade mais sustentável e saudável. Um desafio para a maioria das grandes e médias cidades, que, historicamente, pensaram e priorizaram o espaço urbano para veículos motorizados. Um cenário agravado pelas incertezas e possíveis oportunidades que virão no pós-pandemia da covid-19.

Declarada, mundialmente, em março de 2020, a pandemia tirou dos eixos o mapa de monitoramento da mobilidade em São Paulo e no mundo. Regras de isolamento social, adoção de trabalho remoto e medo de se contaminar geraram queda geral e abrupta nos índices de circulação, tanto de forma motorizada como não motorizada.

Estudos mostram que, em São Paulo, o número de passageiros nos ônibus, que chegou a ser de 9 milhões – na semana em que foi declarada a pandemia, em 11 de março de 2020 –, caiu para uma média de 2,9 milhões de usuários, entre abril e junho.

Com a volta da circulação das pessoas nas ruas, os impactos da pandemia ainda são alvo de estudos. Levantamento organizado pelo Centro de Excelência BRT+, com apoio do WRI Brasil, por exemplo, em nove capitais do Brasil, Colômbia, Argentina, Peru, Equador e Chile, mostra que a maioria das pessoas passou a usar menos transporte coletivo. O uso de bikes e caminhadas aumentaram em Buenos Aires e Bogotá, em que houve investimentos em infraestrutura para a mobilidade ativa, durante a pandemia.

“Virar a chave”

Especialistas em mobilidade e urbanismo afirmam que, para “virar a chave”, é preciso mais foco nas políticas que priorizem sistemas inclusivos e sustentáveis de locomoção, o transporte coletivo, os pedestres e os meios não motorizados, como bikes e patinetes Com 12 milhões de habitantes, a capital paulista é, ao mesmo tempo, exemplo do caos gerado por anos de políticas equivocadas e de planejamento moderno, com foco no desenvolvimento orientado para o transporte sustentável.

Estudo realizado pela Coordenadoria de Produção e Análise da Informação, da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, da Prefeitura de São Paulo, que compara dados de 2007 e 2017 da Pesquisa de Origem e Destino, mostrava aumento no índice de deslocamentos de bicicleta e de viagens coletivas motorizadas, em relação às de carros ou motos.
“Entre 2007 e 2017, houve aumento de 45% nas de bicicleta: saltou de 150 mil para 218 mil”, destaca a arquiteta Rossella Rossetto, umas das responsáveis pelo estudo da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, da Prefeitura de São Paulo.

A bicicleta ainda representa menos 1% na divisão de modais de transporte na capital (veja gráfico). Mas há uma transformação silenciosa e que está diretamente relacionada aos investimentos e ao planejamento. “O grande crescimento da mobilidade ativa se deu nas regiões mais estruturais da cidade e onde boa parte dos investimentos foram realizados”, afirmou Rossella Rossetto, em maio, durante palestra sobre Mobilidade e Plano Diretor realizada na Câmara Municipal de São Paulo.

Depois de anos usando carro para ir de casa ao trabalho, em Pinheiros, em São Paulo, e enfrentando engarrafamentos, o geofísico Vitor Lima Costa conhece, na prática, esse fundamento teórico. Há quatro anos, ele usa a bicicleta como principal meio de transporte. “Além de começar o dia com uma pedalada saudável, o que faz a diferença no meu dia de trabalho, aproveito para observar a cidade em movimento.”

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