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Mobilidade para quê?

“O Brasil é um ponto de inovação para a Volvo”

Marca sueca opera no País com estoque centralizado e 100% das vendas feitas de forma online

12 minutos, 41 segundos de leitura

09/03/2022

Por: Tião Oliveira

João Henrique de Oliveira: “As pessoas vão procurar cada vez mais pela posse e não pela propriedade do automóvel”. Foto: Divulgação Volvo

João Henrique Garbin de Oliveira é um homem letrado. Formado em Engenharia Industrial, área pela qual se diz apaixonado, ele fez MBA em áreas distintas, como Marketing e Comércio Exterior, Direito, Filosofia, História e Sociologia, além de Varejo. Trabalhou na indústria de plásticos e transmissões até chegar à Scania, em 2003. Agora, na segunda passagem pela Volvo Cars (na primeira ele ficou 16 anos), Oliveira conquistou o posto de diretor-geral. Por meio de chamada de vídeo, o executivo falou ao Estadão sobre as transformações que ele vem liderando na operação brasileira da marca sueca.

Como foi o ano de 2021 no Brasil para a Volvo Cars?
João Henrique Garbin de Oliveira: A gente começou 2021 acreditando que seria uma coisa e, no meio do caminho, entendeu que iria ser diferente. Seja como for, conseguimos manter a vice-liderança de vendas do segmento Premium, conquistado em 2020. A Volvo é uma das pioneiras do processo de eletrificação no Brasil e uma das referências para a marca. Somos o segundo país do mundo a ter 100% da linha de veículos eletrificada. Por isso, somos um pouco mais ‘protegidos’ em relação à garantia de entrega de produção. Isso permitiu mantermos nosso estoque e batermos o recorde de vendas. Em 2021, pela primeira vez, a Volvo passou de 8 mil unidades vendidas. Conseguimos manter a liderança com bastante folga no segmento. No caso dos híbridos plug-in, nossa participação chegou a 60% e no mercado total (de elétricos e híbridos), de cada quatro veículos vendidos, um era Volvo. Então, apesar dos  desafios no Brasil e no mundo, 2021 foi um ano de muito sucesso para a marca no País. 

Qual é a importância da conectividade para atrair o consumidor?

Oliveira: A eletrificação é uma das grandes tendências para o futuro e algo extremamente relevante para a Volvo. A outra é que as pessoas vão procurar cada vez mais pela posse e não pela propriedade do automóvel. Então, estão muito mais interessadas na garantia da mobilidade do que da propriedade. O terceiro ponto para a mobilidade para o futuro é a conectividade, e isso faz uma enorme diferença para o consumidor. O quarto são os sistemas autônomos, que vai fazer com que as cidades operem de forma mais eficiente. Assim, a conectividade é fundamental. A gente se acostumou com o celular, que deixou de ser um aparelho que só faz ligação telefônica e se transformou no nosso computador de bolso, correio, acesso ao e-mail e WhatsApp e banco.

O consumidor quer que o carro possa se conectar com diversos aspectos da vida dele. A Volvo sempre tentou fazer isso usando um conceito escandinavo, que é o minimalismo. Os painéis dos nossos carros são fáceis de operar e o XC40 elétrico não tem mais botão de partida, por exemplo. Isso agora parece óbvio, mas ninguém pensou em fazer isso antes. Quando você entra no carro, se senta no assento do motorista e coloca o cinto de segurança, ele reconhece que há uma pessoa ali e já está pronto para ser usado. A gente procura fazer com que a interação com o celular seja mais fluida, e isso é levado ao extremo no modelo 2022 do XC40 elétrico.

Nossas interfaces são projetadas pelo Google. Nossos carros utilizam tecnologia Android e são praticamente uma extensão do celular. O carro tem um plano de dados específico, que consegue não apenas comandar as funções comuns como pode comandar o carro por meio de comando de voz. Por exemplo, dá para ajustar a temperatura e potência do ar-condicionado e ficar conectado com a conta do Google home. Assim, o usuário pode, por meio de comando de voz, abrir o portão de casa, acender as luzes e ligar e ajustar a temperatura do ar, entre outras funções. Ou seja, a partir do carro e sem precisar sequer usar o celular. Com isso, há uma integração entre os vários tipos de gadgets, e o carro, de certa forma, também vira um deles. Ou seja, você não precisa de chave nem botão de partida para usar o carro, entre outras soluções.

A conectividade permite criar novos serviços, como atualizações remotas e parcerias com outras empresas. A Volvo já tem isso? 

Oliveira: Ainda não existe nesse formato, mas é algo que vai ser explorado no futuro. Isso permitirá oferecer evoluções para o próprio carro constantemente. Atualmente, você compra um carro e ele vai continuar sendo igual até o dia em que você troca por outro. Mas os carros estão virando megaplataformas de coleta e envio de dados e as marcas têm uma capacidade gigantesca de tratar esses dados, interpretar situações e promover melhorias de sistemas.

Com isso, é possível oferecer a possibilidade de o consumidor adquirir novas versões de software, que podem aumentar a performance e fazer o sistema de condução autônoma trabalhar de forma cada vez mais refinada. Essas atualizações vão ser feitas de forma remota, sem que seja preciso ir a um concessionário. E nem será preciso usar a internet de casa ou do trabalho. O próprio plano de dados do carro fará isso no momento em que for seguro. A oferta de aplicativos que ajudam a controlar outras coisas da vida do consumidor também serão cada vez mais comuns nos carros. Ou seja, o futuro é muito baseado em soluções geradas em dados e informação. 

Quais foram os impactos da aceleração da digitalização na Volvo? 

Oliveira: A gente já tinha um plano para a digitalização. A pandemia acelerou esse processo, uma vez que as pessoas estavam presas em casa, mas precisavam comprar e consumir. Nós criamos um showroom virtual, em que é possível conhecer os carros em visão 360°. Também trabalhamos muito a questão da compra online. Por exemplo, dá para configurar um XC40 elétrico no site, fechar a compra e escolher a concessionário para finalizar o processo. Dá até para receber o carro no endereço que preferir.

Também desenvolvemos um melhor atendimento automatizado por meio do Jacob, sistema cujo nome homenageia o primeiro carro da Volvo. Isso ajudou a descomprimir nossa central de atendimento e facilitou a vida do consumidor, que, na maioria das vezes, não precisa esperar pelo atendimento humano. Nossos atendentes podem focar os casos que precisam de maior interação. Ou seja, a máquina faz o trabalho mais repetitivo e o ser humano, o interpretativo. Atualmente, 100% das nossas vendas são feitas de forma direta. Então, em 2022 vamos investir ainda mais em soluções para ampliar nossos serviços digitais.

Qual foi o resultado do Volvo Lovers, que oferecia test drive grátis de toda a linha Volvo sem a necessidade de compromisso de compra do carro? 

Oliveira: Foi excelente. É algo de que a gente tem muito orgulho. A Volvo até recebeu um prêmio como o programa que representou o melhor uso de uma ferramenta em prol da diversidade. Isso porque não havia nenhuma obrigação para que a pessoa pudesse pegar um carro. Exceto ter uma CNH válida. O programa durou o ano passado, de janeiro a outubro e conseguimos fazer mais de três mil empréstimos. As pessoas pegavam os carros com o tanque e a bateria cheios e podiam ficar com eles durante quatro dias.

Os carros rodaram alguns milhões de quilômetros por nove Estados do Brasil. O programa foi feito para que as pessoas possam ter contato com a eletrificação. A gente mostrou que isso existe e quanto pode ser importante para o meio ambiente, importante para todos. Esse era o primeiro objetivo. Mas acabou trazendo uma série de histórias muito curiosas. Por exemplo, registramos cinco pedidos de casamento. A pessoa aproveitou para fazer um passeio legal e pediu a parceria ou parceiro em casamento. Um rapaz, de uma família que não tinha acesso a esse tipo de produto, pegou um carro para levar o avô, que tinha o sonho de conhecer um carro desse padrão, numa viagem.

Uma pessoa veio de Curitiba e percebemos que, pela quilometragem registrada, o carro rodou cerca de 19, 20 horas por dia. Ficamos curiosos e ela nos contou que aproveitou os quatro dias para inscrever o carro, não me lembro se era um (sedã) S60 ou S90 no Uber Black (risos). Todo mundo que passou pelo projeto disse que, com certeza, teria um carro eletrificado. Todos entenderam os benefícios e carregaram os carros nos pontos da Volvo. Instalamos mil eletropostos no Brasil e as pessoas puderam ver como o carro é fácil de carregar. A gente se orgulha e não vê a hora de fazer de novo. Tomara que os estoques e conjuntura permitam.

A Volvo foi a primeira marca a ter uma linha 100% eletrificada no Brasil?

Oliveira: Desde janeiro de 2021, só oferecemos carros eletrificados no Brasil. Entre o fim de dezembro e o início de janeiro fizemos uma segunda grande virada, que foi o lançamento do XC40 100% elétrico. Cera de 60% a 70% dos compradores vêm de veículos híbridos. Então, já estão na nossa jornada de caminhar dentro da eletrificação. E isso é fantástico. Acabamos de lançar o C40, que também é 100% elétrico, no Brasil. Temos convicção de que a eletrificação é a chave para a descarbonizar o transporte e de como isso é importante para o futuro.

O Brasil funciona como um laboratório para a Volvo testar novos produtos? 

Oliveira: O Brasil é visto como um ponto de inovação pela Volvo. O brasileiro é muito exigente e também inovador. Ele quer estar ligado às tecnologia mais modernas rapidamente. E isso é ainda mais interessante porque o País tem dimensões continentais. Há desde clientes que moram em São Paulo e rodam na cidade uns 15, 20 km por dia. Em 95% dos casos, a experiência de carregamento é em casa ou no trabalho. E há quem roda 500, 600 km. Assim, temos de oferecer suporte para que ele faça o carregamento e continue a viagem. Então, podemos contar lá fora como isso funciona. Somos responsáveis pela América Latina e nossa sede regional fica nos Estados Unidos.

Trocamos muita informação com os colegas da Califórnia. Muitas vezes, eles querem entender como resolvemos alguma situação para que possam dar mais velocidade na transformação por lá. No Brasil, 100% das vendas são feitas de forma direta. Ou seja, o concessionário faz a intermediação do negócio. Portanto, não precisam se preocupar com o estoque e ficam livres para fazer o que fazem melhor, que é promover uma excelente experiência ao consumidor. Tanto na hora da venda quanto no pós-vendas.

Essa é uma jornada que muitas marcas no mundo tentam fazer. No Brasil, fomos pioneiros nessa forma de operar e vendemos mais de 8 mil carros, o que é um volume muito relevante. Isso faz da Volvo do Brasil um polo de inovação e com que o nosso mercado seja tratado com bastante atenção pela matriz.

Como funciona essa operação sem estoque na rede? 

Oliveira: Todo o estoque é da Volvo, o que facilita muito a vida de todos. Antes, os concessionários tinham de ter um estoque gigante, duplicado, triplicado, para haver opções em todo o País.  Hoje, temos isso de forma centralizada, o que melhora a eficiência e reduz o tempo para atendimento dos clientes. Por exemplo, um carro comprado em Fortaleza pode ser entregue em cerca de cinco, seis dias. Também temos uma vantagem muito grande, que é fazer uma negociação muito transparente. O faturamento é feito diretamente pela Volvo, o que torna a negociação mais fluída. Todo mundo ganha com isso.

Quando essa forma de operação foi implantada?

Oliveira: Em janeiro de 2021. Ou seja, quando deixamos de oferecer modelos com motor a combustão. Foi um movimento iniciado em 2015, 2016. E, como um bom sueco, fomos fazendo aos poucos, para a rede ir se adaptando, aprendendo. a nos adaptando também. 

Quais são as perspectivas para 2022? 

Oliveira: Pretendemos manter os números de 2021. Ou seja, cerca de 8 mil carros. No lançamento do XC40 100% elétrico, em outubro, atingimos 5% do volume de vendas. Em 2022, com a chegada do C40, projetamos chegar a 43%. Isso representa uma transformação gigante e em linha com a nossa estratégia corporativa para o futuro. Porém, no primeiro semestre dever haver restrição de entregas por causa da falta de semicondutores e componentes. A partir do segundo semestre isso deve melhorar. Há o aspecto macroeconômico, que tem dois desdobramentos.

O primeiro, que já está acontecendo, é a alta dos juros, que encarece o financiamento. Por outro lado, isso derruba pressão do câmbio, com a cotação do dólar melhorando um pouco, o que dá um alívio e tanto para os importadores. O segundo é que em 2022 haverá eleições. Assim, vamos monitorar para entender se haverá algum impacto e se será preciso fazer ajustes. Seja como for, vamos promover cada vez mais o carro 100% elétrico no Brasil e avançar com bastante velocidade na nossa estratégia corporativa.

O sr. tem formação no setor industrial e vários MBA em outras áreas… 

Oliveira: Sempre fui curioso. E venho de uma formação em engenharia. Comecei a trabalhar em área industrial. Muita gente acredita que eu estar à frente de uma marca tão legal do setor automotivo é a realização de um sonho. Porém, não é. Gosto de carro e de tecnologia. Mas sempre gostei muito da área industrial, manutenção e operação. Seja como for, acredito que olhar o mundo sempre com o mesmo filtro é chato. Então, fiz MBA em marketing, o que abriu muito a minha cabeça. Depois, fiz outro  MBA em direito e foi muito legal.

Eu queria um desafio intelectual diferente e entender a vida e os negócios por outro lado. Depois, fiz um de varejo e mercado de consumo. Agora, estou me dedicando a estudar filosofia, história e ciências sociais. O mundo não é de uma cor só, ele é amplo. E, quanto mais você consegue reconhecer essas diferenças e analisar as coisas por outros lados, mais aproveita essa beleza toda e mais você é feliz. A diversidade é fantástica. 

Se pudesse mandar uma mensagem para o João de 20 anos atrás, qual seria? Oliveira: A grande mensagem é continuar sendo sempre fiel aos seus princípios. E aproveitar o dia a dia, as pequenas coisas e dar tempo ao tempo. Quando o time tem algum problema muito difícil de resolver eu costumo dizer: ‘Calma, com um pouco de fé tudo dá certo’. Então, o que eu diria para o João é: ‘Aposte firme na paciência, na calma, na fé e vai dar tudo certo.’

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