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Nasceu na cidade de Del Mar, na Califórnia, EUA. Desde 1984, mora em São Paulo.

Mobilidade para quê?

O trólebus da felicidade

Se todos os ônibus que circulam pelo centro fossem elétricos, com conexão à rede aérea (trólebus) ou não, o ar da região seria mais puro

26/03/2020 - 3 minutos, 1 segundo


ilustracao-de-trolebus

Muitos não entendem o meu entusiasmo pelo transporte coletivo. Tenho por ele o mesmo apreço que outros nutrem pelos automóveis. Ainda hoje, aos 60 anos de idade, me emociona a chegada de um trem de metrô na estação. É um pouco esquisito isso, reconheço. Descobri, no entanto, ao visitar o Japão, em 2010, que não sou só eu. Aquele país inteiro é louco por trens. Vendem-se baralhos com fotos de trens diversos, hashis em formato do trem-bala. Os trens de lá são, diga-se, obras de arte.

Histórias e memórias

Em São Paulo, estou longe de ser o único entusiasta do transporte coletivo. Basta ver os blogues e sites da internet dedicados à história e ao futuro dos ônibus, trens e metrô em nossa cidade e seus arredores. O “transporte” como se diz, acaba sendo incorporado às nossas memórias afetivas. Quando os bondes, de trilhos, foram aposentados em São Paulo, no ano de 1968 houve uma cerimônia com a presença do prefeito, muito choro, bandeiras e bandas. É o que li, ao menos, em um desses sites do transporte. Em 1968, ainda não conhecia o Brasil.

Modernidade no corpo

Apesar do meu entusiasmo pelo coletivo, por algum motivo obscuro, nunca andara eu nos trólebus modernos do centro da nossa cidade. Admirava-os muitas vezes ao vê-los passar, mas não havia utilizado nenhuma das suas dez linhas, com um total de 201 trólebus movidos a energia elétrica, conectados à rede aérea de alimentação.

Para quem gosta de ônibus, a versão elétrica é equivalente a um carro Tesla. O passageiro sente no corpo a sua modernidade. É mais limpo, sem fumaça nem cheiro de óleo, e acelera mais, com bem menos barulho. Já havia andado nos elétricos autônomos que saem do Terminal Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo, mas nunca nos trólebus do centro.

Resolvi pegar o trólebus Parque Dom Pedro II (2002/10), que sai da Praça da Bandeira, ao lado da Estação Anhangabaú do metrô. É sempre uma pequena aventura, para mim, navegar as pontes de pedestres aéreas que permitem descer por escadas dentro dessa praça. Esse caminho pelo alto, do Anhangabaú à Praça da Bandeira, oferece alguns ângulos únicos para se apreciar o Centro. É bom para tirar foto e colocar no Instagram. Recomendo.

Menos poluição

O Parque Dom Pedro II (2202/10) parte da plataforma 2. Leva você pela Rua Dona Maria Paula e sobe pelos fundos da Catedral da Sé, passa pela Praça João Mendes, pelo Pátio do Colégio e pela “Casa das Primas” até encostar no Terminal Dom Pedro, cuja arquitetura em aço e plástico de tubos e acessos pintados de amarelo e azul movimenta multidões.

Se todos os ônibus que circulam pelo centro fossem elétricos, com conexão à rede aérea (trólebus) ou não, o ar da região seria outro. Os prédios, como a Catedral da Sé, que é espetacular, diga-se, estariam bem mais limpos, as pessoas respirariam com maior facilidade, pegariam menos doenças de pulmão e haveria um clima de menos sofrimento.

Boa parte da poluição dali, hoje, vem da queima de gasolina e óleo diesel. As dez linhas de trólebus elétricos que operam hoje em SP economizam em CO2, o principal gás de efeito estufa, o mesmo tanto emitido por 20 mil automóveis. É o que diz a ciência. E, se há uma lição a ser apreendida nestes tempos de pandemia, é que, para melhorar a nossa vida moderna, é preciso ouvir os cientistas.

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