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Prefeita da Sé

Rotina e desafios da primeira mulher a administrar a maior estação de metrô de São Paulo

7 minutos, 52 segundos de leitura

08/03/2022

Por: Daniela Saragiotto

Rísia Benevides é responsável pelo local e pela infraestrutura para receber milhares de pessoas que circulam pela estação todos os dias. Foto: Marco Ankoski

Localizada ao lado do marco zero da capital paulista, a Estação Sé do Metrô, celebrou, em 17 de fevereiro, 44 anos de vida. Por lá, tudo é grandioso. Por suas 36 catracas de acesso ou saída, passam, nos dias úteis, cerca de 350 mil pessoas, o que representa 13% do total do volume de passageiros de todo o sistema metroviário de São Paulo. Um pouco menos do que a população total da cidade de Franca, no interior do Estado, estimada em 358 mil habitantes. É muita gente, claro. Mas o movimento na Estação Sé já foi bem maior. Antes do início da pandemia, em março de 2020, circulavam pelos pisos da estação, que faz a conexão entre a Linha 1-Azul e a 3-Vermelha, de segunda a sexta-feira, aproximadamente 600 mil pessoas. O que significa que, nesses dois anos, o movimento caiu quase à metade.

Para receber essas milhares de pessoas que passam pela estação, diariamente, há uma grande infraestrutura, que inclui dezenas de escadas, elevadores, banheiros, totens para carregamento do Bilhete Único, além de serviços como o auxílio no embarque de pessoas com deficiência, a Central de Achados e Perdidos, entre outros – um trabalho feito, constantemente, por uma equipe composta por 70 funcionários.

No comando dessa cidade, escavada a 27 metros de profundidade no coração da cidade de São Paulo, está Rísia Moura Oliveira Benevides, uma simpática baiana de 49 anos, que leva, em seu crachá funcional, o cargo de supervisora operacional 1, o mais elevado nessa função. A “prefeita da Sé” está na função há pouco mais de dois anos e é a primeira mulher a administrar a mais movimentada entre as 91 estações existentes nas linhas de metrô de São Paulo.

Há 19 anos na empresa, Benevides conta que começou como agente de estação e foi se preparando para o desafio, mesmo sem saber que seu destino seria a Sé, a maior de São Paulo. “Tudo começou a mudar quando vi que, para o cargo de supervisora de estação, era necessário ter formação superior. Então, me matriculei em um curso para tecnólogo de processos gerenciais, me formei e passei no concurso”, lembra. E foi assim que começou como supervisora, estreando na Estação Armênia. Depois, a São Bento – desafiadora pela proximidade com a Rua 25 de Março e pelo volume de pessoas – e, na sequência, para a São Joaquim, as três localizadas na Linha 1-Azul. “Em março de 2020, eu estava gerenciando quatro estações e fui convidada para assumir a Sé. Deu um frio na barriga, mas aceitei. Depois, vi que o trabalho era tudo o que eu já fazia, só que em escala muito maior”, explica.

Passageira da Linha Vermelha

Moradora do bairro da Penha, na zona leste, ela, como milhares de outros trabalhadores, também é usuária do metrô, diariamente. Antes das 7h, embarca na Estação Vila Matilde, na Linha Vermelha, em direção à Sé. Às 8h em ponto, começa seu ritual de trabalho, conferindo, atentamente, o que acontece na estação. “Já chego de olho em tudo: na postura dos funcionários, nas máquinas de recarga dos cartões, nos itens de acessibilidade, nas escadas rolantes e na limpeza”, conta Rísia Benevides. “Meu trabalho envolve diversas tarefas administrativas e operacionais e também tenho de estar muito próxima dos supervisores da estação”, diz. Como faz conexão entre duas das linhas mais movimentas do metrô, a estação central tem, na transferência dos passageiros, seu momento de maior movimento.

Nesse contexto, a velocidade para tomar decisões é fundamental: em cinco minutos, a estação recebe, em média, 12 trens nos horários de pico, cada um deles comportando até 1.800 pessoas. “Com esse volume de passageiros, qualquer pequeno incidente pode ter grandes consequências”, diz ela. Para quem trabalha no metrô, os maiores desafios são os atos de vandalismo, pessoas com comportamento de risco, fortes chuvas, acidentes nas escadas rolantes e até falta de energia elétrica.

“Quando chove muito, a Linha Vermelha opera com velocidade reduzida e, nesses dias, o volume de passageiros costuma ser maior porque as pessoas que usam carro dão preferência ao transporte público. Então, toda a equipe precisa ficar ainda mais atenta que o normal”, conta a “prefeita”.

Outro ponto de atenção, para ela e sua equipe, está no embarque de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, que somam em torno de 100 usuários, todos os dias. “Elas costumam transitar nos horários de ‘vale’. Ou seja, fora dos horários de pico. Pouca gente sabe, mas ajudamos todos os usuários com deficiência no embarque, seja conduzindo quem tem deficiência visual, seja colocando rampas para cadeirantes, seja avisando, pela central de comando, a estação de destino desses passageiros, que merecem toda atenção e cuidado”, explica.

Encontrando mais que objetos

Também fica na Estação Sé a Central de Achados e Perdidos, um serviço que existe desde 1975 e recebe itens de todo o sistema, que são armazenados pelo prazo máximo de 60 dias. Depois disso, quando não localizados por seus proprietários, são encaminhados para o Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo, e os documentos vão para os órgãos emissores. Benevides conta que já viu de tudo: carrinho de bebê, documentos, próteses, dentaduras, entre muitos outros objetos perdidos incomuns.

“É um dos nossos serviços que mais trazem satisfação, principalmente pela honestidade das pessoas. Outro dia, uma usuária até chorou quando reencontrou seu celular”, conta. Mas esse não foi o “achado” mais marcante de sua gestão: a central se orgulha por ter encontrado uma pessoa.

“Um homem estava confuso e se perdeu de suas malas. Nossos funcionários encontraram a bagagem e fizeram contato com a família do passageiro – foi quando descobriram que a pessoa estava desaparecida. Imediatamente, eles acionaram o sistema e, algum tempo depois, ele foi encontrado.”

Essa e outras histórias fazem parte do rico acervo de acontecimentos e memórias do local. “A Sé é um símbolo da mobilidade urbana, um local de muita diversidade, agitação, movimento. A Sé é vida”, resume.

Baiana de Presidente Dutra, ela conta como é gerenciar mais de 70 funcionários que atuam no atendimento ao público: “Decisões precisam ser rápidas e, sem um time comprometido, esse trabalho não seria possível”. Foto: Marco Ankoski

A “prefeita” da Estação Sé

Nome: Rísia Moura Oliveira Benevides
Idade: 49 anos
Formação: graduação em tecnológica em processos gerenciais; pós-graduação em especialista em liderança e desenvolvimento humano; e cursando ciências econômicas e MBA em gestão estratégica de negócios
Local de nascimento: Presidente Dutra (BA)
Bairro em que mora: Penha, zona leste de São Paulo
Estado civil: casada, com 2 filhas (meninas de 15 e 18 anos de idade)

Pioneirismo na cabine dos trens

Em 1986, ela começou a conduzir o Metrô na capital paulista e tornou-se a primeira operadora de trem do Brasil, cargo que, até então, havia sido somente ocupado por homens. Maria Elisabeth de Oliveira, 64 anos, foi uma pioneira. Beth, como é mais conhecida, está no Metrô há 36 anos, todos eles trabalhando na Linha 3-Vermelha, e se orgulha de ter incentivado muitas outras mulheres a fazer carreira na mobilidade.

Beth, a primeira mulher a conduzir no Metrô: “Atitudes preconceituosas me deixavam chateada, mas nunca pensei em desistir”. Foto: Marco Ankoski

Lembro que, no início, alguns usuários não entravam no trem quando me viam, e outros operadores zombavam da gente. Aquelas atitudes me deixavam muito chateada”, recorda. Um dia, conta ela, recebeu uma carta de um senhor, escrita por sua neta, que morava fora do Brasil, parabenizando-a por sua coragem. “A mensagem foi muito importante, mas nunca pensei em desistir.”

Ao longo dos anos, Oliveira testemunhou muitas inovações e mudanças no Metrô. Os sistemas manual e semiautomático, por exemplo, foram substituídos pelo automático. “Muita gente pensa que é um trabalho fácil, automático. Não é. Requer muito conhecimento. Somos treinadas para sanar qualquer tipo de problema, como falhas nas portas, defeitos pneumáticos, até rebocar. Felizmente, os metrôs são muito seguros, mas temos de ficar sempre atentas.”

Beth se diz muito realizada com sua profissão. “Logo cedinho, quando vejo as plataformas das estações lotadas de pessoas indo ao trabalho, me sinto feliz de fazer parte e poder ajudar tanta gente. Com o metrô, é possível cruzar a cidade de uma região a outra, em 40 minutos. Isso é incrível!”, diz.

Sua colega Maria Goretti Morais, 59 anos, hoje operadora de trem na Linha 1-Azul, foi uma das muitas mulheres que se inspiraram no pioneirismo de Beth, fazendo o treinamento duas turmas após a dela e começando a conduzir trens em 1988. “Lembro de uma vez, no começo, em que olhei para o tamanho do trem e pensei: eu que vou conduzir! Ali, senti o peso da responsabilidade de transportar milhares de pessoas, mas também um orgulho muito grande”, conta.

Também pioneira, Maria Goretti Morais, operadora de trem, começou a conduzir no Metrô em 1988. Foto: Marco Ankoski

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