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Mobilidade para quê?

Rali de carros elétricos tem proposta sustentável

Extreme E é disputado apenas em ecossistemas que enfrentam impactos ao meio ambiente

5 minutos, 44 segundos de leitura

15/06/2021

Por: Mário Sérgio Venditti

A primeira corrida do rali Extreme E foi disputada no deserto da Arábia Saudita, em abril. A ideia da nova competição é que as etapas da temporada aconteçam sempre em ecossistemas que enfrentam algum impacto ambiental. No Brasil, a prova será realizada em uma porção da Floresta Amazônica no Pará. Fotos: Divulgação

O piloto inglês Lewis Hamilton, sete vezes campeão mundial de Fórmula 1, é um cidadão engajado. Enquanto não está nas pistas pulverizando recordes, desempenha papel importante como ativista de movimentos sociais, como o Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”).

Embora pertença a uma categoria que ainda provoque emissões na atmosfera, Hamilton não pensou duas vezes em criar a equipe X44 para disputar o Extreme E, rali de carros elétricos que estreou em abril, na Arábia Saudita, e que levanta a bandeira da sustentabilidade. O ex-piloto de F1 Nico Rosberg, igualmente, tem escuderia própria, vencedora da corrida inaugural.

Um rali disputado exclusivamente por carros elétricos nasceu da ideia do empresário espanhol Alejandro Agag – que também fundou a Fórmula E – e do ex-piloto brasileiro Gil de Ferran, que tiveram a parceria da empresa brasileira de metalurgia e tecnologia CBMM.

Inspirados nos documentários do explorador francês Jacques Cousteau, eles se lançaram ao trabalho e anunciaram o Extreme E em 2019. O objetivo é colocar em evidência não só o desempenho e a tecnologia dos carros mas também as ameaças ambientais em diferentes ecossistemas do mundo, como deserto, gelo e floresta tropical.

Etapa no Pará

Por isso, a Extreme E tem etapas em alguns dos cantos mais remotos do mundo para a conscientização sobre os desafios impostos pelas mudanças climáticas e pela ação do homem. As duas primeiras foram realizadas em abril e maio (veja quadro). Além do deserto de Al Ula, na Arábia Saudita, o rali passará por mais quatro pontos que enfrentam impactos ambientais. O Brasil estará representado pela etapa em uma porção da Floresta Amazônica, no Pará, vítima de constantes desmatamentos.

Cada prova da saga Extreme E ocorre em fins de semana. No sábado, são disputadas duas rodadas de qualificação e duas semifinais. A grande decisão acontece no domingo. As qualificações consistem em duas corridas de quatro carros cada uma. Os quatro SUVs que somarem mais pontos garantem vaga na semifinal 1, ao passo que os quatro piores seguem para a semifinal 2 (apelidada de “corrida maluca”).

Os três primeiros carros da semifinal 1 e o melhor da semifinal 2 se credenciam para a final. Todas as equipes são obrigadas a ter um piloto masculino e um feminino, a fim de promover a igualdade de gênero.
O carro que disputa o Extreme E é padrão para as nove equipes. Batizado de Odyssey 21, o SUV totalmente elétrico foi desenhado pela empresa francesa Spark Racing Technology em parceria com a Williams Advanced Engineering. Com o desenvolvimento conjunto da empresa CBMM e da fabricante de pneus alemã Continental, o Odyssey 21 foi pensado para se adequar a diferentes terrenos e condições climáticas severas. 

Nióbio nos carros

A CBMM introduziu a tecnologia do metal nióbio nos materiais de alta resistência aplicados em partes como chassi, suspensão e carroceria, deixando a estrutura do carro leve, resistente e com mais eficiência energética. Segundo a empresa, as emissões de carbono durante a fabricação de produtos derivados de nióbio podem ser 60 vezes menores em relação a outros materiais.

Com 4,51 metros de comprimento, 2,30 de largura, 1,90 de altura e pesando 1.650 quilos, o Odyssey 21 é calçado por pneus de 94 centímetros de altura e entrega incríveis 400 kW de potência (o equivalente a 550 cv), além de acelerar de 0 a 100 km/h em meros 4,5 segundos.

Cada unidade possui um pacote de peças padronizado, fabricado pela Spark. A estrutura é tubular de liga de aço reforçada com nióbio; e os pneus são especialmente fabricados pela Continental para condições extremas. A bateria, de 54 kWh, produzida pela Williams, foi projetada para suportar temperaturas rigorosas e terrenos adversos. A recarga é feita por um gerador de célula de hidrogênio, que não polui e libera água como subproduto.

Outra inovação da Extreme E fica ancorada fora das pistas, no porto mais próximo. Trata-se de um grande laboratório montado no navio Santa Helena, que abriga cientistas para estudos das tecnologias dos veículos e das questões ambientais de cada região.

A embarcação foi totalmente reformada para garantir que as emissões de poluentes sejam as mais baixas possíveis. O Santa Helena é essencial para a logística do campeonato, pois transporta os carros, as oficinas e toda a estrutura das equipes de uma etapa a outra. “Ele serve de base da aventura, que revela não só os belos ambientes danificados mas também os enormes desafios que nosso planeta enfrenta”, afirma Alejandro Agag.

Calendário da 1ª temporada

  • Desert X Prix: AlUla (Arábia Saudita), realizada nos dias 3 e 4 de abril
  • Ocean X Prix: Lac Rose (Senegal), em 29 e 30 de maio
  • Arctic X Prix: Kangerlussuaq (Groenlândia), em 28 e 29 de agosto
  • Amazon X Prix: Pará (Brasil): em 23 e 24 de outubro
  • Glacier X Prix: Patagônia (Argentina): em 11 e 12 de dezembro

Sertões a caminho do carbono zero

UTV híbrido participará no Rali dos Sertões, em agosto

Durante muito tempo, as competições automobilísticas foram encaradas como vilãs do meio ambiente por causa da emissão de CO2 na atmosfera. Aos poucos, porém, os campeonatos vão se aproximando de uma causa que vem ganhando cada vez mais importância: a sustentabilidade.

Se não bastassem a Fórmula E e a Extreme E, o Sertões – um dos principais ralis do mundo – já mostra preocupação com o tema. Na edição de 2021, que acontece em agosto, um UTV (utility task vehicle) híbrido vai encarar os desafios da prova. É um projeto 100% brasileiro, desenvolvido graças à parceria entre CBMM e Giaffone Racing.

O veículo experimental com propulsão elétrica e a etanol é o passo inicial de um plano de ações até 2025. O Sertões quer ser o primeiro rali carbono zero do mundo, com a neutralização de CO2 dos veículos da organização, do apoio e da competição, por meio da Moss, plataforma de créditos de carbono que serão revertidos para projetos na Amazônia.

Também está nos planos da organização do Sertões criar uma categoria geral para veículos movidos a etanol, com subsídio de 25% do valor na inscrição.

A ideia é apresentar um programa de ações sustentáveis nos próximos quatro anos, com as seguintes metas:

2022 – Uso de 50% de energia solar, incorporação de subcategorias com carros com motor movido a etanol, categoria de veículos híbridos e o primeiro carro elétrico experimental.
2023/2024 – Competição entre energias renováveis alternativas e o engajamento na categoria etanol.
2025 – Rali disputado somente por veículos com energia renovável: híbrido, elétrico, etanol e combustível sintético.

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