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Segurança de ciclistas e a gestão das vias

Por: . 28/11/2023

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Segurança de ciclistas e a gestão das vias

É preciso que haja uma gestão da segurança viária para que, em qualquer situação, com ou sem dolo, o resultado não seja a morte

3 minutos, 42 segundos de leitura

28/11/2023

segurança dos ciclistas. Foto: Getty Images
Trafegar em segurança é um direito dos ciclistas. Foto: Getty Images

Em geral nossas ruas são inseguras para quem se locomove de forma ativa, ou seja, com sua própria energia. Desde janeiro deste ano, houve um crescimento de 8,33% nas mortes de ciclistas na cidade de São Paulo, e dois principais fatores estão associados a esse trágico resultado: 1) a paralização da expansão da rede de ciclovias e ciclofaixas; e 2) a falta de gestão das velocidades nas vias da cidade.

Leia também: Segurança viária necessita da união entre poder público e iniciativa privada

O acumulado de 700 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas em São Paulo pode até impressionar, mas ele
representa somente 3,5% da cobertura de toda a malha de ruas e avenidas da cidade – estimada em 20.000 quilômetros. Ainda que seja essencial ampliar a malha cicloviária segregada, compartilhar a via com veículos motorizados continuará sendo uma realidade.

É nesse momento em especial que as vias precisam oferecer condições mínimas de segurança. São Paulo possui um Plano de Segurança Viária, discutido com a sociedade e aprovado em 2019, mas há pouca – ou nenhuma – ação efetiva.

Existe, também, o Plano Nacional e Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), que traz diretrizes corretas alinhadas à Visão Zero, com foco em zerar mortes no trânsito. São documentos norteadores importantes, mas, se não forem traduzidos em políticas efetivas, se tornam peças de ficção.

Ciência e segurança

Um exemplo do descompasso que existe entre os planos e a “vida real” é a gestão das velocidades. Se
existe um consenso na ciência voltada à segurança viária, é a necessidade de acalmar o trânsito, reduzindo as velocidades máximas e implementando medidas de traffic calming.

O motivo é simples: uma pessoa atropelada a 60 km/h terá chances inferiores a 15% de sobreviver. Enquanto se o atropelamento ocorrer a 30 km/h, as chances de sobrevivência saltam para 95%.

Há medidas assertivas que podem ser implementadas para moderação do trânsito, como a mudança de geometria da via, o estreitamento das faixas, a instalação de bloqueios e chicanas, o prolongamento das esquinas, as travessias elevadas, a aproximação da arborização ao leito carroçável, a gestão de estacionamento na via, entre outras.

Nesse sentido, São Paulo avançou na regulamentação de limites de velocidade mais compatíveis com a vida, estabelecendo limite de 50 km/h nas vias arteriais. Mas isso foi em 2015, e é preciso avançar muito mais, com fiscalização e modificação física das vias para que os limites de velocidade sejam cumpridos. A mera troca da sinalização é uma medida ineficaz se o desenho da via continuar induzindo motoristas a acelerarem.

Pessoas erram

Sabe-se que imprudências, imperícias e negligências, no trânsito, sempre irão ocorrer. É preciso que haja uma gestão da segurança viária para que, em qualquer situação, com ou sem dolo, o resultado não seja a morte. Essa é a essência do conceito de Visão Zero.

Imaginemos uma cena criminosa de um condutor de automóvel enviando uma mensagem pelo celular e, por causa dessa atitude, atropelar uma pessoa em bicicleta. Se estiver a 30 km/h, a probabilidade de óbito ou lesão grave do ciclista será baixa. Porém, se estiver a 50 km/h ou mais, provavelmente o resultado será a morte.

A imprudência pode ser a causa do atropelamento, mas a velocidade será o fator que determinará a gravidade da ocorrência. Velocidades altas ampliam exponencialmente os fatores de risco nas vias públicas.

Uma cultura de trânsito seguro, portanto, é resultado de políticas públicas implementadas ao longo dos anos e que vão modificando o comportamento das pessoas. Como a Lei Seca que, a partir de 2008, contribuiu decisivamente para mudar uma cultura de aceitação social que havia entre o consumo de álcool e a condução de veículos.

Dessa forma, a implantação de estrutura segregada como ciclovias e ciclofaixas é uma medida necessária e urgente, que salva vidas e estimula o uso de bicicletas. Mas que, isoladamente, produz resultados limitados quando não há políticas combinadas de segurança no trânsito em geral, como gestão de velocidades e medidas efetivas de acalmamento do trânsito.

Saiba mais: Redução da velocidade é essencial para diminuir as mortes no trânsito

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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