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Na Perifa

‘Marighella defendia moradores que viviam em área miserável’, diz biógrafo do guerrilheiro

Segundo o jornalista Mário Magalhães, além de militante ele era um poeta muito criativo desde a infância

6 minutos, 24 segundos de leitura

16/11/2021

Por: Juca Guimaraes

marighella
Cena de Marighella, longa-metragem de Wagner Moura que tem Seu Jorge no papel do guerrilheiro. Foto: divulgação

Após dois anos de adiamentos, estreou no Brasil no dia 4 de novembro o filme Marighella, dirigido por Wagner Moura. Na data, completaram-se 52 anos do assassinato do militante, político e escritor Carlos Marighella, um homem nascido na periferia de Salvador e personagem importante no combate à ditadura militar no país.

O livro Marighella: o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, escrito pelo jornalista Mário Magalhães e publicado pela Companhia das Letras, foi usado nas pesquisas e escolhas cinematográficas do longa-metragem. A biografia relata a vida inteira do guerrilheiro. O filme, por sua vez, se concentra no período que vai de 1964 —o ano do golpe que instaurou a ditadura no Brasil — a 1969, quando Marighella foi morto. O músico e ator Seu Jorge interpreta o personagem principal.

O autor Mario Magalhães conversou com o Expresso na Perifa a respeito do livro, do filme e do desafio de escrever sobre a ditadura militar no Brasil.

Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre o Carlos Marighella?
Em 2003, queria ter mais tempo para investigar e mais espaço para contar uma história. Eu as contava como repórter de jornal. Queria focar na história de uma pessoa. Isto é, escrever uma biografia. Pedi as contas do emprego e fui à luta.

Escolhi o Marighella por causa da vida fascinante e frenética que ele teve. Por meio de sua trajetória, seria possível reconstituir períodos alucinantes do Brasil e do mundo no século 20. Além do mais, o elenco era espetacular, de protagonistas a figurantes, passando por coadjuvantes que merecem ter suas próprias biografias publicadas em livro e exibidas em filme. Marighella tinha algo a mais, sedutor: era um maldito, daqueles que não são citados nas aulas de escola. Continua a ser um maldito, em cujo silenciamento e esquecimento certa historiografia e alguns círculos apostaram desde a década de 1930.

Como foi o processo para conseguir fazer as pesquisas, as entrevistas e publicar o livro?
Foram nove anos de trabalho, dos quais cinco anos e nove meses em regime de dedicação exclusiva. Entrevistei 256 pessoas. Tive acesso a dezenas de milhares de páginas de documentos de 33 arquivos públicos e privados de seis países. Consultei 600 livros. Do ponto de vista financeiro, expus o desastre num depoimento intitulado Caixa-Preta de um Biógrafo Falido. É fácil encontrá-lo na internet [o artigo pode ser lido neste link].

O que você achou de Marighella e das escolhas de narrativas feitas pelo Wagner Moura?
Achei um filmaço. Quem leu a terceira e última parte do meu livro, que vai de 1964 a 1969, encontrará na tela os episódios marcantes e os personagens de carne e osso que inspiraram os do filme.

Depois de ter visto o longa-metragem pronto e a repercussão dele na crítica e no público, você mudaria alguma coisa em seu livro?
Não. Wagner e eu compartilhamos a compreensão de que Marighella era sobretudo um homem de ação. Ele tinha sólida formação política e cultural. Mas a ação é o que o movia. É importante entender três diferenças fundamentais entre o filme do Wagner e meu livro, que o inspirou/baseou: o filme vai de 1964 a 1969 e meu livro conta toda a vida de Marighella, de 1911 a 1969, e volta à Revolta dos Malês (1835) e à imigração italiana, no comecinho do século 20. Fiz literatura e jornalismo, o Wagner fez cinema. Meu livro é 100% de não ficção, não inventei nem um espirro, e o filme é uma obra de ficção baseada em fatos reais. Mas nosso protagonista, meu e do Wagner, é o mesmo: um homem inconformado com injustiças e determinado a agir.

A canção Mil Faces de um Homem Leal (Marighella), dos Racionais MCs, ajudou a fazer de Marighella uma figura muito falada e referenciada entre a juventude periférica que anseia por mudanças e por justiça social. Como seria hoje o diálogo do guerrilheiro com essa juventude?
Quem leu meu livro sabe que Marighella nunca foi um militante comunista e revolucionário sisudo. Ao contrário, era bem-humorado, muito engraçado, um poeta que desde a infância foi muito criativo. Era um especialista em agitação e propaganda. Tinha o dom de conversar com gente de todas as idades. Na guerrilha, a maioria dos militantes era décadas mais jovem do que ele. Os jovens falavam com ele de igual para igual, tratando-o como “Preto” e “Ernesto”, seus nomes de guerra/codinomes mais usados. Ao publicar um documento divergindo de alguns militantes, intitulou-o com os versos de um samba: Quem Samba Fica, quem não Samba vai Embora.

Marighella nasceu na periferia de Salvador. Em suas pesquisas, como aparecem territórios, comunidades e moradores no combate à ditadura?
Sobre Marighella: toda a vida dele foi devotada aos interesses da maioria que pouco tem, contra a minoria que tem demais. Quem leu o livro notou isso, por exemplo, na atividade dele como membro da Assembleia Constituinte de 1946 e como deputado federal (1946-1948). Marighella defendia moradores que viviam precariamente em área miserável de Salvador. Denunciava humilhações sofridas por operárias de fábrica. Mostrou como o pão vendido em São Paulo era feito com matéria-prima de péssima qualidade, enganando consumidores. E por aí vai.

Marighella é uma figura popular na esquerda e entre intelectuais, mas você acha que o nome e a atuação dele chegam às periferias do Brasil? Seu livro tenta trazer à tona esse homem?
Marighella é um maldito cuja existência é sonegada em quase todos os livros de história. É impossível contar a história do século 20 omitindo o nome de Marighella, em particular da ditadura do Estado Novo (1937-1945); da Constituinte de 1946; da Greve dos 300 Mil (1953, em São Paulo) e da luta armada contra a ditadura. Ele era um homem negro, filho de mãe negra e de pai italiano branco. Acrescentei um tijolinho na parede da memória de Marighella. Pioneiros haviam colocado as pedras do alicerce, contando a vida do militante comunista baiano.

Outras figuras importantes na luta contra a ditadura militar viraram temas de livros e filmes, como o jornalista Fernando Gabeira e o ex-capitão Carlos Lamarca. Tem alguém desse período histórico que você gostaria de pesquisar mais para fazer um novo livro?
Há uma expressiva bibliografia a respeito da luta armada, embora muito menor do que seria se o país cuidasse melhor da sua memória, em particular da memória daqueles que enfrentaram ditaduras como as de 1964-1985 e 1937-1945. Há seis anos, trabalho na biografia de Carlos Lacerda (1914-1977), um dos personagens mais amados, odiados, controversos e apaixonantes da história da República. Em 1964, ele apoiou o golpe de estado. Logo passou à oposição, participando da frente ampla contra a ditadura ao lado do Partido Comunista Brasileiro, então clandestino, e dos ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek.

Quais os desafios de escrever sobre a ditadura, levando em conta que nos últimos 15 anos a democracia brasileira sofre ameaças e vive em estado de tensão?
Um dos desafios de escrever sobre ditaduras é que elas sempre têm suas viúvas. Esses nostálgicos de ditaduras tentam interferir, nem que seja difundindo falsidades, tentando influenciar a reconstituição da história. A ditadura mentiu sobre o assassinato de Marighella. O meu livro revelou que ele estava desarmado. Estava sozinho e foi fuzilado numa operação que reuniu ao menos 29 policiais armados até os dentes.


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