“Temos que aumentar a presença feminina”, mulheres chefes de equipe da Shell Eco-Marathon analisam a equidade no setor automotivo
Apesar do crescimento de mulheres na competição deste ano, elas são minoria nas posições de liderança; redução das metas de equidade das empresas também é um problema para adesão de mais figuras femininas na área

A Shell Eco-Marathon Brasil 2025, uma das maiores competições estudantis de eficiência energética do mundo, trouxe avanços importantes na presença feminina, mas também expôs os desafios que persistem. Conforme dados da organização, entre os mais de 500 estudantes inscritos, apenas 26% são mulheres. Apesar de o número ter crescido em relação à edição passada, o cenário ainda reflete a desigualdade histórica de gênero no setor automotivo e nas engenharias.
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Já ocupando o cargo de capitã de equipe na competição, a presença delas apresentou uma leve queda. De 25% em 2024 para 20% em 2025. Para as jovens que assumem cargos de comando, o espaço conquistado é tanto motivo de orgulho quanto de reflexão crítica. “Temos que aumentar a presença feminina. Não basta só estar presente, precisamos estar em posições estratégicas e de liderança”, ressalta a capitã Laisla Portella, do Drop Team, do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), de Erechim.

Além de permitir aprendizados, estar na posição de chefe de equipe já abriu oportunidades no mercado de trabalho. Gabrielle Maran, capitã Pé Vermelho Efficiency Team, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UFTPR) Medianeira, relata que conseguiu um estágio quando citou o trabalho na Shell Eco-Marathon.
“Sinto que a gente tem que se esforçar muito mais para ser ouvida e aí, nesse estudar mais, mais a gente acaba se destacando”, opina Lorena Azevedo, capitã da equipe Ne3, da Universidade Federal Lavras (MG).

Presença feminina: desafios começam antes da universidade
Apesar do evento de eficiência genética da Shell funcionar como uma porta de entrada para o setor automotivo, mulheres precisam de mais resistência para chegar lá. Para Laisa Silva, chefe da equipe Eifchar, do Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia (IFSul Charqueadas), o desafio de ser minoria inicia na graduação. “É difícil chegar e se impor em um ambiente em que quase todos são homens. Mas a competição mostra que somos capazes de liderar projetos complexos, não importa o gênero”, destaca ela.

De acordo com o levantamento realizado pela Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, a partir de dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mais mulheres entraram nas graduações de exatas e humanas de 2013 a 2023. Apesar do aumento representar uma alta de 29%, os calouros homens cresceram 56%.
“É fundamental a mulher se sentir empoderada dentro do seu próprio núcleo familiar, se sentir encorajada, isso faz muita diferença”, opina Leíse Duarte, coordenadora de Parcerias Estratégicas e Eventos da Shell Brasil
Mulheres se formam mais
Além disso, em 2019, o mesmo levantamento registrou que 53% das mulheres que ingressaram nos cursos se formaram. Enquanto isso, apenas 37% dos homens receberam o diploma.
Porém, desde 2020, ambas porcentagens caíram, mas entre as mulheres a queda foi maior. Em 2023, 27% das mulheres e 23% dos homens concluíram a formação. Isso representa, para elas, uma queda de 48% na taxa de formação e, para eles, uma queda de 36%.
“O que eu percebi conversando com alguns amigos que acabaram desistindo do curso, eles não estavam preparados para lidar com a carga emocional e todo o resto da faculdade”, diz Gabrielle, do Pé Vermelho Efficiency Team. “Tem aquilo de que a mulher tem de amadurecer mais rápido”, concluiu.

“Estar na Shell Eco-Marathon me dá confiança para acreditar que posso ocupar espaços no setor automotivo. Mas sei que, quando sair da universidade, o mercado será ainda mais desafiador”, reforça Lorena, da Ne3.
No mercado de trabalho, as barreiras persistem
Se nas universidades as jovens enfrentam dificuldades para entrar nas graduações, no mercado os obstáculos se ampliam. Conforme a Pesquisa Automotive Business, a presença feminina pouco evoluiu nos últimos anos. De 21% em 2023 para 24% em 2025.
Entretanto, elas ainda estão fora das lideranças. A mesma pesquisa demonstra que apenas 20% das cadeiras de gerência são ocupadas por mulheres. Isso sem falar na presença de mulheres negras, que ocupam apenas 1% dos cargos de chefia.
“A gente ainda tem uma sociedade muito machista que vê as mulheres como incapazes”, avalia Laisa. “Eu vejo que ainda tem bem pouco, poderia ser mais igual. Mas acho que a gente avançou bastante nesse quesito”, diz Lorena.
Apesar dos dados pouco positivos, cada capitã de equipe da Shell Eco-Marathon tem a oportunidade de ter essa experiência positiva no currículo. Algumas delas precisam lidar com mais de 30 membros, instruí-los e garantir que esteja tudo certo para a competição. Isso ocorre ainda nos primeiros anos da juventude, trazendo o espírito de liderança e capacitando futuros líderes do mercado de trabalho.
“Esse ano eu cresci muito sendo gerente aqui”, destaca Lorena, que está no segundo ano de competição, mas o primeiro em que ocupa o cargo de capitã.
Empresas precisam garantir a presença feminina
No debate sobre equidade, as metas corporativas têm peso decisivo. Leíse, coordenadora na Shell Brasil, afirma que a empresa acompanha os indicadores de gênero de perto. “Temos ações voltadas para ampliar a presença feminina no setor de energia e tecnologia. O desafio é garantir que esse crescimento seja sustentável e não apenas pontual. Para isso, é preciso compromisso real, tanto nas universidades quanto no mercado.”

Entretanto, o levantamento do Automotive Bussiness demonstra que as metas de representatividade de gênero nas empresas caíram de 2023 para 2025.
Leíse reconhece, porém, que parte das empresas do setor reduziu metas de equidade nos últimos anos, precisou fazer um recálculo de rotas. “Existe um gap de formação para as mulheres, principalmente nas áreas mais voltadas para a questão científica, engenharia, das áreas de sistema como um todo”, opina a coordenadora. “Acho que ainda existe um trabalho anterior às empresas”, acrescenta Leíse.
Porém, ela entende que também é papel do setor privado estimular como pode a iniciação científica de mulheres e possibilitar a entrada delas nos cargos de liderança. Para a coordenadora, a dupla jornada da mulher e a opção de priorizar a família é mais plausível para explicar esse número. “Prefiro acreditar que é mais uma questão de escolha do que, efetivamente, da abertura de mercado”, anseia.
“Eu tenho 26 anos de Shell, desde que eu entrei, a gente já falava sobre essa questão de gênero. Então, não consigo acreditar que hoje ainda tem empresa que não discute isso”, conclui ela.
Incentivos importam
Para quem está entrando no mercado e olha para trás, a falta de mulheres liderando pode desanimar. “É muito triste ver criança achando que não consegue fazer alguma coisa, porque ela nunca viu alguém [igual a ela] fazendo”, conta Gabrielle. “Se você não tem incentivo desde cedo, por que que vai buscar aquilo?”, questiona a estudante.
“Acho que a gente avançou bastante nesse quesito. A gente vê muitas mulheres, a gente vê que as pessoas escutam mais as mulheres e isso é muito bom”, afirma Lorena.
“A gente mostra aqui que sabe construir, liderar e entregar resultados. Agora, as empresas precisam abrir espaço de verdade para que possamos seguir nesse caminho”, conclui Laisa Silva.
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*A jornalista viajou ao Rio de Janeiro a convite da Shell
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