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As autotechs e a disrupção do setor automotivo

É comum a comparação entre o segmento e a indústria de celulares, afetada após a chegada dos smartphones

15/04/2021 - 3 minutos, 37 segundos


As autotechs e a disrupção do setor automotivo
Foto: iStock

O carro é uma das invenções mais significativas da história a passar por grandes transformações na atualidade. Quando o primeiro automóvel a combustão foi criado em 1885 por Karl Benz, a cultura do carro se espalhou implacavelmente por todo globo. Seu impacto foi nada menos do que extraordinário, transformando economias globais, moldando sociedades inteiras e testando incansavelmente os limites da engenharia.

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Mais de 100 anos depois, a única semelhança entre os veículos de hoje e os daquela época é o tipo de motor. Na trajetória, muitas transformações ocorreram. Uma delas é a valorização recente dos carros elétricos e híbridos, por exemplo, o que já levou companhias a superarem vendas de gigantes setoriais.

Em 2019, no Brasil, a indústria automobilística bateu o recorde de comercialização desses modelos. Nos Estados Unidos, a Tesla, responsável por 79,9% das vendas, com mais de 200 mil unidades, impulsionou o mercado de carros elétricos em 2020 naquele país. A montadora sob liderança de Elon Musk superou gigantes como Audi e BMW e, atualmente, possui o maior valor de mercado do mundo. Por outro lado, o mercado geral de automóveis enfrenta queda de 15% nas vendas.

Correr contra o relógio

É que a indústria de trilhões de dólares está em um estágio em que mudanças sem precedentes ocorrem em frentes das mais distintas. É correr contra o relógio no que diz respeito a superar desafios. Os impactos vêm de rápidas transformações sociais, políticas e tecnológicas. No campo social, as pessoas valorizam cada vez mais o conceito de vida sustentável. Ademais, em outro aspecto, abraça-se a ideia da economia de pagamento por uso e compartilhamento. Com isso, a propriedade de carros continua a cair em cidades ao redor do mundo.

Somando-se o tempo perdido em engarrafamentos aparentemente intermináveis, custos de estacionamento cada vez maiores e a disponibilidade de vários modos alternativos de transporte, incluindo bicicletas, patinetes e ciclomotores, talvez não seja surpreendente que fatia de 32% dos brasileiros, entre os 47% que possuem automóvel, afirmaram recentemente que trocariam os veículos por transporte público se ocorressem melhorias alternativas de mobilidade urbana. 

No guarda-chuva tecnológico, os últimos anos trouxeram um tremendo progresso que pavimentou uma base para novas plataformas de condução conectadas, autônomas, compartilhadas e elétricas. Essas tecnologias incluem avanços em inteligência artificial, visão e poder computacional, bem como conectividade (com a vinda do 5G), além da rápida evolução da eficiência de armazenamento de energia.

À medida que os veículos se transformam progressivamente em data centers sobre rodas, com um volume enorme de dados sendo gerados diariamente, regras mais rígidas estão sendo solicitadas em torno da proteção de dados de privacidade. A regulamentação visando segurança dos usuários nas vias e o controle dos níveis de poluição, aliás, são causas para mudanças que vêm do viés de transformações políticas, como já citado.

Toda essa metamorfose traz, evidentemente, reflexos sobre o negócio em si. A expectativa é a de que nos próximos dez anos quatro tendências passem a ditar os rumos da indústria automobilística para sempre: eletrificação, direção autônoma, mobilidade compartilhada e experiências conectadas. Neste novo mundo de infinidade de desafios para os fabricantes, os lucros são redirecionados para áreas em que as montadoras carecem de conhecimento prévio e experiência.

Como resultado, o que vemos é o surgimento de novos e poderosos players no ecossistema de mobilidade: as autotechs – startups que desenvolvem soluções para o segmento automotivo.

É comum comparar o que está acontecendo no segmento ao que ocorreu com a indústria de celulares (os quais viraram smartphones desde 2007): o valor passou do hardware para o software e ecossistemas e, em última análise, esse movimento tem liderado o desaparecimento de vários gigantes globais.

Diante de tudo isto, uma coisa é certa: os líderes da indústria automobilística não desejam ter esse mesmo triste destino. Estamos prestes a assistir a mudança mais fundamental no transporte terrestre desde que os veículos com motor de combustão substituíram as carroças. Apertem os cintos!

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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