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Bike & Park

Como pedalar e caminhar em segurança durante a pandemia

Ciclista há quase 50 anos, Paulo Saldiva, médico patologista e professor da USP, explica como deve ser a prática de exercícios físicos ao ar livre sem riscos

Daniela Saragiotto

30/03/2021 - 8 minutos, 54 segundos


Como pedalar e caminhar em segurança durante a pandemia
Paulo Saldiva: "Com o tempo, entendi os benefícios da prática do ciclismo para a saúde e para a cidade". Foto: Marco Ankosqui

Todos os dias, ele pedala da sua casa, no bairro central da Bela Vista, capital paulista, até a Faculdade de Medicina da USP, na Avenida Dr. Arnaldo, Zona Oeste, e repete esse trajeto no fim do expediente, em uma rotina que, há décadas, faz parte de sua vida. Paulo Saldiva, médico patologista, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), hoje tem 66 anos e começou a pedalar aos 17. “Passei na faculdade e não tinha nem idade para dirigir, então, comecei a ir de bicicleta à Cidade Universitária. Com o tempo, fui entendendo os benefícios da prática para a saúde e para a cidade e adotei a bike como meio de transporte”, conta.

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Impulsionadas pela pandemia, muitas pessoas têm, como Saldiva, optado pela mobilidade ativa, usando a bicicleta ou caminhando pelas vias públicas, em seus deslocamentos diários, ou mesmo adotando as práticas para se exercitar nessa fase mais rigorosa do isolamento social. Fazer atividade física, claro, é recomendável. Mas é preciso tomar todos os cuidados, adverte o médico, que há mais de um ano tem trabalhado em autópsias de vítimas da covid-19 para entender melhor o comportamento do vírus no organismo. “É muito importante usar máscara durante todo o percurso, fazer a higienização das mãos e evitar aglomerações”, recomenda. E completa: “Chamo atenção das pessoas e algumas respondem que estou espalhando pânico, terror. Mal sabem elas que vejo o verdadeiro terror em meu trabalho há mais de um ano”, diz. Confira, a seguir, as principais recomendações do especialista.

Com o agravamento da pandemia e o isolamento social mais rigoroso, as pessoas têm caminhado e pedalado mais para evitar o transporte público e diminuir o stress. A prática é segura?

Paulo Saldiva: Em uma pandemia, não dá para dizer que uma coisa é 100% segura, infelizmente. Mas já sabemos que a transmissão do coronavírus em ambientes abertos é muito pequena. O vírus pode ficar em suspensão na atmosfera durante horas, mas isso não ocorre ao ar livre. Então, de fato, caminhar e pedalar são boas formas de se locomover, ao contrário do transporte público, que é um laboratório perfeito para a proliferação da covid-19, além de ajudar na saúde física e mental em tempos tão difíceis. Eu tenho notado a bicicleta passando a fazer parte da vida de um número cada vez maior de pessoas na cidade de São Paulo e vejo isso como algo muito positivo. E muita gente que perdeu o emprego adotou o modal por ser uma forma de locomoção barata. Mas é preciso tomar cuidado. 

Quais são as recomendações para quem pedala ou caminha na rua?

Paulo Saldiva: A primeira delas é usar máscara, sempre, e apenas retirá-la para se hidratar, de preferência fazendo isso com seu próprio copo ou garrafa. Caso compre sua água ou outros tipos de líquido, é importante higienizar o recipiente com álcool em gel. No caso de quem pedala, vejo que algumas pessoas têm usado esses espaços para substituir aulas de alto rendimento como speening, que fariam na academia. Isso não é recomendável, porque, pela intensidade do treinamento, ocorre uma perda de pressão por causa da máscara, então, a ventilação fica prejudicada e a primeira atitude é baixá-la, o que pode ser uma ameaça a si próprio e aos demais. E é importante lembrar que a alta velocidade pode ser perigosa, colocando em risco os iniciantes ou mesmo as crianças. Outro aspecto é manter o distanciamento, pois sempre há um pouco de aglomeração nos semáforos ou nos pontos de largada, no caso das ciclofaixas e ciclovias. Observar isso é importante, bem como se há pessoas sem máscara e com o vidro aberto dentro dos carros. Eu chamo atenção de algumas pessoas no meu trajeto e ninguém gosta, mas é fundamental ter esses cuidados.

Sobre o distanciamento ao ar livre, há alguma recomendação que seja consenso para a prática de atividades físicas?

Saldiva: Depende muito de onde a pessoa está, mas, ao ar livre, usamos a recomendação de 1,5 a 2 metros de distância, que foi o distanciamento adotado na época dos surtos da tuberculose. Como eu disse, em ambientes abertos, o vírus não consegue ficar por muito tempo suspenso. Já, em locais fechados, acontece o oposto: li um estudo no começo da pandemia de um hospital em Hong Kong em que um paciente com coronavírus contaminou pelo menos outras 16 pessoas internadas, pois o vírus seguiu o fluxo do ar-condicionado.

Saldiva: “Em ambientes abertos, o vírus não consegue ficar por muito tempo suspenso”. Foto: Marco Ankosqui
Diversos países estão adotando ou estendendo incentivos ao uso das bikes na pandemia. Em São Paulo, tivemos aumento de 158 quilômetros em ciclofaixas e ciclovias, em março. É suficiente para incentivar o uso desse modal?

Saldiva: Está melhorando. Eu acho que estamos no caminho certo. Mas ainda falta aumentar a abrangência dessas ações para outros bairros periféricos e adotar uma estratégia para acoplar o uso das bicicletas ao nosso sistema de transporte coletivo. Acredito que, dessa forma, boa parte da população poderá passar a usar a bicicleta como meio de transporte alternativo ao carro, no futuro. Em Copacabana, no Rio de Janeiro, mais da metade do que chega aos quiosques da orla é transportado de bike, o que acontece, em menor volume, também na região central de São Paulo. Isso passa por uma questão de mudança cultural também, o que é sempre mais lento: quando comecei a trabalhar de bicicleta, me olhavam torto, eu era o “pobretão”, em uma década em que o seu status era ditado pela marca e ano do seu automóvel. Algum tempo depois, andar de bicicleta era coisa de tribos, de gente descolada da Vila Madalena. A bike nunca foi levada a sério. Atualmente, vejo que as pessoas estão entendendo que a bicicleta é uma estratégia de promoção de saúde e diminuição da poluição. À medida que as cidades do mundo evoluem – e a sociedade também –, os governos passam a oferecer mais e mais incentivos para que as pessoas adotem a bicicleta, em todos os níveis sociais.

Algumas das ciclofaixas estão localizadas em locais de muita concentração veicular e de poluição, como nas avenidas Paulista, Faria Lima e Sumaré, entre outras. Quais recomendações aos praticantes de caminhada e ciclistas para que a prática seja saudável?

Saldiva: Nós estamos constantemente medindo a poluição e o impacto em quem pratica atividades físicas. O que podemos dizer é que, de maneira geral, os estudos mostram que, se a exposição à poluição for de até duas horas diárias, há ganho, e não perda, aos praticantes. Então, para quem trabalha o dia todo fazendo entregas nesses locais, a situação fica complicada, porque não é possível evitar os horários de pico, que é uma das recomendações. Tanto que, se você passar um lenço umedecido no rosto de um cicloentregador, ele sairá cinza de tanta poluição. Para quem pratica atividade física em locais de parque, como o próprio Ibirapuera, uma dica é ficar apenas nas vias internas, sem ir aos limites próximos das ruas: pouca gente sabe, mas essa medida simples diminui a exposição à poluição em até 30%. 

Alguns dos poucos efeitos positivos da pandemia são a melhora na qualidade do ar nas cidades e a adoção da prática de home office que alivia o trânsito. Como estender esses benefícios no pós-pandemia?

Saldiva: Todas as pandemias trouxeram, ao longo da história, avanços importantes. A malária, em Roma, na Itália, no século 18, mostrou a necessidade de reforma do espaço urbano para diminuir infecções sanitárias. Com a peste negra, surgiu a demanda por vacinas, e essas são transformações que surgem para melhorar uma situação de crise. Com a pandemia da covid-19, houve redução no volume de carros circulando, melhoria na qualidade do ar – que, até hoje, felizmente, não voltou aos níveis médios de antes da pandemia – e muita gente passou a usar bicicleta. Acredito que muitas pessoas que subiram numa bike nesse período não vão mais descer dela e muita coisa que achávamos impossível se mostrou possível, como trabalhar a partir de casa em muitas profissões. Nosso prefeito, que era contrário às ciclofaixas e acreditava que elas atrapalhavam o trânsito, mudou de ideia com a forte adesão da população e tem investido na ampliação dessas vias. As pessoas, sobretudo os mais jovens, estão questionando a posse dos automóveis, algo parecido com o que aconteceu com o cigarro, há alguns anos. Então, acredito que tudo isso foi impulsionado pela pandemia e, em alguma medida, vai continuar depois dela.

Como o senhor analisa a poluição atmosférica da cidade de São Paulo nos últimos anos? Quais são os principais responsáveis por esses resultados?

Saldiva: Nós temos o Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental, na Universidade de São Paulo (USP), que mede, constantemente, a poluição. Com o isolamento mais rigoroso, especialmente no ano passado, diminuíram muito os níveis de poluentes, mas isso não se manteve. Porém, de qualquer maneira, não retornamos aos níveis anteriores, o que é positivo. Hoje, a poluição está entre 20% e 30% abaixo do que tínhamos antes da pandemia. É um problema muito grave. Costumávamos dizer, há algumas décadas, que a poluição era uma causa em busca de uma doença. Agora, já sabemos que ela está associada à mortalidade prematura de 7 milhões de crianças, por ano, no mundo, além de doenças como câncer de pulmão e de bexiga, entre outras. Os motores a combustão são os principais responsáveis e as montadoras já estão tomando algumas medidas, como se adequar para atender a políticas de regulação de emissões, produzindo veículos elétricos ou híbridos e até mesmo entrando no segmento de locação de veículos, com base no que comentei que muitos jovens já não valorizam mais a posse de um automóvel.

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