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Cássio Pagliarini

Consultor associado da Bright Consulting, com passagem por grandes empresas automotivas. Na Ford Motor Company do Brasil atuou como diretor de estratégia de produtos.

Meios de transporte

O mercado de veículos leves começa a reagir

A busca pela manutenção da evolução tecnológica vem dos novos consumidores da geração Z. Agora, as demandas por menor manutenção, maior segurança, menores emissões e melhoria da eficiência energética agora vêm do mercado

30/06/2020 - 4 minutos, 35 segundos


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Mercado de leves inicia recuperação. Foto: Getty Images

Junho ficou para trás e, com ele, registrou-se o retorno ao patamar de mais de 5 mil emplacamentos diários de veículos leves e pesados, enquanto tínhamos 2.830 no mês anterior.

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Nesse ritmo, deveremos fechar o mês com 110 mil unidades de vendas, um alívio, mas ainda 45% abaixo do que seria o volume adequado ao mês de junho se não houvesse a pandemia. A volta dos Detrans também se reflete positivamente, com a recuperação de vendas efetuadas e que não apareciam ainda nos emplacamentos.

As concessionárias voltaram a abrir suas portas no início de junho, regidas por um rígido protocolo de atividades coordenado pela Federação Nacional da Distribuição Veículos Automotores (Fenabrave).

São atividades com baixa concentração de pessoas, sem influência na disseminação da doença, mas importantes dentro de um setor que representa muitos empregos. Um termômetro muito bom da atividade econômica.

Segundo semestre

Se abril e maio tiveram uma quebra de 70% a 75% nos volumes e junho se consolida ao redor de 50% do nível normal, o que esperar para o restante do ano? Bem, depende de como se pretende usar esses números.

Se a intenção é mostrar que o ruim pode se tornar pior para se obter maiores benefícios financeiros e fiscais, veremos números anuais próximos a 1,6 milhão de unidades, que se traduzem numa visão inconsistente com a sazonalidade real esperada para 2020, de 40% a 60% nos primeiro e segundo semestres.

Crescimento melhor em 2021

A Bright Consulting acredita no restabelecimento dos volumes de vendas de maneira consistente a partir de julho, atingindo níveis equivalentes aos de 2019 a partir de setembro, com o ano fechando ao redor de 2,048 milhões de unidades.

Esse volume pode ser reconhecido por alguns como otimista, embora muito próximo do grande vale de 2016, mesmo com condições econômicas bem mais robustas quando iniciamos este ano.

Desse total, 1,29 milhão deverão vir no segundo semestre, que terá um peso de 63% nas vendas do ano. Para 2021, nossas previsões seguem mantidas em 2,356 milhões de unidades, o que representa um crescimento de 15% em relação a 2020.

Pelo dólar, pelos custos logísticos ampliados, pela ociosidade das fábricas, os preços sobem bastante. Somente devido ao dólar, essa defasagem média era de 12% e os aumentos acumulados já passam de 5%.

Com preços maiores, cai a demanda por veículos de entrada, cada dia menos acessíveis. A parcela de veículos abaixo de R$ 60 mil, que era de 41% em 2019, caiu para 31% em maio – dados reais mais impactados pela limitação nas vendas do que pelo aumento de preços. Porém, veículos na faixa de R$ 100 mil a 160 mil cresceram sua participação em 8%.

Vendas maiores no Centro-oeste

Esse índice explica o aumento de veículos de maior valor a evolução dos SUVs que seguem firmes e fortes, com participação ampliada de 22% em 2019 para mais de 25% no acumulado deste ano.

A mesma tendência é identificada nas picapes mid-size, que ampliaram sua participação em 6% impulsionada pelo espetacular desempenho do agronegócio.

Com os aumentos previstos para os hatchbacks, muita gente pode preferir comprar um SUV menos sofisticado e equipado, o que beneficia aqueles com maior conteúdo local e preço mais contido – melhor ainda se for novo ou rejuvenescido recentemente.

Outro fator que favorece a presença dos SUVs é a venda regional. Como as grandes metrópoles ficaram a nocaute por longo tempo – leia-se São Paulo, Rio e capitais do Nordeste –, o Centro-Oeste teve suas vendas preservadas, elevando o mix de SUVs e picapes. É o resultado da força da agricultura em um ano em que a safra de grãos promete ser recorde.

As vendas diretas, que fecharam 2019 ao redor de 50%, deverão sofrer uma queda para 42%, impactadas, sobretudo, pela queda nas vendas a locadoras.

Ações para atender mais aceleradamente às vendas PCD podem melhorar essa relação e serem benéficas para as montadoras que oferecem um veículo com mais conteúdo, com comissão garantida às concessionárias, a preços com menor desconto e menos impactadas por impostos, ou seja, um negócio bom para todo mundo.

Processos digitais robustos

Os melhores resultados no segmento de leves são um grande alento ao setor automotivo, uma vez que o segmento de caminhões pesados e ônibus deve atingir vendas ao redor de 80 mil veículos neste ano e voltar ao patamar das 115 mil unidades já em 2021.

O foco das montadoras e do mercado a partir de agora deverá se concentrar na implementação de processos digitais robustos para atendimento aos clientes, tendência que foi acelerada em mais de três anos devido à pandemia do coronavírus.

Adicionalmente, a busca pela manutenção da evolução tecnológica vem dos novos consumidores da geração Z, e as demandas por menor manutenção, maior segurança, menores emissões e melhoria na eficiência energética vêm agora do mercado.

A negociação das metas regulatórias para essas áreas deve ser cuidadosamente ponderada pelos legisladores no pacote de benefícios fiscais e financeiros sendo entregue às empresas do setor.

Entendemos que a visão positiva de empresas como Toyota e PSA, confirmando tanto a manutenção de investimentos quanto o retorno antecipado à produção, deverá ser uma constante a partir de junho. Um mês a menos para o fim da crise.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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