Meios de transporte

Virando a chave para o transporte sustentável

As práticas para o transporte sustentável vão muito além da compra do veículo. Montadoras que têm produtos mais direcionados para as práticas sustentáveis contam como está ocorrendo a mudança de comportamento, que começam nas suas estruturas e vão até a garagem do cliente

8 minutos, 37 segundos de leitura

23/11/2020

Por: Andrea Ramos

Colocar a sustentabilidade no foco do negócio é um caminho sem volta. Mas, quando uma empresa decide trilhar por ele, muitas dúvidas podem ocorrer. As fabricantes de veículos comerciais no País mais maduras no tema auxiliam seus clientes a ingressarem nessa rota do transporte sustentável. Mas, mais do que isso, elas contam como vem ocorrendo a mudança de comportamento a partir da escolha do veículo menos poluente.

Diretor de marketing e comunicação da Scania no Brasil, Marcio Furlan explica que a fabricante enfrentou muitos desafios desde que resolveu liderar a tendência de transformação para o transporte sustentável no País.

O primeiro deles foi reunir toda a cadeia do segmento. Da indústria produtora de energia para combustíveis alternativos, neste caso o GNV, embarcadores e transportadores, até o governo. Todos dispostos a trabalhar na promoção de uma energia menos poluente para caminhões.

Caminho para o transporte sustentável

Outro ponto desafiador foi alterar a forma como os clientes enxergavam a Scania. Marca que há mais de 60 anos atuou no Brasil com um modelo de transporte mais tradicional. “Com o tempo, fomos trabalhando justamente para mostrar que a sustentabilidade, mais do que um propósito, é uma estratégia de negócios para as empresas”, diz Furlan.

O executivo acrescenta ainda que uma das tarefas da Scania é revelar ao seu cliente a direção para o novo pensamento. “Ninguém vai querer trabalhar ou mesmo fazer negócios com empresas que não estejam preocupadas com o mundo que vai deixar para as próximas gerações. Que tipo de economia essas empresas estão promovendo e quais os seus valores. Esses são questionamentos que começam a serem feitos”, diz Furlan.

Furlan coloca alguns valores como importantes para ingressar no caminho da sustentabilidade. Formar parcerias, mudar o pensamento, tendo o foco de que a sustentabilidade é estratégica para os negócios. E o mais importante é mostrar resultados. Comunicar para o mercado resultados realmente factíveis. Os frutos colhidos por meio das práticas sustentáveis.

“No exemplo da Scania, a gente falou dos veículos a gás e, em seguida, apresentamos esses veículos. Começamos a vendê-los e, meses depois, contabilizamos um pouco mais de 50 unidades comercializadas. Mas o melhor é que hoje temos clientes fazendo a recompra de mais unidades.”

Conectividade foi fundamental na transição

Antes mesmo de a Scania falar sobre caminhões a gás no Brasil, a marca, por meio da conectividade, introduziu mudanças de pensamentos e na forma de como muitos empresários geriam suas frotas. Fato é que, a partir dessa ferramenta, empresas começaram a desenvolver uma operação mais eficiente. Um exemplo é a redução de paradas desnecessárias para a manutenção.

Pela conectividade, a marca apresentou aos clientes, por exemplo, que a troca de óleo de um veículo não precisa ser necessariamente a cada 10 mil quilômetros, como ocorre tradicionalmente. Que a inteligência da conectividade nos caminhões da marca é capaz de indicar o momento correto de fazer a troca de óleo. Isso é um ponto positivo para a operação, uma vez que o caminhão fica mais tempo disponível. Por outro lado, quando esse mesmo veículo precisa parar para realizar a troca de óleo, esta será programada. O que poupa o tempo do caminhão na oficina. E uma prática como essa é sustentável para todos os envolvidos na operação.

Sustentabilidade como estratégia de negócio

Presidente do Grupo SHC e da JAC Motors Brasil, Sergio Habib acredita que para o empresário entrar no negócio mais sustentável tem algumas condições, que ainda no Brasil estão sendo maturadas. Uma delas é ter muito esclarecimento sobre práticas sustentáveis.

“Em países como o Brasil, o empresário do transporte não tem uma colaboração do governo para ser sustentável. Então, se ainda assim ele está ingressando nesse negócio, é porque se muniu de informações. E sabe que a sustentabilidade é o futuro para gerar valor ao negócio.”

A JAC Motors lançou em setembro passado se caminhão elétrico, o primeiro direcionado à atividade de coleta e distribuição urbana. E muitos dos negócios realizados pela companhia partiram dos grandes embarcadores.

Clientes do transportes começam a mudar

Apesar de muitas vezes o foco do negócio do embarcador não ser o caminhão, ele é o meio. Portanto, se a transportadora quer continuar ser competitiva dentro da operação do seu cliente, ela vai virar a chave para a sustentabilidade mesmo sem incentivos de governo. Razão pela qual, o presidente da JAC acredita que essa mudança para o transporte mais “limpo” ocorrerá em grande escala por meio do embarcador.

“Há dois perfis de empresas embarcadoras que estão puxando o coro para o transporte sustentável. Empresas cujas matrizes, geralmente europeias, têm compromissos globais com as questões sustentáveis em todas as suas operações, e a redução de emissões é um deles. E isso inclui até mesmo países como o Brasil que não tem compromissos latentes com o tema. E empresas nacionais, como Natura e Magazine Luiza, que se muniram de informações e entenderam que ações sustentáveis são estratégicas para suas operações porque o cliente final reconhece isso”, avalia.

Precursora da mudança partiu para a prática

BYD introduziu caminhões, ônibus e furgões 100% elétricos no País, em 2012. Logo, foi a marca que deu início ao tema dentro do transporte rodoviário de carga e de passageiro. No ambiente urbano a marca oferece furgões de carga e caminhões com PBT de 21 t para a coleta de resíduos. E também tem ônibus urbano e rodoviário para curtas distâncias eletrificados.

Diretor de vendas da BYD, Henrique Antunes conta que disseminar a cultura e o entendimento do veículo elétrico foi bastante desafiador. “Todos os nossos projetos começaram de forma gradativa. Para isso, desenvolvemos projetos-pilotos colocando os veículos para os empresários testarem. A partir da primeira experiência com os veículos é que as dúvidas e indagações começaram a ser esclarecidas.”

Foi por meio desse primeiro entendimento que, mesmo a médio prazo, os clientes começaram a optar pela mudança. E o resultado chegou. Neste último ano, mesmo em meio à pandemia, a BYD fechou algumas vendas de ônibus em importantes cidades do País. Além disso, apresentou novas configurações e conseguiu credenciamento junto ao governo para a venda de alguns modelos de ônibus via Finame.

“Isso é reflexo de um trabalho que vem sendo feito desde 2012. O mercado brasileiro está amadurecendo para a eletromobilidade. Normalmente, as empresas que investem na tecnologia são as que têm visão de futuro. Têm projetos e metas a cumprirem, o que também justifica o fato de estarmos agora colhendo os frutos”, conta Antunes.

Ajudar o cliente em todas as etapas

Volkswagen Caminhões e Ônibus lançará o seu caminhão e-Delivery (elétrico) até o primeiro semestre do próximo ano. E a marca chegará ao mercado com o produto bem maduro. Um dos maiores distribuidores de bebidas do País, embarcador Ambev, colocou o veículo em teste na sua operação. E promete comprar 1.600 unidades do modelo a partir do lançamento. A marca também está avaliando os caminhões a gás da Scania para a operação de longo percurso.

Mas, antes mesmo de anunciar os teste com o e-Delivery, a fabricante alemã adotou a sustentabilidade dentro de casa. O fruto disso é o consórcio modular, um sistema de produção em que os fornecedores dividem com a VWCO a responsabilidade pela montagem dos veículos dentro da fábrica. Com essa prática, que ocorre há 25 anos com veículos a combustão, a produção é enxuta. Não há desperdícios e a operação é rentável para todos os envolvidos.

e-Consórcio serve de exemplo

Mas, agora, com o e-Consórcio a proposta é expandir a atuação para além dos portões da fábrica, indo onde o cliente estiver. E isso envolve, por exemplo, análise e instalação de terminais para recarga nas garagens dos clientes, em qualquer ponto do Brasil. Como também o descarte de peças e baterias ou mesmo reaproveitamento de itens no final da vida útil do veículo. Fazendo com que a operação integre um círculo virtuoso.

“O caminhão elétrico vai chegar e a nossa ideia com as parcerias é fazer com todos os processos sejam eficientes, a fim de otimizar o negócio do cliente. A gente entende que a entrada do caminhão elétrico vai ocorrer aos poucos, ainda mais em outros modais. Por isso, nossa função é maturar o comportamento do cliente com relação ao uso do veículo”, explica o gerente de estratégia corporativa e planejamento e-mobility da VWCO, Walter Pellizzari.

Montadoras ajudam em todo o processo

Pellizzari diz que uma das estratégias é preparar a infraestrutura do cliente para receber o caminhão elétrico. Algo que, segundo o executivo, ainda gera dúvidas com relação à adoção da tecnologia. Muito em função da falta de políticas públicas para incentivar a infraestrutura de carregamento nas cidades.

E para deixar o cliente mais confortável e confiante de que migrar para o transporte sustentável é uma escolha certa, o executivo explica que a VWCO está dando todo o apoio. “Estudamos a rota e a quilometragem rodada na operação de cada frotista. Dessa forma, vamos entregar o caminhão ajustado à operação. Com o tamanho de bateria necessária para ele cumprir sua tarefa sem a necessidade de paradas no meio do trajeto. E quando o caminhão retornar para a empresa, à noite, por exemplo, é feita a recarga. Na conta entra, inclusive, até o consumo de energia. Uma vez que a compra do caminhão é racional, temos que fazer a equação e entregar um caminhão funcional em todos os sentidos.”

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