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Mobilidade com segurança

Medo e insegurança no trabalho

Cicloentregadores relatam, em pesquisa inédita, suas estratégias de sobrevivência e os desafios da profissão

5 minutos, 12 segundos de leitura

06/04/2022

Por: Daniela Saragiotto

Medo de acidentes e inadequação das ruas são algumas das questões apontadas no estudo pelos profissionais. Foto: Jéssica Lucena

Estudo inédito, resultado de uma parceria entre a Fundación Mapfre e o Laboratório de Mobilidade Sustentável (Labmob), da UFRJ, traçou um perfil dos entregadores ciclistas em São Paulo, profissionais que utilizam a bicicleta para entrega de mercadorias em geral. Trata-se do relatório técnico Segurança Viária e Ciclologística – Desafios e Oportunidades no Brasil, pesquisa em profundidade feita com 336 profissionais (em torno de 5% do universo) que utilizam as bikes elétricas compartilhadas do programa iFood Pedal, e que residem e atuam em diversos pontos da capital paulista.

Embora tenham se revelado fundamentais para a sociedade na pandemia e sejam representantes de uma tendência global, esses trabalhadores são marginalizados e sofrem com a falta de segurança. Segundo Victor Andrade, coordenador do Labmob e do estudo, houve aumento de 94% na atividade de ciclologística no País durante pandemia. “Essa elevação veio antes de uma preparação da infraestrutura urbana, de treinamento dos profissionais e de campanhas para convivência segura entre todos os agentes do trânsito”, diz Andrade.

O medo de acidentes e a inadequação das ruas às necessidades de deslocamento estão no topo da lista das questões apontadas. Mas não são os únicos desafios (veja resultados abaixo). A maioria dos profissionais afirmou não contar com nenhum tipo de seguro. “Isso reforça a precarização dessa atividade e a necessidade de atenção por toda sociedade a um segmento que contribui muito para uma economia de baixo carbono e é fundamental na mudança de nossa matriz energética”, diz Fátima Lima, representante da Fundación Mapfre no Brasil.

Relatório Técnico Segurança Viária e Ciclologística – Desafios e Oportunidades no Brasil – @Fundación Mapfre, 2021

O que diz o iFood

Em nota, a empresa afirma que tem total interesse em ruas mais seguras para todos. E que trabalha em várias frentes (veja abaixo), “desde a capacitação até o bem-estar no exercício da atividade, além de atuar para a criação de uma regulação que garanta ao trabalhador flexibilidade e autonomia que o novo modelo de trabalho em plataforma requer, e que ofereça mais dignidade aos profissionais no acesso à seguridade social, por exemplo”. Confira algumas ações do iFood:

•       Seguro contra acidentes pessoais, com cobertura para lesões temporárias no valor de até R$ 700, bem como para invalidez permanente parcial ou total e morte acidental (de até R$ 100 mil), serviço que existe desde 2019 e é gratuito para entregadores ativos

•       Seguro de vida nos casos confirmados de covid-19

•       Curso Pedal Responsa, treinamento online e gratuito, com informações sobre direitos e deveres ao pedalar. Ele está disponível a todos os usuários e usuárias do iFood Pedal e já foi concluído por 5.654 pessoas

•       Plano de vantagens em serviços de saúde, com preços acessíveis a todos os entregadores cadastrados na plataforma e seus dependentes, em parceria com a Avus

•       Pontos de apoio, também em parceria com restaurantes, totalizando 1.300 locais em 14 cidades.

•       Mais de R$ 150 milhões investidos em ações de segurança, como EPIs, máscaras e álcool em gel

Desde 2 de abril, passou a vigorar novos valores para os 200 mil entregadores parceiros: a taxa mínima por entrega passou de R$ 5,31 para R$ 6 e o incremento por quilômetro rodado subiu de R$ 1 para R$ 1,50. Segundo a empresa, esse é o terceiro aumento em 12 meses.

Como formar profissionais do pedal

O medo de acidentes e a inadequação das ruas às necessidades de deslocamento estão no topo da lista das questões apontadas pelos entregadores ciclistas: 35% deles afirmaram já terem se envolvido em quedas ou sinistros.

O dado aparece como um dos principais resultados do relatório técnico publicado ao lado. A pouca oferta de treinamento a esses profissionais é apontada por especialistas como um dos fatores que agravam essa situação de insegurança cotidiana.

De acordo com Murilo Casagande, diretor de desenvolvimento institucional da Aromeiazero, ONG, fundada em 2011, que tem como objetivo reduzir desigualdades sociais por meio da bicicleta, a falta de segurança viária é um dos principais desafios do setor. “Depois de ganhar dinheiro para sobreviver, o que motiva a busca pela atividade, os cicloentregadores necessitam de políticas de apoio e de segurança. E isso pode ser feito com capacitações para que eles aprendam como se deslocar da maneira mais segura possível no trânsito e com o uso de equipamentos de proteção. Todos esses fatores são fundamentais”, afirma Casagrande.

A ONG oferece diversos cursos, e os módulos de segurança estão presente em todos eles. No Viver de Bike, principal capacitação da Aromeiazero, já foram 900 pessoas treinadas. Em 30 horas, os participantes têm contato com aulas de mecânica, aprendem como gerar renda com a bicicleta, como pedalar com segurança e há um módulo especial em que se discute o acesso às cidades. Existe também o Pedal Responsa, oferecido a todos os participantes do projeto, que é resultado da parceria entre o iFood e a Tembici, de entrega de comida usando bikes elétricas ou convencionais. “Temos também o Delivery Justo, um piloto feito em parceria com a Fundação Tide Setúbal, no qual buscamos empresas que patrocinem a iniciativa para que ela ganhe escala. Nosso objetivo é que o treinamento dos cicloentregadores seja uma política pública, oferecida, por exemplo, nos Centros de Apoio ao Trabalhador (CATs)”, diz.

Além da expansão das capacitações, outro desafio da atividade é a conscientização da sociedade sobre a necessidade de incluir as bicicletas com os demais veículos de forma harmoniosa. “Existe uma ideia preconcebida de que os cicloentregadores precisam ser educados. De fato, as capacitações são muito importantes e contribuem para a segurança viária, mas a boa convivência no trânsito envolve conscientização de todos os diferentes grupos que dele fazem parte”, finaliza.

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