65,7% das ciclistas sofreram assédio enquanto pedalavam em São Paulo
Perfil do Ciclista 2024 mostra a alarmante situação que mulheres enfrentam diariamente ao sair de bicicleta; número de assediadas fica acima de 60% em outras duas cidades participantes da pesquisa

Em 2024, 221.240 mulheres foram vítima de violência no Brasil, conforme o Atlas da Violência 2024 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Essa violência se estende para meninas e mulheres, de todas as idades e regiões do País. Dentre os tipos de violações, existem as sexuais, psicológicas, patrimoniais e morais. Todas atravessadas pelo assédio, um problema enfrentado também nas ruas, ao pedalar. Somente em São Paulo, 65,7% das ciclistas sofreram assédio, volume alarmante para uma cidade que diz defender a mobilidade ativa.
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Esse dado é do Perfil Ciclista Brasil 2024, que realizou questionários em 18 cidades brasileiras. Apesar desta ser a quarta edição, foi a primeira vez que a pergunta “Você já sofreu algum tipo de importunação ou assédio enquanto pedalava?” fez parte das entrevistas. Apenas mulheres foram questionadas sobre o assédio, englobando as modalidades físicas, sexuais e morais.
Ranking das cidades onde ciclistas sofreram assédio
Em primeiro lugar neste lamentável ranking está Belém, a capital do Pará. Na cidade, 580 pessoas participaram da pesquisa. Dessas, 15% eram mulheres, correspondendo a 87 ciclistas. Em seguida vem São Paulo, a maior cidade da América Latina, com 65,7% das mulheres ciclistas relatando assédio durante alguma pedalada. Na capital, 836 pessoas participaram do Perfil Ciclista Brasil 2024, sendo que 32% eram mulheres. Ou seja, 267 ciclistas entrevistadas.
Em Campos Goytacazes, no Rio de Janeiro, dos 1002 questionários aplicados, 431 eram mulheres ciclistas. Na cidade, 63,6% delas relataram terem sofrido alguma violência relacionada ao assédio ou importunação. Outra capital que fez parte da pesquisa foi Recife, em Pernambuco. Na cidade, 513 pessoas responderam à pesquisa, 12% eram mulheres. Das 61 ciclistas participantes, 36,75 relatou ter sofrido assédio.
A pesquisa ocorreu apenas em dias de semana e entrevistou ciclistas que estavam pedalando ou estacionando duas bicicletas.
Perfil Ciclista Brasil 2024
O Perfil Ciclista Brasil 2024 é uma iniciativa do Transporte Ativo, com participação do Observatório das Metrópoles e patrocínio do Itaú. Para que uma cidade seja pesquisada, é necessário montar um grupo de pesquisa voluntário, que passa por orientações da organização do estudo.
Em São Paulo, a equipe da atual vereadora Renata Falzoni (PSB) liderou o Perfil Ciclista Brasil 2024. Aliás, foi ela quem propôs inserir a pergunta sobre assédio as mulheres ciclistas. Além da política, outros ativistas e especialistas participam do conselho que palpita e ajuda a coordenar a pesquisa.
Renata ainda não era vereadora quando participou da pesquisa em São Paulo, mas uma ativista. Conforme ela relata, o assédio contra mulheres impede que diversas pessoas usem o modal diariamente. Isso já havia sido identificado em coletivos de ciclistas na capital, mas nunca foi pesquisado com profundida. Portanto, essa foi a primeira oportunidade de entender o que as mulheres passam no trânsito pelo Brasil.
“Se mais de 60% alegam que já foram assediadas, eu mesma também já fui assediada pelo fato de ser mulher e estar pedalando, mostra que a gente tem que realmente ter um recorte na atuação naquilo que a gente considera segurança, não segurança pública apenas, que é importante, mas também a segurança viária”, opina a vereadora.
Renata ainda pontua que ciclistas vivenciam outro tipo de assédio também, o moral. Quem pedala convive diariamente com violências de pessoas que utilizam outros modais. “Você ser considerado uma pessoa de menor categoria social pelo fato de você optar pelo uso da bicicleta”, explica a ciclista.
Entretanto, o assédio contra as mulheres atravessa o corpo feminino, comumente vítima de violações, conforme os anuários de segurança pública apontam todos os anos.
Como acabar com o assédio a ciclistas?
Apesar de não haver uma única fórmula para garantir a segurança das mulheres ciclistas, é promover debates e levar o assunto ao âmbito executivo. No caso do Perfil Ciclista Brasil 2024, ele apenas expõe um dado, já conhecido pelas milhares de ciclistas brasileiras. Entretanto, as medidas tomadas a partir dessas informações determinam o futuro da prática no País.
Como vereadora, Renata tem algumas sugestões quanto a isso. Ela acredita que, para aumentar a segurança dos ciclistas na cidade, é necessário acalmar o trânsito. Em relação “Porque quem mais sofre nas ruas com a violência de altas velocidades é quem está na mobilidade ativa”, exclama.
Portanto, a vereadora defende a redução da velocidade, melhoramento da infraestrutura, principalmente as travessias. Além disso, o poder público precisa respeitar as linhas de desejo, que são os trajetos que os ciclistas querem fazer. Isso porque a malha cicloviária está posicionada em locais que beneficiam os carros, não os ciclistas em si. Renata também cita a criação de uma estrutura cicloviária e o combate ao assédio moral.
“A gente tem que realmente trabalhar em vários segmentos, mas um que ajuda muito é a gente acalmar o trânsito e fazer com que os motoristas eles dirijam na rua com condições e estimulados a respeitar os pedestres e os ciclistas”, explica a vereadora. Na perspectiva dela, existem critérios técnicos para modificar o viário, seja no melhoramento das calçadas a redução das velocidades.
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