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“A gente colocou a Citroën nos trilhos do crescimento”

Primeira mulher a comandar a operação da Citroën América do Sul está no setor há 25 anos, sempre em marcas francesas

7 minutos, 6 segundos de leitura

21/01/2022

Por: Tião Oliveira

Vanessa Castanho Citroen
“Vamos oferecer um produto em um dos principais segmentos do mercado. Para isso, ele tem de ser acessível.” Foto: Divulgação Citröen

Vanessa Castanho é uma das executivas mais poderosas do Grupo Stellantis, dono da FCA e da PSA. Desde meados de 2021, a paulistana, que ingressou no setor há 25 anos, como estagiária da Renault, é a primeira mulher a comandar a Citroën na América do Sul.

Além disso, é CEO da Eco2Energia, companhia da área de painéis fotovoltaicos na qual é sócia com o marido. Também é consultora do InPact, ONG em João Pessoa (PB) voltada à preservação do meio ambiente, e atua em pelo menos mais uma entidade beneficente.

No intervalo entre tantas atividades, ela falou ao Estadão Mobilidade Insights sobre o desempenho da marca francesa em 2021 e as tendências para 2022.
 
Como foi 2021 para a Citroën no Brasil?

Vanessa Castanho: O ano de 2021 foi de revolução em todos os sentidos. A gente teve uma performance muito boa, a melhor desde 2016. Enquanto o mercado cresceu 2%, crescemos 77%. No caso do (SUV) C4 Cactus, as vendas dobraram. No dos utilitários, foi cerca de 123% de alta nas vendas.

Em agosto de 2021 já tínhamos feito todo volume de 2020. Ou seja, isso mostra que a nossa estratégia está certa e que a gente colocou a Citroën nos trilhos para o crescimento. Assim, 2021 foi importante também para a construção do próximo capítulo. Isso inclui novos produtos.

É o caso do novo C3 (que será feito em Porto Real, no Rio de Janeiro), apresentado em 2021 e vai ser o primeiro produto da plataforma c-Cubed (nova base compacta), que dará origem a três produtos na América do Sul. Eles serão concebidos para a região, com apoio de fornecedores locais e focado no perfil do cliente daqui.

Lançamos duas séries limitadas do C4 Cactus, a nova (van) Jumper Cargo e nosso primeiro veículo elétrico, a (van) E Jumpy. Isso é parte do plano Citroën 4 All, que contempla  quatro anos e vai até 2024. Temos um direcionamento muito claro sobre para onde a marca quer ir. Isso deu muita confiança para a rede de concessionárias. Vamos crescer com um plano robusto e temos uma gama robusta de produtos. Só tem alegria daqui para frente.

Quais serão os próximos passos da eletrificação no Brasil?

Castanho: No Brasil, a gente tem duas vantagens importantes. Uma é que a nossa geração de energias vem muito da hidroelétrica. É claro que há situações de escassez de água, mas é muito melhor que a de países que têm de queimar carvão, por exemplo. Também temos o etanol, porque é preciso olhar não só para o consumo da energia, mas para toda a cadeia de produção dessa energia, do início ao fim.

O etanol é uma força que vai nos ajudar a fazer a transição do motor a combustão para o elétrico. Estamos muito bem preparados. Temos mais de oito produtos eletrificados, além de várias soluções de mobilidade. Por exemplo, temos o AMI (microcarro elétrico vendido na Europa por € 6 mil), que é muito inovador.

O Urban Collectif, revelado em 2021, é uma espécie de skate elétrico e autônomo que pode ser customizado. Ou seja, a tendência não é só a questão da energia limpa, mas também de oferecer produtos que possam ter a cara do consumidor, focados em atender as necessidades específicas dele.

Começamos com os utilitários porque é nesse segmento que as vendas crescem mais. Afinal, o elétrico tem menor custo de manutenção. Vamos continuar de olho na infraestrutura, e traremos mais produtos conforme ela avançar.

A aceleração da digitalização contribuiu para o crescimento das vendas de 2021?

Castanho: Os planos já estavam traçados, mas a pandemia acelerou isso. Recentemente, vi uma pesquisa que aponta que, com a pandemia, a digitalização avançou dez anos. Afinal, tínhamos de pensar no bem-estar e na segurança. Obviamente aceleramos tudo o que foi possível em relação a novos canais de contato e soluções.

A aceleração foi forte e mudou também a cabeça do cliente, que passou a fazer, por meio eletrônico, coisas que ele acreditava que não podia. Então, a gente tem de estar pronto para dar respostas de forma mais rápida, resolver questões com a ajuda de apps. Estamos muito focados nisso. Temos de oferecer uma inovação acessível e que atenda as necessidades dos clientes É isso que a gente quer que cada vez mais clientes brasileiros descubram.

A Citroën vai continuar posicionada como uma marca premium?

Castanho: A Citroën é vista como uma marca atrativa e desejada. Essa imagem foi construída por meio de bons produtos. Não vamos abandonar o viés aspiracional, mas vamos oferecer um produto em um dos principais segmentos do mercado. Para isso, ele tem de ser acessível.

A marca Premium tem um pouco de distância. E a gente quer estar mais próximo de nossos clientes. Então, vamos pegar tudo de bom que construiu essa imagem da Citroën e fazer da marca algo mais acessível e próximo do consumidor.
 
Houve alguma vez em que você teve dúvidas sobre como para atingir os objetivos?

Castanho: Claro que sim. É claro que não estou aqui por acaso. Há todo um histórico e bons resultados. Brinco que é como o cinto do Batman. Ou seja, a gente vai pegando as experiências e juntando ali, de modo a nos capacitar. Quem está nesse tipo de posição tem de dar o Norte.

Logicamente, é preciso seguir a orientação da matriz, absorver o DNA da marca e suas estratégias. Tudo alinhado com a estratégia da região. Há questões como engenharia e fornecedores. Teremos três novos produtos em três anos. Então, temos de transformar o gorila em miquinhos. Assim, a gente consegue dar conta deles. É importante ter um time bom, gente competente junto e produto bom.

Alguma vez você sentiu que estava sendo tratada de forma diferente por ser mulher?

Castanho: Aconteceu, claro. E a gente tem de falar bastante sobre isso para, justamente, não precisar falar mais no futuro. Muitas vezes as pessoas não percebem que estão sendo machistas. E, aqui para nós, é um segredo (risos), mas muitas vezes eu percebi que estava sendo machista.

Há uma grande diferença entre ser e estar. Enquanto eu estive nessa posição, terei uma responsabilidade enorme de tentar mudar esse cenário. Ou seja, de ajudar a diminuir as diferenças. Formei um time muito diverso. A diversidade ampla, que inclui gênero, raça, orientação sexual e nacionalidade, é muito positiva. Na Citroën América do Sul, 50% são mulheres, há diferentes idades e nacionalidades.

Uma cultura diversa faz a gente tomar decisões melhores. E isso impacta o resultado da empresa. Fui escolhida para ser cônsul da Stellantis em relação a questões de afinidade de gênero, e sou coacher mundial do Grupo. A empresa é reflexo da sociedade. Então, se a gente está vendo um ambiente melhor nas empresas, com certeza vamos ter uma sociedade melhor para todos.

O que o governo deveria fazer para fomentar o setor e a economia como um todo?

Castanho: Não tem de reinventar a roda. Creio que é só ter responsabilidade e seguir com o que já deu certo. É preciso investir muito em educação. Isso também ajuda a melhorar a questão da saúde.

Também é preciso diminuir o custo do Estado. Mas não é só uma questão de governo. Todos, como nós, indivíduos e as empresas também têm de fazer a sua parte. Nós, como líderes, influenciamos as pessoas. Assim, podemos fazer com que elas vão atrás de educação, que tomem vacina e façam o que precisa ser feito.

De qualquer modo, todos têm liberdade de tomar suas próprias decisões. Mas indivíduos, empresas e governo, cada um tem que fazer o seu papel, seguindo o modelo que já deu certo.

Qual mensagem você mandaria para a Vanessa Castanho lá em 1996, quando ela entrou no setor de veículos como estagiária?

Castanho: Eu diria: “Abra suas asas e manda ver.” A gente vai achando o caminho e tem o que precisa dentro de si mesmo. É preciso saber escutar e continuar aprendendo.

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