Mobilidade para quê?

Bicicletas estão em falta no mercado brasileiro

Segmento sofre com desabastecimento de peças e componentes, movimento que prejudica toda a cadeia de produção e é resultado direto da pandemia

6 minutos, 16 segundos de leitura

21/07/2021

Por: Daniela Saragiotto

Foto: Getty Images

Se, por um lado, a pandemia da covid-19 fez com que a busca pelas bicicletas, por diversas razões, fosse fortemente impulsionada, o mesmo cenário trouxe uma instabilidade à produção e, consequentemente, à importação de componentes, que perdura até hoje, atingindo diversos mercados no mundo, inclusive o brasileiro.

De acordo com a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas, a Aliança Bike, a principal causa do desabastecimento está no fato de que a maior parte dos componentes vem da Ásia, principalmente da China, Taiwan, Malásia e Indonésia, mesmo para as bicicletas nacionais.

“Esse mercado produtor não tem conseguido dar conta da demanda mundial do setor. Ainda há fábricas fechadas por causa das ondas da pandemia, além de indústrias que estão sendo prejudicadas porque trabalham com mão de obra importada de países vizinhos, que estão com restrição de circulação de pessoas”, explica Giancarlo Clini, presidente da associação.

Malabarismos para vender

Com procura aquecida pelas bikes no mercado brasileiro, o setor segue resiliente, tentando contornar as dificuldades. “Se, antes, as empresas faziam seus pedidos de peças e componentes com seis meses de antecedência, hoje, já temos fabricantes que pedem um planejamento de dois anos para a entrega”, afirma o presidente da Aliança Bike.

De acordo com Luis Felipe Monteiro Praça, country manager da Trek Brasil, fabricante de bicicletas com lojas no mundo todo, mais de 100 delas localizadas no Brasil, a falta de peças e componentes tem demandado um esforço extra de todo o setor. “Nunca trabalhamos tão próximos dos fabricantes de peças, dizendo quais são os componentes que precisam ser priorizados para que a gente consiga vender equipamentos que estão quase prontos. Temos bicicletas que demandam itens de 52 fornecedores diferentes. Se faltar um, não conseguimos entregar. É um verdadeiro malabarismo logístico”, explica.

Para Giancarlo Clini, presidente da Aliança Bike, ainda não é possível prever quando a situação irá se normalizar. “Não conseguimos ver mudanças no futuro próximo. A pandemia criou uma situação muito atípica, com fábricas trabalhando em sua capacidade total. E não podemos nos esquecer de que muitos locais enfrentam outras ondas de contaminação; então, temos, neste momento, fábricas fechadas novamente”, explica.

Fabricantes pedem dois anos para entregar as peças

Com demanda atual muito acima da capacidade ofertada, setor no Brasil trabalha com planejamento antecipado para pedidos 

Entre janeiro e maio deste ano, a importação de componentes para bicicletas atingiu US$ 154.441.532, de acordo com dados da Aliança Bike, frente ao total de US$ 212.728.942, em todo o ano de 2020.

Apenas como exemplo, nos cinco primeiros meses deste ano, importamos o equivalente a 73,1% de todos os quadros de bicicletas do ano anterior, 77% dos pedais e pedivelas e superamos todas as importações de luzes para bicicletas feitas em 2020. Os números revelam que, mesmo com as restrições que a falta de peças e componentes tem trazido, o setor registra aumento expressivo neste ano.

Com média de dois anos para recebimento de peças, componentes e bicicletas inteiras, a maior parte desses itens importados dos países asiáticos, todo o setor tem enfrentado desafios para continuar vendendo.

Na Trek Bikes, fundada em 1975, fabricante com lojas no mundo todo e cerca de 100 pontos de venda no Brasil, o planejamento passou a ser ainda mais criterioso. “Fizemos um pedido tão grande, logo nos primeiros meses da pandemia, que a Shimano, fabricante de câmbio para bikes, nos ligou questionando se estava mesmo correto. E encomendamos as peças e componentes para os lançamentos que pretendemos fazer em 2022, mas, se vamos conseguir receber, é outra história”, afirma Luis Felipe Monteiro Praça.

De acordo com ele, mesmo assim, a empresa estima perda entre 40% e 50% das vendas, nos últimos 12 meses, no Brasil. “É uma pena, porque as pessoas no mundo todo despertaram para o estilo de vida que a bike proporciona. Dificilmente, quem passou a pedalar, seja como meio de transporte, seja para a prática esportiva ou mesmo lazer, deixará a bicicleta de lado quando a pandemia acabar”, afirma.

Praça conta ainda que a questão da garantia das bicicletas também tem sido muito desafiadora para todo o setor. “Temos um estoque para atendimento desses clientes que podem ter algum problema em peças e componentes, mas é difícil prever exatamente esse volume. E tudo o que está sendo fabricado é usado na produção”, afirma o country manager da Trek Brasil.

Concorrência com Estados Unidos e Europa

Na TSW Bike, marca brasileira de bicicletas que pertence ao grupo JPP, que atua com importação e exportação desde 1970, o desafio é o mesmo. A empresa utiliza, no processo de fabricação, insumos e componentes de países da Ásia como China, Taiwan, Japão e Cingapura.

“Dependemos da entrega sincronizada de diversos fornecedores e, quando alguns deles não conseguem cumprir com a programação, ficamos impossibilitados de produzir a bicicleta. A falta de apenas um componente entre dezenas de outros já é o suficiente para que a nossa linha de produção fique parada, esperando para a fabricação completa do produto”, explica Rodrigo Coelho Pinto, sócio-diretor do Grupo JPP/TSW Bike.

Segundo ele, a empresa concorre com insumos que também vão a países como Estados Unidos e na Europa. “O mercado global está aquecido, e também ocorre um problema de frete internacional, que atualmente está custando 600% acima do normal, além de sofrer atrasos e cancelamento de rota para alguns portos no Brasil”, afirma.

O executivo, que estima perda de 40% nas vendas deste ano, afirma que a empresa conseguiu se programar com antecedência para adquirir insumos e recebe, semanalmente, embarques de diversos países, que possibilitam a fabricação de alguns modelos da marca. “Para ter uma ideia, já estamos com pedidos programados para 2023 e alguns para 2024, em um esforço total para garantir que nossos consumidores e entusiastas tenham a oportunidade de apreciar momentos inesquecíveis em cima de sua bicicleta, se exercitando, fazendo amigos, mudando seu estilo de vida”, afirma.

Custo da matéria-prima + dólar elevado + aumento no frete = bikes mais caras

Em meio ao desabastecimento, o preço das bicicletas registrou aumento a partir de abril, bem como o valor dos reparos e manutenções, resultado de três fatores combinados.

  1. A matéria-prima sofreu reajuste tanto para quem produz os componentes no Brasil quanto para os que são feitos na Ásia, de onde vem grande parte dos componentes usados no mercado interno. Alumínio, aço, materiais plásticos e outros foram reajustados desde o início da pandemia, com impacto também em outras indústrias.
  2. A desvalorização do real perante o dólar também afetou o preço: se muitos lojistas estavam trabalhando com seus estoques até o início da pandemia – e esses produtos estavam não só com valor do frete antigo mas o da matéria-prima e taxa de câmbio anterior à pandemia – neste ano, essas reservas acabaram e os valores foram atualizados.
  3. O custo do frete marítimo também tem pressionado o preço das bicicletas. De acordo com a Aliança Bike, ele quadruplicou de valor desde o início da pandemia. “E está complicado até mesmo conseguir espaço nos navios, uma situação difícil para um setor tão dependente dos componentes asiáticos”, explica Clini.

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