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Embaixadores

Luciana Nicola

Superintendente de relações institucionais, sustentabilidade e empreendedorismo do Itaú Unibanco.

Mobilidade para quê?

Lugar de mulher é aonde e como ela quiser chegar

Podemos ter mulheres em funções-chave, como secretarias de Transportes, estudos para mapeamento da mobilidade feminina e leis mais firmes contra assédio

26/03/2021 - 2 minutos, 57 segundos


mulheres e bikes
Foto: iStock

Um dos motes da luta pela igualdade de gênero é ‘Lugar de mulher é onde ela quiser’. Quando olhamos para o cenário da mobilidade urbana no Brasil, surge um segundo questionamento: como essa mulher prefere chegar aonde ela quer? A análise da presença feminina no setor tem ajudado a entender essa resposta.

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Em princípio, os números podem assustar, já que apenas 6% das pessoas que pedalam na cidade de São Paulo são mulheres, segundo levantamento do Bike Itaú. Quando se fala apenas do serviço de compartilhamento de bicicletas, esse índice aumenta, chegando a 38%. A organização Vá de Bike fez uma pesquisa em 2019 e concluiu que as mulheres optam mais pelo compartilhamento de bike por duas principais razões: segurança, tanto para evitar assaltos quanto para ter mais visibilidade no trânsito caótico da metrópole; e praticidade, pois, em meio a duplas ou triplas jornadas, não ter a preocupação com manutenção da bicicleta representa ganho de tempo, um recurso precioso.

Motivos para o deslocamento

O uso das bicicletas para mobilidade das mulheres acaba envolvendo toda essa outra dimensão, enquanto, para os homens, o principal motivador é o deslocamento para o trabalho. O estudo do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que levou a essa constatação indica que ‘as mulheres representam a maioria de usuários de transporte público, mas, por outro lado, são esquecidas nas políticas de mobilidade. Um dos fatores preponderantes para isso é a falta de representatividade feminina nos cargos responsáveis por pensar e implantar novas estratégias’.

Um fator positivo nesse sentido é a presença de mulheres que, há pelo menos dez anos, contribuem enormemente para a ampliação do uso e da estrutura para as bicicletas e outras alternativas para a mobilidade urbana. Podemos citar as cicloativistas Renata Falzoni (também embaixadora da Mobilidade) e Aline Cavalcante, que lutam por melhorias e ampliação dos direitos dos ciclistas. Temos também Clarice Linke, diretora-executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), que, há duas décadas, trabalha em planejamento e implementação de políticas e programas sociais.

Existem iniciativas brasileiras que se destacam, como a La Frida Bike, empreendedorismo social orgânico criado por mulheres negras para incentivar o uso da bike como modal de transporte sustentável e econômico e a independência financeira das mulheres, em Salvador (BA). E também há o Desafio Mobilidade Itaú Cebrap, que, há quatro edições, promove e publica estudos sobre o tema, como o artigo “Economia ciclofeminina: estudo do uso da bicicleta como trabalho por mulheres ambulantes na cidade do Rio de Janeiro”, por Vivian Garelli, mestre pelo programa de pós-graduação em antropologia da UFF e cientista social pela Uerj.

O engajamento, tanto das mulheres como dos homens, é necessário para que haja mudanças efetivas nas políticas públicas, mas existem outras soluções para maior representatividade feminina no grande tema de mobilidade urbana. Podemos ter a participação de mulheres em funções-chave, como as secretarias de Transportes, e a realização de estudos e pesquisas que permitam mapear o panorama da mobilidade feminina. Isso sem falar em leis mais firmes de combate ao assédio à violência contra as mulheres.

A preocupação com igualdade, inclusão e representatividade e ações concretas para a inclusão desses valores nas soluções práticas de mobilidade, sem dúvida, trazem um impacto positivo real para a sociedade – para todas e todos.”

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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