Mobilidade para quê?

Deslocamentos sustentáveis para combater as mudanças climáticas

“Quanto mais fácil for navegar pelo ecossistema de transporte das cidades, mais pessoas o adotarão como forma preferencial de deslocamento.”

2 minutos, 59 segundos de leitura

13/10/2021

Foto: Pexels

Em agosto passado, o Painel Intergovernamental para Mudança Climática (IPCC), da ONU, divulgou dados alarmantes sobre a situação do meio ambiente e as tendências catastróficas caso nada seja feito para revertê-las.

O estudo é um chamado urgente à reflexão sobre os impactos das ações humanas sobre o planeta. Em um cenário como esse, nos urge também provocar tais discussões no contexto da mobilidade das cidades.

Embora, durante grande parte da história, os seres humanos tenham vivido, majoritariamente, no campo, desde os anos 2000, essa tendência se reverteu. No Brasil, 85% da população já reside em áreas urbanas, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad). O impacto dessa mudança é enorme, já que o adensamento também multiplica a geração de resíduos e emissões de gases poluentes. As construções, em geral de concreto ou asfalto, no caso das vias, também alteram nossa relação com o espaço, dificultando a circulação de água, por exemplo. Não à toa, vimos, neste ano, um aumento relevante em extremos climáticos, como inundações históricas na Europa e incêndios raras vezes vistos na Austrália e mesmo no Brasil.

A concentração de pessoas nas cidades, por sua vez, impôs desafios imensos para a mobilidade de seus habitantes. Desde os anos 1950, o espaço urbano foi modificado para priorizar meios de transporte movidos a combustão, especialmente o automóvel particular, com vias asfaltadas mais largas e políticas públicas de incentivo ao carro. O resultado se vê na participação do trânsito nas emissões de gases do efeito estufa: em São Paulo, mais de 70% vem apenas de veículos particulares, como aponta o Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema).

Ainda que se possa argumentar que motores movidos a eletricidade podem atenuar os impactos ambientais causados pelo trânsito, a ineficiência da infraestrutura urbana seguirá, caso não mudemos para modelos mais sustentáveis de deslocamento. Usar carros elétricos reduz as emissões, mas a maior parte das viagens seguirá sendo feita por apenas uma pessoa, enquanto quatro bancos permanecem vazios, ou seja, uma ociosidade de 80%.

Visão mais humana

Como tornar, então, a mobilidade mais sustentável? O primeiro passo é colocar as pessoas como protagonistas, como já defendi nesta coluna. Com base em uma visão mais humana, passamos a desenhar calçadas mais largas e ciclovias seguras, por exemplo, facilitando formas ativas de deslocamento.

A mudança para energias mais limpas é, sim, fundamental, mas desde que passemos a dar prioridade ao transporte coletivo. A relação entre infraestrutura urbana e mobilidade é inequívoca e deixá-la mais eficiente e racional permitirá mais áreas verdes, tornando as cidades mais sustentáveis.
Ademais, tecnologias que possibilitem que pessoas usem os meios de transporte de forma inteligente e integrada, com aplicativos como a Quicko, também são importantes para facilitar o acesso ao transporte público. Quanto mais fácil for navegar pelo ecossistema de mobilidade das cidades, mais pessoas o adotarão como forma preferencial de deslocamento.

Como aponta o relatório do IPCC, essa discussão é urgente e a inação tem impactos catastróficos. Precisamos agir o quanto antes para que eventos climáticos extremos não sejam nosso cotidiano daqui para frente. Nesse reencontro com a cidade após as fases mais rígidas da quarentena imposta pelo coronavírus, ter esse alerta da ONU em nossa mente é mais do que uma preocupação: é um convite para mudarmos.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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