Mobilidade para quê?

Um dia para refletir. E 364 dias para agir

Dia Mundial sem Carro pede que cidades revejam suas estratégias de mobilidade e que pessoas experimentem novos hábitos

3 minutos, 53 segundos de leitura

22/09/2021

Por: Daniela Saragiotto

ônibus elétrico
Frotas elétricas de ônibus são opções de mobilidade sustentável. Na foto, 15 ônibus eletrificados que operam na cidade de São Paulo. Foto: Divulgação Prefeitura SP

dia mundial sem carro

Hoje (22/09) é o Dia Mundial sem Carro, uma data que passou a ser celebrada em 1997, na França, para estimular a reflexão sobre a dependência das sociedades em relação aos automóveis. Um tema que, ao longo do tempo, extrapolou a pauta da mobilidade e se tornou, também, um debate sobre mudanças climáticas, escolha de matrizes energéticas, transporte público e saúde, entre outros relacionados.

Os problemas são velhos conhecidos, especialmente pela população que vive nos centros urbanos. Mas é impossível ficar indiferente quando vemos alguns números: 45% das emissões globais de gases que causam as mudanças climáticas vêm do transporte de passageiros, de acordo com estudo da Oxford Martin School, da Universidade de Oxford; no Brasil, os veículos de passeio emitem 161,9 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) por ano, o equivalente a 8,7 trilhões de balões de festa cheios (e que, para a neutralização, seriam necessárias 18,6 bilhões de árvores da Mata Atlântica), de acordo com a pesquisa Impacto das Emissões de CO2 no Trânsito Brasileiro, do estatístico Jefferson Soares Ferreira.

Como efeito em cascata, fica evidente a relação entre o transporte, especialmente os que usam combustíveis fósseis, e a saúde da população: o Brasil contabiliza quase 51 mil mortes ao ano pela poluição do ar, segundo aponta o estudo O Estado da Qualidade do Ar no Brasil. Coordenado pelo WRI Brasil, ele mostra, também, que essa epidemia silenciosa é negligenciada pelo Poder Público, expondo toda a sociedade.

Análise histórica

O fenômeno da sociedade “carrocentrista” é um desafio que cidades do mundo todo enfrentam. “Pensar em como sair dessa situação é, também, pensar em como chegamos nela. Se voltarmos 100 anos no tempo, com a popularização do automóvel com o Ford T, a palavra congestionamento já estava associada a essa inovação”, diz Luis Antonio Lindau, diretor de cidades do WRI Brasil.

Voltando ainda mais, há cerca de 200 anos, no surgimento do primeiro ônibus, sua grafia de acordo com Lindau era ‘omnibus’, que, em latim, significa ‘para todos’. “Passado todo esse tempo ainda não conseguimos fazer com que esse transporte seja, de fato, acessível para todos”, comenta, usando a crise do transporte público no Brasil como exemplo, que registrou diminuição significativa de passageiros, que chegou a mais de 70% em algumas cidades, colocando à prova o equilíbrio financeiro dos sistemas e a continuidade da oferta do serviço. “Mais de 50% das pessoas que usam esse tipo de transporte têm nele sua única opção de deslocamento. O que era para ser mais uma opção é a única para muita gente, em um setor que passa por uma grave crise que foi agravada pela pandemia”, diz.

Alternativas

Para Lindau, para encontrar soluções é fundamental que cada cidade olhe para dentro de suas estruturas e realidades. No caso da mencionada crise nacional do transporte público por ônibus, o diretor da WRI afirma que recursos do governo federal são fundamentais “O conceito é salvar, renovar e prosperar. Porque não adianta apenas destinar verbas sem um planejamento e sem exigir contrapartidas”, explica. De acordo com ele, o sistema precisa ter outras fontes de financiamento além das tarifas e aportes governamentais. “Alguém tem que pagar essa conta das externalidades causadas pelos carros. Por que não pensamos em nos estacionamentos nas ruas das cidades? São Francisco, por exemplo, tem controle total e até tarifa dinâmica para essas vagas”, questiona. 

O executivo também menciona a importância de investimentos em frotas de ônibus elétricos para o transporte público coletivo. “São José dos Campos (SP), por exemplo, está avançando nessa pauta, com a compra de uma frota própria de ônibus pela prefeitura”, afirma. A cidade terá no total 12 ônibus biarticulados chamados de Veículo Leve sobre Pneus (VLP) até outubro deste ano, 100% elétricos e com capacidade de transportar 168 passageiros cada.

Para encerrar a reflexão sobre a data em busca de alternativas para os deslocamentos, vamos de mobilidade ativa. Na busca pelo distanciamento social na pandemia, a modalidade experimentou aumento expressivo no número de praticantes. A venda de bicicletas no Brasil cresceu 54% em 2020, segundo um levantamento do Itaú Unibanco. Já a preferência por andar a pé passou de 9%, antes da covid-19 para 23% em todo o País em 2020, segundo a organização Rede Brasileira de Urbanismo Colaborativo. Um movimento que, felizmente, aponta para o futuro e está em linha com as experiências mais bem-sucedidas da atualidade.

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