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“Frota elétrica deve demorar a crescer no Brasil”

Volkswagen diversifica aposta em soluções para reduzir nível de emissões de poluentes de veículos

9 minutos, 19 segundos de leitura

23/01/2022

Por: Tião Oliveira

Pablo Di Si Volkswagen
Para Pablo Di Si, redução de CO2 deve incluir toda a cadeia de produção. Foto: Divulgação Volkswagen

Desde o dia 1º de janeiro de 2022, Pablo Di Si ocupa o recém-criado posto de chairman executivo da Volkswagen. Sua missão é pensar a futura estratégia da empresa em áreas como mobilidade, eletrificação em 29 países das Américas do Sul e Central, além do Caribe, na região chamada de SAM.

Habilidoso, em meados dos anos 1980 ele conquistou vaga em uma universidade dos Estados Unidos após enviar um vídeo em que mostrava ser um bom volante em um time de base do futebol portenho.

Recentemente, o argentino convenceu a matriz da empresa, na Alemanha, a criar um centro de desenvolvimento de biocombustíveis no Brasil. O executivo falou ao Estadão sobre o novo cargo e o futuro da companhia alemã.
 
Como foi 2021 para a VW no Brasil?

Pablo Di Si: O ano de 2021 foi bom do ponto de vista de resultados financeiros. Porém, poderia ter sido melhor. Todo mundo ficou com esse gostinho de que poderá ter feito muito mais coisas.

A estimativa da Anfavea é de que a indústria deixou de vender entre 300 e 350 mil veículos no ano passado. Havia consumidores com dinheiro disponível e vontade de comprar um veículo. Mas nós não tínhamos as peças, seja semicondutor, pneus, etc, para produzir esses veículos.

Olhando um pouquinho para 2022, haverá menos restrições, mas elas vão continuar existindo. Assim, temos de olhar mais para frente, entender a mobilidade e como serão os veículos sustentáveis, sejam elétricos, híbridos ou flex.

É preciso olhar os modelos de negócio em que vamos atuar e como será o novo consumidor, quais serão as preferências dele. Temos de ter um olhar mais estratégico e olhar ainda mais para frente.
 
O sr. foi promovido. Qual é o seu novo papel na estrutura da empresa?.

Di Si: Sim. Eu saí da operação e passei a focar estratégia. Miro temas como futuro, políticas públicas. Tenho de ter um olhar transversal, avaliar novas tecnologias e parcerias.

Minha responsabilidade é gerar muito mais desenvolvimento por meio de ações com outras empresas estratégicas para que a Volkswagen continue crescendo.

A sua defesa contundente do etanol como uma das soluções para o futuro da mobilidade contribuiu para você chegar à nova posição na VW?

Di Si: Creio que não. Mesmo porque isso estava definido antes de o projeto ser aprovado. Somos a única montadora do mundo que tem um centro de pesquisas de desenvolvimento de biocombustíveis. E ele fica aqui no Brasil.

O mais importante é que, seja um carro elétrico, híbrido ou flex ou seja um patinete ou bicicleta, ele gera CO2. Então, é importante acompanhar todo o ciclo do produto e a fonte de energia necessária, que pode ser vento, água, etanol, carvão e gasolina, por exemplo.

Eu digo que nosso nariz respira não só o que sai do escapamento do veículo, mas tudo que é gerado no processo. Também é importante deixar claro que o etanol não é a solução para o mundo, mas é espetacular para o Brasil e outros países. Nós também temos muito sol, vento e água. Há ótimas fontes renováveis de energia.

Temos de entender qual é a melhor para cada país. Seja como for, o etanol tem muito para contribuir no Brasil e em outros locais do mundo.
 
A VW estuda integrar outros modais de transporte, como bicicletas e transporte coletivo?

Di Si: Temos uma série de iniciativas. Começamos pelos carro elétricos, que foram lançados também no Brasil e Argentina, além da Alemanha, entre outros mercados. Para alguns modelos há uma espécie de combo. Você também pode comprar bicicleta e patinete. Ou seja, temos de olhar todo o processo da mobilidade e da sustentabilidade.

Já estamos fazendo no Brasil e trabalhando fortemente na Alemanha e nos Estados Unidos a questão da infraestrutura de recarga de veículos elétricos. As empresas e governos, sejam de países, regiões e cidades, têm de contribuir para o desenvolvimento da eletrificação.

Fizemos uma parceria com empresas como Siemens e Porsche e estamos instalando carregadores rápidos no Brasil. Ainda não são muitos, mas, se cada um fizer seu pedacinho, em cinco anos nós temos muito mais.

Em que momento haverá equilíbrio de preço e oferta do carro a combustão e o elétrico?

Di Si: É uma pergunta estratégica e, para responder, temos de entender o contexto. Alguns países apostaram na eletrificação. Por isso, deram benefícios de, digamos 8 mil euros, para o consumidor, de modo a acelerar o processo.

Com isso, o preço do carro elétrico fica bem próximo ao do a combustão, o que o torna muito interessante. Além disso, o custo de uso vai vai cair. Sem nenhuma dúvida, em cinco anos o custo desses carros vai ser muito parecido. Porém, na Alemanha, EUA e China, essa é uma política de Estado.

Esse subsídio visa criar uma nova indústria, que inclui baterias e serviços de reciclagem. Vamos falar agora de Brasil. É preciso elogiar o governo, porque há uma lei sobre o combustível do futuro. Ou seja, ela vai regular da aviação a navios e toda a cadeia de transporte. Isso é importante porque regula a emissão de CO2 do poço à roda. Ou seja, no ciclo completo.

Não importa qual seja a fonte de energia, ter uma política pública como essa é fundamental para reduzir as emissões. Acredito muito no Brasil e há poucos países no mundo com esse tipo de política pública. Então, a ampliação da oferta do carro elétrico vai ser um pouco mais demorada no Brasil.

Cada país tem de olhar de onde virá a energia. A solução é ainda mais ampla. As usinas, por exemplo, produzem etanol e açúcar. O bagaço da cana, que durante muitos anos foi descartado, agora gera biometano que pode ser usado para a produção de energia que será oferecida na rede elétrica. Então, há soluções que vão muito além do setor de veículos. A visão tem de ser muito macro e de longo prazo.
 
A eletrificação também é uma questão de estratégia industrial para vários países.

Di Si: Está certo. Os EUA estão criando indústrias de carros elétricos e bateria. Mas, se você olhar a matriz energética brasileira, que é 85% limpa, ante 52% nos EUA, quanto mais carro elétricos houver, maior será a poluição.

Porém, os americanos estão acelerando o processo de converter seus veículos para elétricos, o que inclui a criação de mais indústrias. Nos EUA, em cinco, dez anos, o setor de veículos elétricos deverá ser maior que o de modelos com motor a combustão.
 
Qual foi o impacto da aceleração da digitalização nos negócios da VW?

Di Si: Em 2018, iniciamos o processo que daria fim ao manual físico dos nossos carros. Criamos o serviço de garantia digital e o VW Play O sistema de conectividade foi criado no Brasil por engenheiros brasileiros. Evidentemente, a pandemia acelerou drasticamente a digitalização.

Em julho de 2020, lançamos o Nivus sem ter um único modelo físico em nossa rede de concessionárias. Em poucos minutos, vendemos 1000 unidades. Todo esse processo está ganhando velocidade e ficando cada vez mais dinâmico.

Qual deve ser o papel do governo para desenvolver o setor de veículos e mobilidade?

Os governos deveriam tratar de questões estratégias. Cada país tem de avaliar o que tem de melhor, seja em recursos naturais, pessoas, cultura, etc, e estabelecer quatro, cinco indústrias como estratégicas. Assim, é possível desenvolver as pessoas e investir em inovação. Creio que no Brasil o agronegócio é um setor fundamental.

A indústria de veículos representa 20% do PIB industrial. Há uma indústria atrelada ao aço que também é muito importante no Brasil. Há a Petrobras, que tem conhecimento enorme no setor e excelentes profissionais. Além disso, o Brasil é repleto de recursos naturais, o que facilita o desenvolvimento de vários setores.

Seja como for, é preciso que esse plano estratégico  tenha continuidade, independentemente do governo. Essa é a parte difícil nos países da América Latina. Aqui, quando sai um governo e entra outro, muita coisa acaba mudando. De qualquer modo, é um consenso que o agronegócio é fundamental para o Brasil.
 
Foi um dos poucos setores que cresceu fortemente mesmo com a pandemia…

Di Si: Há várias empresas brasileiras brilhando no mundo. A maior empresa mundial em cervejaria é a Ambev. A Embraer é espetacular e vende para o mundo todo. Isso citando apenas dois exemplos.

O Brasil vende conhecimento e tecnologia para vários mercados ao redor do mundo.
 
Houve algum momento em que você chegou a ficar sem dormir, por exemplo, antes ou depois de tomar uma decisão difícil?

Di Si: Um dos momentos recentes mais difíceis foi no início da pandemia. Não estou falando da questão financeira. Fechar a fábrica foi a questão de menor relevância. Havia incertezas absolutas sobre a saúde de funcionários, das famílias, sobre a sustentabilidade do negócio. Ou seja, como o negócio ficaria, pois o setor gera muito emprego e impacta muita gente. Não cheguei a ficar sem dormir, mas passeis semanas bastante preocupado.

Graças a Deus, o desenvolvimento da vacina foi muito rápido e surgiu uma luz no fim do túnel.
 
Você mudaria alguma decisão que tomou, se pudese?

Di Si: Talvez eu colocaria mais velocidade, por exemplo, nessa transição digital. Do ponto de vista estratégico, lançamos cinco carros e ganhamos participação de mercado.
 
Qual mensagem você mandaria para o Pablo que estava se formando na universidade em 1994?

Di Si: Claro que conhecimento técnico é importante, mas diria para focar o trato com as pessoas. Para buscar colocar o time trabalhando junto, ter esse senso de time. Isso é muito mais importante que uma competência técnica. Então, eu diria: “Balancei um pouco mais o seu perfil, Pablo.”
 
Sei que você continua jogando futebol com amigos. Você acredita que a Argentina tem chance de ganhar a Copa do Catar?

Di Si: Tem muita chance, e eu explico o motivo. Não é pelo futebol, não. É porque o time está unido. Antes da Copa América, eu disse que a Argentina iria ganhar. Não é sobre futebol. Eu não estava falando da parte técnica, que é importante, claro. Mas com o time unido é muito mais fácil ter mais chances.

Quantas vezes vimos o time brasileiro ou o argentino com megaestrelas, mas brigando internamente e não dando em nada? Como o time está bem unido, tem muita chance de ganhar a Copa do Mundo. 

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