Mobilidade para quê?

Impacto da pandemia nas ocorrências de trânsito

“Dados de 2021 não devem acompanhar a redução no número de mortes no trânsito registrada nos últimos seis anos.”

3 minutos, 54 segundos de leitura

17/11/2021

Conteúdo produzido em parceria com o Observatório Nacional de Segurança Viária
Mobilidade Estadão, uma marca laço amarelo
trânsito na pandemia
Fotos: Pexels e Divulgação ONSV

Desde que foi decretada a pandemia da covid-19 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 11 de março de 2020, muito se cogitou sobre seus impactos na redução das ocorrências de trânsito. Os dados preliminares de mortes no trânsito de 2020 mostram uma pequena redução, cerca de 6%, em comparação aos índices de 2019.

Em 2020, foram 31.945 óbitos e 30.168 mortes, em 2019. Ou seja, ao contrário do que se imaginava, a pandemia da covid-19 não reduziu, significativamente, as vítimas fatais no trânsito. Nos últimos seis anos, estamos vendo o total de mortes cair de forma bem lenta – média de 5% ao ano –, mas isso já representa, segundo os estatísticos, uma tendência do País nessa área.

A parceria entre o Observatório Nacional de Segurança Viária, a Universidade Federal do Paraná e a plataforma de dados sobre localização Waze for Cities conseguiu demostrar que, sem o isolamento social, a redução de mortes no trânsito não foi registrada no passado. Os efeitos esperados estavam, predominantemente, associados à redução da necessidade de se deslocar. E, com isso, a diminiução no número de ocorrências e mortes no trânsito.

Com a avaliação do número de óbitos em 2020, confrontado com a média realizada entre 2017 e 2019, é possível perceber que apenas o mês de abril de 2020 apresentou, de fato, queda brusca no total de óbitos (29%). A partir de agosto, entretanto, os valores de 2020 aproximam-se da média dos anos anteriores, a ponto de, em outubro e novembro, superá-los. O período coincide com a flexibilização das medidas de distanciamento social, e há de ser considerada ainda a possível mudança no modo de transportes de muitos brasileiros que ocorreu com a substituição do ônibus por meios individuais de transporte, como a motocicleta e a bicicleta, o que pode ter contribuído para o valor relativamente alto de mortes, visto que o transporte público é considerado um dos modais mais seguros em todo o mundo. 

À espera da segunda onda

Além disso, a necessidade de ficar em casa trouxe aumento na demanda dos serviços de entrega, o que, visivelmente, ocasionou crescimento no número de ciclistas e motociclistas em circulação, trazendo mais risco a esses usuários.

Por meio das informações da Waze, é possível também comparar os dados de mortalidade com a variação no tráfego desde o início da pandemia. Esse banco de dados utiliza como referência o período de 11 a 25 de fevereiro de 2020, estabelecendo um total de quilômetros percorridos pela maioria dos usuários da plataforma em um dado dia da semana. Esses valores foram então comparados, a partir de 26 de fevereiro, com os índices verificados, diariamente, de forma a calcular a variação de quilômetros viajados. Nota-se uma tendência de redução brusca na circulação em abril de 2020, fazendo com que o total de deslocamento fosse diminuído em cerca de 60%. Passado abril, a mobilidade voltou, gradativamente, ao registrado como ‘normal’.

Ainda analisando os dados até dezembro, percebe-se que, nos últimos três meses do ano, houve aumento no total de mortes registrado se comparado à média dos anos anteriores. A ‘volta à normalidade’ também é verificada na quilometragem percorrida, que, praticamente, voltou ao que era verificado nesses meses. Dessa forma, com base nos dados expostos, é possível apenas indicar impactos mais evidentes da pandemia na redução de mortes no trânsito no mês de abril de 2020. Os possíveis danos na chamada ‘segunda onda’ da pandemia, entre março e abril de 2021, ainda não podem ser avaliados, pois não há dados do Ministério da Saúde para este ano.

Infrações em alta

Por outro lado, também pudemos observar a queda no total das infrações de trânsito no País, por meio do Registro Nacional de Infrações de Trânsito (Renainf). Março e abril de 2020 foram os meses de menor índice; porém, essa redução se manteve até dezembro do mesmo ano. Desde então, os valores vêm aumentado mês a mês, com a retomada das atividades presenciais.

Concluindo: esse cenário causa preocupação, pois, se as infrações vêm crescendo, chegando a patamares próximos aos verificados em 2019, provavelmente, veremos que os dados de 2021 não acompanharão a estabilidade registrada nos últimos seis anos de redução de mortes no trânsito no Brasil. O que será mais uma triste notícia aos brasileiros, impactados pela perda de mais de 610 mil pessoas vitimadas pelo novo coronavírus.

gráfico com mortes no trânsito durante a pandemia

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