Mobilidade para quê?

Mobilidade para elas: como a tecnologia pode ajudar?

“Em um mercado masculino como o da mobilidade, acreditamos no poder da representatividade e da diversidade”

3 minutos, 27 segundos de leitura

08/09/2021

Foto: Getty Images

Acordar de manhã e pensar na roupa que vai vestir, levando em consideração não as atividades do dia, o conforto ou a sensação de se sentir mais bonita e confiante com esse vestido do que com aquela calça.

Em vez disso, pensar que, de manhã cedinho, vai passar a pé por aquela obra no quarteirão de cima. Depois, vai pegar o ônibus cheio até o trabalho. E, quase às 23h, pegar um carro por aplicativo, na volta da faculdade. Melhor deixar o vestido para o fim de semana e optar por aquele jeans e uma camisa cinza lisa. E mais larguinha, para garantir.

O raciocínio pode ser alienígena para os homens que leem este texto. Mas me arrisco a dizer que todas as mulheres fazem esse cálculo mental com certa frequência. Além de lidarem com os receios comuns às cidades brasileiras, como assaltos e furtos, as mulheres têm outro medo muito presente em seu dia a dia: as várias formas de assédio e violência sexuais, que vão desde o detestável ‘fiu-fiu’ até a ameaça constante de estupro, passando por episódios degradantes, como ser vítima sexual dentro do ônibus.

Maiores usuárias de transporte público

Dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de São Paulo revelam que elas são as maiores usuárias dos transportes públicos. A informação encontra eco em estudos internacionais, que apontam que as mulheres também estão em maior número nos transportes públicos na França, nos Estados Unidos, na Argentina e em outros países.

Tornar as cidades um ambiente mais seguro e mais convidativo para as mulheres é um desafio que passa por melhorar as condições da mobilidade para elas. Iniciativas como o Vagão Rosa, nos trens de São Paulo e no Rio de Janeiro, são bem-vindas, enquanto não há educação efetiva para os homens nesse sentido. Também é positiva a prática que algumas cidades já adotaram de instruir os motoristas dos ônibus a pararem fora do ponto à noite para o desembarque de passageiros.

Em Viena, na Áustria, uma pesquisa feita em 1999 revelou que mulheres têm um padrão mais complexo de uso dos transportes. Fazem várias viagens ao dia e, muitas vezes, estão levando carrinho de bebê, acompanhando um familiar idoso, carregando sacolas de compra. Por isso, as necessidades delas foram priorizadas na hora de elaborar os projetos de mobilidade. Algumas ações se realizaram, como alargamento dos passeios, instalação de rampas de acesso e melhorias na iluminação de segurança. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer.

Olhar feminino

Uma das ações mais importantes para isso seria a maior participação feminina na elaboração dos planos de mobilidade urbana. Até o presente, esses documentos têm sido historicamente elaborados por homens. Isso limita bastante a identificação dos problemas e também a proposição de soluções pertinentes e realmente eficientes. É o princípio básico da diversidade: um olhar diferente sobre o mundo é capaz de identificar outros pontos de melhoria e apontar direções inovadoras para o desenvolvimento.

A tecnologia pode oferecer novos caminhos. Mas, para isso, precisa do olhar de quem tem vivência no assunto. Um exemplo é a Nina, startup criada por Simony Cesar, empreendedora de Fortaleza (CE).

A empresa oferece consultorias de mobilidade e gênero e também uma tecnologia que ajuda mulheres a denunciarem casos de assédio no transporte público.

Na VOLL, 52,4% de toda a equipe é formada por mulheres, e que ocupam também cargos de tomada de decisão – como esta que escreve. Em um mercado masculino como o da mobilidade, acreditamos no poder da representatividade e da diversidade. Com o nosso time majoritariamente feminino, nos dedicamos a melhorar a igualdade de gênero no setor e também tornar as cidades mais seguras e acolhedoras para as mulheres. A tecnologia sozinha não vai tornar o mundo um lugar melhor. Mas, dando voz às pessoas certas, ela é uma mão na roda.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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