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Especial Delivery

Mobilidade para quê?

O Brasil não parou. Está andando sobre duas rodas

Entregadores têm ajudado restaurantes, comércios e serviços não essenciais a atender os clientes e minimizar os prejuízos durante a quarentena

Arthur Caldeira

25/06/2020 - 5 minutos, 58 segundos


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Com muitos negócios fechados ao público, os entregadores com suas motos se tornaram imprescindíveis para manter o comércio aberto e atender os clientes. Foto: Marco Ankosqui

De uma hora para outra, a quarentena decretada no Estado de São Paulo, no final de março, obrigou restaurantes, lojas e serviços não essenciais a interromper o atendimento ao público para conter o avanço do novo coronavírus. Com as pessoas em casa e faturamento em queda, os proprietários desses estabelecimentos tiveram de se adaptar ao “novo normal”.

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De portas fechadas, muitos comerciantes viram no delivery uma alternativa para atender os clientes e minimizar os prejuízos. Caso de Gilberto dos Santos Viveiros, gerente de um restaurante na Vila da Saúde, zona sul da capital paulista, que viu nas entregas a domicílio uma forma de manter seu negócio funcionando durante a pandemia.

“O faturamento caiu pela metade. Mas só estamos sobrevivendo por causa das refeições para viagem ou delivery”, revela Gilberto, que teve de afastar os garçons, mas manteve uma equipe de cinco funcionários para preparar os pedidos de entrega, que dobraram no período.

O comerciante teve até de contratar um motoboy extra para cumprir os cerca de 100 pedidos de refeição delivery, às quartas e aos sábados, quando serve sua feijoada, famosa nas redondezas. “Como os pedidos se concentram no horário do almoço, um entregador não estava dando conta do trabalho”, diz.

Aumento da concorrência

Josenildo Jorge Aurino da Silva, 36 anos e motoboy há 15, voltou a trabalhar no restaurante e encontrou uma forma de ganhar uma grana extra nesses dias. “Também trabalho com aplicativos de entrega, que ajudam bastante na renda, mas agora consigo faturar mais no fim do mês. As entregas aumentaram, mas o número de entregadores nas ruas também”, conta Jorge, como é conhecido.

Agora, além de rodar pela manhã e à noite, atendendo aos pedidos do iFood, Jorge ainda entrega cerca de 40 refeições para o restaurante com sua Honda CG 160 Cargo. “Recebo um valor fixo e uma remuneração pelas entregas, que varia de acordo com a quilometragem”, conta o motoboy, que fatura cerca de R$ 4 mil mensais para sustentar a esposa e a filha de 5 anos.

As entregas também aumentaram no açougue que a família de Wagner Macedo tem no bairro da Chácara Inglesa, na zona sul, desde os anos de 1970. “A gente sempre teve delivery. Já tinha uma moto própria e um motoboy fixo, mas a procura por esse tipo de serviço dobrou desde março. Também tive de contratar um entregador extra”, revela o comerciante.

O motoboy Anderson de Jesus Braga, 30 anos, praticamente não para – enquanto a reportagem estava no local, durante uma hora, Anderson saiu quatro vezes com o bauleto da Honda CG 125 Cargo, carregado para fazer entregas.

O profissional trabalha para o açougue durante o dia, até as 18h, mas também tem uma Honda CG 150 para atender aos quatro aplicativos de entrega, nos quais está inscrito, durante a noite. “Fico sempre próximo a shopping centers, em que a demanda é alta.

É uma entrega atrás da outra. Não paro. E, depois da quarentena, cresceu ainda mais”, conta ele. O número de downloads dos aplicativos de entrega aumentou 54% em março, como mostra o levantamento do RankMyAPP, empresa de inteligência de marketing para aplicativos de celular.

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O aplicativo de delivery Rappi, por exemplo, registrou aumento de 30% no número de pedidos entre o final de março e meados de abril, segundo o Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar) revelou ao jornal O Estado de S. Paulo.

Mudança de hábito

A família Matsue, que dirige um tradicional restaurante japonês na Vila Mariana há 11 anos, também teve de se adaptar aos novos tempos. O local ficou fechado até duas semanas atrás, quando fez mudanças no cardápio e passou a entregar “bento box”, espécie de marmita de comida típica, e combinados de sushi e sashimi, conta Priscila Matsue, uma das filhas que dirigem o restaurante.

“Meu filho, que tinha uma moto e também estava sem trabalhar, começou a fazer entregas para nos ajudar e complementar a renda”, conta ela. Com isso, a empresária conseguiu minimizar a queda no faturamento causada pela pandemia.

Priscila acredita que, mesmo quando forem autorizados a reabrir com novos protocolos de atendimento, o delivery deve se manter e até crescer. Pretende profissionalizar o delivery e, quem sabe?, contratar um entregador próprio. “As pessoas não vão se sentir à vontade para vir ao restaurante. Eu mesma não sei se voltarei tão logo a comer fora”, analisa.

Pesquisas de hábitos de consumo confirmam a tendência do crescimento das entregas no setor de alimentação. Segundo a Kantar, empresa global de dados e consultoria, o delivery ganhou força durante o confinamento e passou a fazer parte do dia a dia dos consumidores. Dentre os brasileiros que pediram comida por entrega, 53% o fizeram de duas a três vezes na primeira semana de junho.

Contudo, o hábito de solicitar comida pronta é uma tendência para o futuro, revela a pesquisa: 19% dos que aderiram ao serviço dizem que, mesmo após o novo coronavírus, pedirão mais comida do que antes.

Delivery veio para ficar

O comerciante Gilberto Viveiros (de branco) teve de reforçar o time de entregadores. Foto: Marco Ankosqui

No último trimestre, o Uber Eats, modalidade da Uber que antes entregava apenas refeições, passou a disponibilizar quatro novas categorias: farmácias, lojas de conveniência, pet shops e floriculturas, revela Fabio Plein, diretor-geral do Uber Eats no Brasil.

“Os usuários agora podem fazer pedidos em farmácias da rede Pague Menos, em lojas de conveniência Shell Select e em unidades da Cobasi, uma das maiores redes de pet shop do país”, revela Plein.

Embora as entregas do Uber Eats sejam feitas de moto, de bicicleta ou de carro, no caso de motoristas parceiros que fazem viagens de Uber, a plataforma afirma que a grande maioria dos inscritos usa motocicleta.

Isso ocorre em função de sua agilidade, o que permite que entregadores façam mais corridas e faturem mais, além do baixo consumo de combustível e do preço acessível do veículo, quando comparado aos automóveis.

Segundo a Verizon Media, empresa detentora das marcas Yahoo e AOL, 33% dos brasileiros devem comer em restaurantes com menos frequência em função da pandemia. E 42% dos consumidores devem passar a comprar mais online, não apenas refeições ou alimentos mas produtos em geral. Prova de que as entregas em domicílio vieram para ficar, e devem crescer ainda mais no futuro.

Números do Delivery no Brasil

  • Em março, o número de downloads dos aplicativos de entrega cresceu 54% ;
  • 19% das pessoas que aderiram às entregas dizem que, mesmo após o coronavírus, pedirão mais comida do que antes
  • 33%* dos brasileiros devem comer em restaurantes com menos frequência em função da pandemia
  • 42%* dos consumidores devem passar a comprar mais online, não apenas refeições ou alimentos, mas também outros produtos.

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