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Embaixadores

Davi Miyake

É diretor-geral de operações e produtos da 99, empresa de tecnologia ligada à mobilidade urbana.

Meios de transporte

O retrocesso espreita a mobilidade urbana no País

Financiar o transporte coletivo por meio de cobranças a todos os carros particulares é uma opção que deve estar no centro do debate

07/09/2020 - 3 minutos, 19 segundos


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Foto: Getty Images

A covid-19 trouxe luz a um debate que existe há anos no espaço urbano nacional, mas que era tratado sem a profundidade necessária: a urgência de um ecossistema de transportes multimodal, eficiente e acessível para as cidades.

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As recomendações de distanciamento social para contenção da pandemia provocaram mudanças nos hábitos e no deslocamento da população desde março, com queda de passageiros no transporte público, fechamento de empresas do setor e mais de 9 mil contratos de trabalho suspensos mas que ainda operam, segundo a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP).

O momento exige uma discussão sóbria para onde vamos, com olhar para o futuro, evitando retrocessos já superados nos últimos dez anos. É sabido que não há solução fácil e não há caminho único.

Neste momento de reabertura, as pessoas estão enfrentando a decisão de como se deslocar de forma segura e o pior cenário é fomentar a venda de carros e da cultura das viagens individuais, com apenas o motorista dentro do veículo.

A compra de um automóvel é um investimento que se faz para anos e ao optar por ele, o dono dificilmente retorna ao transporte público, atrasando a recuperação do setor e ampliando mazelas como congestionamento, insegurança viária e piora na saúde mental.

Durante esse período desafiador, o transporte coletivo garantiu o funcionamento de serviços essenciais. Apesar de seu protagonismo, enfrenta sérias ameaças à sua sobrevivência, acelerada pela queda constante no volume de usuários e de receitas, aos custos altos de manutenção e pelo medo do contágio devido à aglomeração.

É fundamental que o debate não seja pautado apenas por mais subsídios, que por sua vez flertam com propostas de aumento de impostos ou mesmo das tarifas.

Diante de tantas incertezas, estimular novas formas de deslocamento é uma opção para fortalecer uma agenda moderna e sustentável. O transporte por aplicativo é uma alternativa real de utilizar o automóvel em conjunto com o transporte coletivo e o ativo no dia a dia, promovendo integrações mais eficientes e menos impactantes.

Ao analisarmos a mais recente Pesquisa Origem–Destino (OD) do Metrô de São Paulo, os usuários de aplicativo tendem a ser mais multimodais e, em média, utilizam sete vezes mais o transporte coletivo que motoristas de carros próprios. Ou seja, eles estão mudando o modo como se deslocam, mas não tendem a abandonar o sistema quando a situação se normalizar.

O transporte por aplicativo não busca competir com o coletivo, e sim possibilitar às pessoas deslocamentos mais eficientes como parte de um amplo ecossistema e gerando fluxo na chamada primeira e última milha.

Tentativas de restrição exclusivas aos aplicativos em detrimento do carro particular produzirão efeitos perversos no hoje e na melhoria da mobilidade no médio e longo prazo.

Financiar o transporte coletivo por meio de cobranças a todos os carros particulares é uma opção que deve estar no centro do debate, sempre acompanhada de uma avaliação cuidadosa para que as medidas sejam adotadas com equidade e evitando penalizar um para socorrer o outro.

Não podemos permitir que a cultura do carro como um bem, uma posse, somado ao esvaziamento do transporte público e às tentativas, no apagar das luzes, de taxar apenas os aplicativos prosperem, sob o risco de retrocedermos os avanços que a mobilidade registrou nos últimos 10 anos no País, mesmo que ainda tímidos, mas essenciais.

Neste contexto sem precedente que enfrentamos, com a união de crises econômica e sanitária, faz-se necessário que a mobilidade seja repensada e amplamente debatida.

Juntos, empresas, governos e sociedade precisam defender um modelo multimodal e integrado para tornarmos nossas cidades menos dependentes de soluções únicas e mais resilientes diante de crises como a que ainda vivemos hoje.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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