Mobilidade para quê?

Procura por gás natural provoca falta de kits em oficinas

Por causa dos aumentos seguidos no preço da gasolina, motoristas buscam o GNV como alternativa

6 minutos, 16 segundos de leitura

20/10/2021

Por: Hairton Ponciano Voz

William Fidalgo, sócio da Carbujato: escassez de cilindros de gás, suportes e até parafusos para a instalação do sistema. Fotos: Marco Ankosqui e Getty Images

A busca por instalação de gás natural (GNV) em automóveis cresceu tanto que já há falta de kits em oficinas. William Fidalgo, sócio da Carbujato, oficina especializada em GNV localizada na Zona Norte de São Paulo, informa que há escassez de cilindros de gás, suportes e até parafusos para a instalação do sistema.

Com 24 anos de experiência no ramo, ele afirma que, sempre que ocorre o reajuste no preço de combustíveis, há aumento na procura por kits de gás. Em um ano, a alta acumulada na gasolina chega a 39,6%, quase quatro vezes a inflação do período (10,25%, de acordo com dados do IPCA). O mais recente reajuste, de 7,2%, foi anunciado pela Petrobras no dia 8 deste mês.

Fidalgo diz que o aumento na demanda começou em março. Atualmente, ele instala em média 15 kits por mês. Em sua oficina, um kit para GNV com tanque de 15 m3 custa R$ 4.300.

Economia de cerca de 50%

O sistema de GNV é composto basicamente de cilindros de gás natural na traseira, válvula de abastecimento, redutor de pressão, bicos injetores, chave comutadora e central eletrônica. Foto: Divulgação Audi

O crescimento na procura, no entanto, não foi acompanhado no mesmo ritmo pelo fornecimento dos insumos que formam o kit de GNV. É o caso dos cilindros que armazenam o gás. Eles são produzidos com os mesmos tubos utilizados para o oxigênio de uso hospitalar, cuja demanda foi muito grande durante o auge da pandemia. Como a prioridade é atender hospitais, o fornecimento ao segmento automotivo foi afetado.

Pelas estimativas da Comgás, a economia no uso do GNV em comparação com os combustíveis líquidos (etanol ou gasolina) pode superar os 50%. Isso se deve a dois fatores: o metro cúbico de gás custa bem menos que o litro de gasolina e etanol, e o rendimento por quilômetro rodado é bem maior com o combustível gasoso.

Confira se vale a pena optar pelo GNV

Muitos postos que oferecem GNV já registram filas para abastecimento. Foto: Marco Ankosqui

Segundo a Comgás, um veículo que faz 8 km/l de gasolina pode alcançar 11,2 km/m3 de GNV. Para esse exemplo, o custo por quilômetro rodado seria de R$ 0,76 com gasolina e R$ 0,37 com gás veicular. Isso considerando a pesquisa da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que apurou o preço médio no Brasil de R$ 4,13 o m3 do GNV, contra R$ 4,77 o litro do etanol e R$ 6,11 o da gasolina comum. Antes da opção pela instalação, no entanto, é preciso considerar alguns fatores, como perda de espaço no porta-malas (onde vão os reservatórios), quilometragem percorrida, redução de potência e manutenção.

O empresário Evandro Fernandes, proprietário da KGM – empresa que desde 2000 comercializa kits para GNV –, afirma que, em um ano, suas vendas dobraram. Em comparação à média mensal de 400 a 500 conjuntos, que entregava às oficinas de todo o País no ano passado, ele diz que atualmente o volume subiu para entre 900 e 1 mil kits. “Estou quase tendo de negar novos pedidos”, afirma, referindo-se à dificuldade de atender à demanda. Assim como William Fidalgo, da oficina Carbujato, ele relaciona o aumento da procura à alta no preço dos combustíveis. “Sempre que tem aumento, vem um pico de procura”, diz. E complementa: “Se a pessoa está indecisa (em instalar o kit), com a subida do preço ela acaba tomando a decisão”.

O gerente de GNV da Comgás, Guilherme Santana, afirma que a venda para os postos de abastecimento cresceu entre 20 e 30% e diz que a previsão é de elevação. “Como as instalações estão aumentando muito nas oficinas, o consumo de gás vai crescer”, constata.

Ele chama a atenção para o fato de que em muitos postos há até fila nas bombas de GNV. Mas também alerta que o gás não é vantajoso somente quando ocorre o aumento do preço da gasolina. “Olhando o histórico de preços, nos últimos dez anos o GNV sempre foi mais barato que o etanol e a gasolina. Hoje ele representa 55, 60% de economia no custo do quilômetro rodado. No pior cenário, a economia é de 40, 45% e, na média dos últimos dez anos, é de 50%”, garante.

Na ponta do lápis

O retorno do investimento depende da quilometragem rodado e pode ocorrer em cinco meses para quem anda 3 mil km/mês

O tempo de retorno do valor gasto na instalação de GNV vai depender da quilometragem rodada. De acordo com o gerente da Comgás, Guilherme Santana, para quem roda cerca de 3 mil quilômetros por mês, o custo de instalação (estimado entre R$ 4 mil e R$ 5 mil) “se paga” em quatro ou cinco meses. “A partir do quinto mês, é lucro”, diz. Por isso, motoristas de táxis e de carros por aplicativo formam a maior parte do público que opta pelo combustível.

Para quem roda menos, o prazo de retorno do investimento aumenta. A tabela abaixo faz uma simulação para o motorista que rode 1.000 km/mês e cujo automóvel faça a média de 9 km/l com gasolina. Nesse caso, com GNV a média subiria para 12,6 km/l. Assim, segundo a previsão da Comgás, o preço da instalação (estimado em R$ 4.300) seria “pago” em 12,22 meses.

Porta-malas perde espaço

Atualmente, o Fiat Grand Siena 1.4 é o único veículo que vem de fábrica com preparação para receber o kit de GNV. A garantia é preservada desde que a instalação seja feita por oficina credenciada. Foto: Divulgação Fiat

Como os tanques de gás são instalados no porta-malas, há redução na área destinada a bagagens. Assim, quanto maior o bagageiro, menor a perda. Em veículos menores, normalmente são instalados dois tanques de 7,5 m3, acomodados um sobre o outro, para economizar espaço. Há também a opção de tanque de 15 m3.

De acordo com William Fidalgo, da Carbujato, o kit de quinta geração, utilizado atualmente, serve para a maioria dos automóveis. As exceções são veículos híbridos, com injeção direta e para alguns modelos turbinados. Segundo ele, a perda de potência quando o motor funciona a gás é estimada em cerca de 5%.

O kit de quinta geração oferece a possibilidade de comutação automática entre gás e combustível líquido (gasolina ou etanol), em subidas mais íngremes, por exemplo, para compensar a deficiência. Além disso, a partida sempre é feita com gasolina ou etanol, antes do início da operação com GNV. Por isso, recomenda-se que o tanque sempre tenha pelo menos ¼ de sua capacidade.

A instalação também não deve ser feita em automóveis que estejam na garantia de fábrica, sob pena de perda da cobertura dada pela montadora. Atualmente, apenas a Fiat oferece no Brasil um modelo preparado de fábrica para receber GNV. O Grand Siena 1.4 Flex recebeu alterações no cabeçote e no coletor de admissão. A “predisposição” custa R$ 1.023 e não inclui o kit, que deve ser instalado em uma empresa credenciada. A vantagem é que, nesse caso, não há a perda de garantia de fábrica. O Grand Siena 1.4 custa R$ 73.666.

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