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“Temos de tirar de circulação os veículos velhos”

Renovação da frota e motores elétricos são prioritários para Roberto Cortes, CEO da Volkswagen Caminhões e Ônibus Cortes. O executivo afirma que o País é um dos maiores mercados de pesados do mundo e que é o PIB que vende caminhões e ônibus

9 minutos, 47 segundos de leitura

15/01/2022

Por: Tião Oliveira

roberto cortes
“Em meio à pandemia, lançamos o caminhão e-Delivery, primeiro veículo 100% elétrico desenvolvido no País e produzido em larga escala na América do Sul.”. Foto: Divulgação: VWCO

Roberto Cortes é o mais longevo profissional do setor de caminhões do Brasil. Seu envolvimento com o mundo sobre rodas começou na Engesa, extinta empresa do setor de veículos militares.

Foi para a Ford, depois para a Autolatina (holding que uniu a marca americana à Volkswagen) e participou do projeto que deu origem à Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO), em 1981. A empresa foi comprada pela MAN em 2009 e, em 2018, passou a fazer parte do Grupo Traton, que também é dono da Scania e adquiriu, por R$ 3,7 bilhões, o controle da americana Navistar em 2021.

O executivo paulistano, que tocou o sino da Bolsa de Valores de Frankfurt, na Alemanha, no dia da abertura de capital do grupo, falou com o Estadão ao longo de uma hora, por chamada de vídeo.

Como foi o desempenho da VWCO ao longo de 2021?

Roberto Cortes: É difícil caracterizar o ano de 2021. Foi um ano cheio de desafios, porém também de conquistas e, para a Volkswagen Caminhões e Ônibus, de celebrações.

Sofremos com a pandemia, nos preocupamos com a saúde dos funcionários e as consequências na economia. Também tivemos grandes dificuldades na obtenção de peças para produção de caminhão e ônibus, principalmente semicondutores. As cadeias logísticas foram muito afetadas.

Chegamos a produzir caminhões incompletos, que tinham de ser finalizados depois. Mas também foi um ano de esperança. Vimos os resultados da vacinação, que nos deixam entusiasmados. Além disso, celebramos importantes marcos históricos, como os 40 anos de operação da marca no Brasil.

A Volkswagen Caminhões e Ônibus nasceu no Brasil e tem coração verde e amarelo. Comemoramos os 25 anos da fábrica em Resende (RJ), no sul fluminense, também com muito orgulho no coração brasileiro.

Além disso, superamos o número de 1 milhão de veículos feitos pela VWCO. E, em meio à pandemia, lançamos o caminhão e-Delivery, primeiro veículo 100% elétrico desenvolvido no País e produzido em larga escala na América do Sul, e uma linha de extra pesados. Admitimos quase mil pessoas desde o início da pandemia, e atingimos o maior número de colaboradores na nossa história. Então, eu diria que estarmos totalmente preparados para 2022.
 
O Sr. acaba de confirmar a continuidade dos investimentos de R$ 2 bilhões previstos para o Brasil até 2025. Como faz para convencer a matriz a investir no Brasil?

Cortes: Em primeiro lugar, o valor mais importante é que o mercado brasileiro de caminhões e ônibus é estratégico para a holding. Isso porque é muito grande. Está entre os “top 10” do mundo por causa da dependência do transporte rodoviário no País.

Quase 60% de todas as mercadorias que circulam aqui são transportadas por caminhão. No caso dos ônibus, o mercado é maior ainda, está entre os “top 3”. Seja como for, a Volkswagen toma decisões de investimentos e contratações, por exemplo, pensando no longo prazo.

Um ciclo de, digamos cinco a dez anos, é atrativo para o grupo. Além disso, os investimentos feitos pela empresa têm de ser financiados por meio dos resultados da operação local e no exterior. Então, a solidez da operação brasileira é o principal motivo para o grupo apoiar nossas decisões.

O mercado de ônibus vem patinando. Em que momento as vendas vão crescer?

Cortes: A queda do movimento foi causada pela redução do número de passageiros. O lockdown e o home office obviamente atingiram tanto o setor urbano quanto o rodoviário.

No caso do fretamento, por causa do distanciamento social, houve uma demanda maior. Porém, no geral, o mercado encolheu. De todo modo, as pessoas estão voltando a circular, viajando mais.

Então, a gente espera que 2022 seja de recuperação também no setor de ônibus. O momento é propício para que as cidades retomem os planos de melhorar o transporte público.

Outro fator importante é que os preços das passagens aéreas dispararam, o que deve garantir aumento nas viagens de ônibus rodoviários. Inclusive, no caso do turismo, que está voltando a atrair mais consumidores. Além disso, há o Caminho da Escola, que é um programa do governo que vai contribuir para aumentar as vendas do setor em 2022.

O sr. tomou alguma decisão que, se pudesse, mudaria?

Cortes: Quando você está no comando de uma empresa como a Volkswagen Caminhões e Ônibus só toma decisões após haver profundos estudos e tensos debates com os times. Por exemplo, antes de parar a produção por causa da covid, ouvimos a comunidade médica e científica.

Então, não dá para sair se sentindo como o dono da verdade. É preciso saber ouvir. Eu tenho uma experiência de mais de 20 crises vividas. Teve a do capital externo, da China, da Argentina… Esta é uma crise econômica, financeira e de saúde pública. De todo modo, creio que tomamos decisões assertivas.

Houve alguma vez em que o sr. chegou a não conseguir dormir antes ou depois de tomar uma decisão importante?

Cortes: Eu não costumo perder o sono por questões profissionais. A experiência em crises me fez aprender muito. Sempre consegui dar a volta por cima e cheguei aos 40 anos de carreira firme e forte. Eu não conseguiria enfrentar tantos desafios senão dormisse muito bem.

O e-Delivery, primeiro veículo elétrico feito em grande escala na América Latina, foi desenvolvido e é produzido no Brasil. Como surgiu o projeto?

Cortes: Esse produto foi conceitualmente definido em 2013, quando começamos a desenvolver o projeto do novo Delivery, que foi lançado em 2017. Então, nós já contemplávamos uma versão elétrica por acreditar principalmente na aplicação urbana.

Naquela época, pouco se falava sobre veículos eletrificados e redução de emissões. O desenvolvimento prático começou em 2018 e o lançamento ocorreu agora. Saímos na frente e lideramos o processo de transformar a mobilidade. Somos reconhecidos por sermos inovadores e isso inclui o desenvolvimento local, que é outra fortaleza que a gente tem.

O projeto foi desenvolvido aqui, com nossos cerca de 600 engenheiros, bem como os fornecedores locais que também é outro fator importante. Queremos desenvolver a base de fornecedores no Brasil para que haja produção em escala e a gente não fique dependente das importações. E vamos continuar trabalhando para oferecer mais soluções para esse tipo de aplicação.

O e-Delivery também foi reconhecido pela imprensa especializada. Por exemplo, ganhou o prêmio de Caminhão do Estradão…

Cortes: Não tenha dúvida. O prêmio do Estadão nos enche de orgulho, assim como o do UOL e tantos outros. Porém, sozinhos nós não faríamos nada. Temos um modelo de consórcio modular de produção, em que os fornecedores participam da produção do caminhão junto com a gente.

Parceiros como Siemens, Moura e outros, trabalham no desenvolvimento do caminhão desde o início. Assim como no serviço de pós-venda, instalação de carregadores e até no processo de destinação das baterias no futuro.

Estamos criando um ecossistema que deu segurança para que empresas como Ambev, JBS e Coca Cola comprassem nosso caminhão. Ou seja, além do produto, oferecemos uma ampla gama de serviços.

“A solidez das operações no País é a maior razão para que o Grupo Traton continue apoiando nossas decisões.” Foto: Divulgação: VWCO

O que o governo deve fazer para fomentar a indústria e a economia em geral?

Cortes: Antes de falar sobre as necessidades do setor, o que eu, como brasileiro, espero do governo, independentemente de qual seja, é a implementação das tão necessárias reformas estruturais, a manutenção das instituições e o fortalecimento dos poderes. Isso deve criar estabilidade e um melhor ambiente econômico e social. Assim, todos os setores vão se beneficiar.

Costumo dizer que o que vende caminhões e ônibus é o PIB do Brasil. Ou seja, é uma consequência do aumento da riqueza. Então, espero que o governo crie ações que incrementem negócios e um ambiente econômico propício para o crescimento. Além disso, eu falo sobre a necessidade de uma renovação há mais de 15 anos. Ou seja, desde a transição das leis brasileiras do Euro 2 para o Euro 3. Estamos no Euro 5 e mudando para o Euro 6.

Precisamos tirar os caminhões antigos de circulação. Eles emitem mais poluentes, ameaçam a segurança e contribuem para aumentar o chamado custo Brasil. No nosso país, 60% das mercadorias são transportadas por caminhões velhos, que, obviamente, quebram muito, são menos eficientes e geram fretes mais baixos.

Com a troca por caminhões e ônibus novos, haverá ganho não só para o meio ambiente, mas também para a segurança e o setor de logística.

Se o sr. pudesse mandar uma mensagem para o Cortes que estava começando na carreira, há 40 anos, qual seria?

Cortes: Um jogador sozinho não ganha a partida. Eu, como bom corinthiano, sempre tenho 11 bons jogadores no time. Seja como for, aprendi que há três fórmulas básicas para você ter sucesso na vida profissional. A primeira é que o mundo muda a cada dia. Então, é preciso acompanhar a evolução.

Se você deixa de estudar e se atualizar, vai perder a evolução natural das coisas em todos os setores, inclusive naquele em que você atua. O segundo é algo que tem de vir de dentro. É preciso gostar do que faz. Além disso, é preciso se forçar a fazer mais e melhor a cada dia. A terceira é nunca desistir.

Mesmo que você enfrente crises e decepções, precisa perseverar. Há uma última, que eu criei agora: a resposta é o trabalho, não adianta reclamar. Deve responder fazendo mais do que esperam de você. Com base na minha carreira de 40 anos, digo que isso não é tão difícil.

Seu nome é Antônio Roberto Cortez, mas o sr. ficou conhecido apenas como Roberto Cortez. Havia outros Antônio na sala de aula, é isso? (risos)

Cortes: Eu sempre fui chamado de Roberto, Beto, em casa, pela minha família. O nome do meu pai era Antônio. Então, creio que era para diferenciar o Antônio pai do Antônio filho. Assim, ficou Roberto e seguiu na escola, no grupo de amigos e na vida profissional. Para facilitar, eu uso muito o Roberto Cortes. Mas tenho muita honra de ter o nome do meu pai.

Fique à vontade para deixar o seu recado

Cortes: Mesmo enfrentando dificuldades, nossa empresa sempre vê o copo meio cheio. O Brasil é um centro de desenvolvimento e produção comparável com qualquer outro do mundo. Temos uma marca de prestígio, uma das líderes no mercado mundial de caminhões e ônibus, que está se internacionalizando. Estamos em mais de 30 países e vamos continuar crescendo graças à robustez de nossos produtos.

A gente vê esses 40 anos de história como um começo. É o início de uma jornada que será repleta de êxitos, como os que a gente vem atingindo agora. Obrigado pela oportunidade de poder falar um pouco da empresa e de mim, como responsável pela operação.

Todos da empresa temos motivos de sobra para nos orgulhar do trabalho que vem sendo feito. Divido esse sucesso com todo o nosso time, o que inclui fornecedores, colaboradores e revendedores.

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