Na Perifa

Coluna Gerando Falcões: ‘Cada um de nós pode ser um herói’

O voluntário não é um ser iluminado, superior, mas aquele que insiste em agir mesmo sabendo das próprias limitações

4 minutos, 15 segundos de leitura

15/12/2021

Por: Ana Paula Leite Cordeiro, diretora de Gente & Gestão da Gerando Falcões

No último dia 5 de dezembro, comemoramos o Dia Internacional do Voluntário. A data foi criada em 1985 pela Organização das Nações Unidas (ONU), com o objetivo de valorizar aqueles que doam o próprio tempo em prol do bem-estar coletivo — seja em igreja, hospital, associação de bairro, sindicato ou ONG — e convidar os que ainda não praticam esse tipo de trabalho a conhecer a satisfação imensa que ele traz a nossas vidas.

Já escrevi neste espaço que o voluntariado é a empatia posta em prática, e sigo concordando com essa definição. O desejo de trabalhar em benefício de quem precisa é algo que vem da parte mais elevada do ser humano — aquela que entende que dividimos um único planeta, que estamos todos conectados e que, se alguém está sofrendo, todos estão em desvantagem a nível coletivo.

Quem pratica o voluntariado entende que somos todos um e que isso tem implicações sérias. Ao mesmo tempo, acredito ser importante trabalhar com definições mais complexas e realistas com relação a essa prática. Os ideais são o ponto de partida de todo voluntário, mas uma discussão centrada neles tende a alienar as pessoas por ser abstrata demais, potencialmente moralista — como se praticar o bem fosse o privilégio de uma casta iluminada, superior, livre de vícios e defeitos — e não representa a natureza real do trabalho voluntário: o quanto ele é árduo, o quanto está na contramão de todo o resto.

O voluntariado existe a partir da percepção de que o Estado é insuficiente e de que, se nós não fizermos, ninguém vai fazer. A pessoa que se propõe a praticá-lo deve ter noção da própria impotência — deve saber que, por mais que ela se esforce ao longo de anos para mitigar um problema social, ele só vai desaparecer por completo quando houver um esforço estrutural voltado a esse propósito.

Quando falamos de estrutura, estamos falando da política e dos políticos. Se vivêssemos numa sociedade ideal, o voluntário não precisaria existir. Muitas vezes, a situação do país é tão dura que o nosso esforço é desviado das pautas propositivas e direcionado à tentativa de mitigar os danos causados pelo próprio Estado, por meio de políticas públicas desastrosas e destrutivas. Nunca temos a certeza de que vamos chegar ao final do ano melhor do que começamos.

A grandeza do trabalho voluntário está na insistência em agir mesmo sabendo dessas limitações. “Tudo bem”, ele pensa, teimoso, ‘mas eu vou fazer mesmo assim’

Uma ideia que ajuda a explicar isso muito bem é a definição original de herói. Na mitologia grega, o herói — aquela figura encarregada de derrotar monstros e vencer guerras — não é um ser elevado, extraordinário, mas um sujeito comum que faz o que ninguém mais quer fazer (um dos trabalhos de Hércules, vale lembrar, foi lavar um estábulo imundo).

Às vezes, acho um milagre que um país desigual como o Brasil, onde as coisas nunca estão fáceis para ninguém, tenha 7,2 milhões de voluntários, o equivalente a 15% da população adulta (o dado é do IBGE, de 2018). Outras vezes, sou lembrada de que isso ainda é pouco em comparação com o restante do mundo: estamos em 68º lugar no ranking mundial de voluntariado, elaborado pela organização World Charities Aid.

O país com a maior proporção de voluntários é a Indonésia, onde 60% dos adultos doam seu tempo de forma regular. Penso que o salto cognitivo que precisamos dar para consolidar uma cultura maior de voluntariado — e, consequentemente, de generosidade e de combate ao cinismo — passa por entender que cada um de nós pode ser um herói. Basta fazer.

Um convite da Gerando Falcões — Quero aproveitar a reflexão para fazer um convite que me traz muito orgulho. Até janeiro do ano que vem, a Gerando Falcões está em busca de 3 mil voluntários para atuar como mentores nas nossas atividades. Aceitamos pessoas de todas as áreas, contanto que tenham ensino superior completo, experiência profissional e disponibilidade.

O trabalho consiste em orientar os alunos da Falcons University — nossa universidade de líderes sociais, da favela para a favela — e do Programa de Formação de Jovens no encaminhamento profissional. A ideia é que os voluntários orientem os alunos desde a preparação do currículo e atualização de redes sociais voltadas à profissão, como o LinkedIn, até estruturar a trilha de carreira para que eles consigam entrar o quanto antes no mercado de trabalho. Para isso, os futuros mentores também vão passar por um treinamento antes de iniciarem os atendimentos aos estudantes. O programa é 100% online, de modo que profissionais de todo o Brasil podem se inscrever e participar do nosso treinamento prévio.

As informações estão disponíveis em detalhe no site da Gerando Falcões, por onde é possível se inscrever

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