Na Perifa

Conheça Lupita Amorim, travesti, preta e periférica de MT

Estudante, pesquisadora e artista fala de racismo e de sua atuação na pandemia de covid-19

5 minutos, 45 segundos de leitura

11/11/2021

Por: Vanessa Ramos

Lupita Amorim. Foto: divulgação/Murilo Lorenzoni

No estado do Mato Grosso, Várzea Grande só perde para Cuiabá: é a cidade mais populosa. São 252 mil habitantes. Da Vila Pirineu, um dos 126 bairros do município, Lupita Amorim, de 23 anos, se conectou ao mundo. Lupita se afirma “travesti preta, pobre e periférica”, mas essas características não bastam. Ela vai além dessas definições.

Graduanda em Ciências Sociais, coordenadora do Coletivo Negro Universitário e bolsista na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), atriz, modelo, dançarina e poetisa, Lupita traz em seu nome uma homenagem à queniana-mexicana Lupita Nyong’o, atriz em filmes como Doze Anos de Escravidão e Pantera Negra.

Em entrevista ao Expresso na Perifa, a artista conta que, além de manter e ampliar seus trabalhos culturais, sonha em ser pesquisadora. No último semestre da graduação, a poucos passos de se formar, ela pretende reverter o aprendizado em benefício da comunidade onde mora, assim como expandir seu conhecimento e trabalho no Brasil e no mundo.

Parte disso já se concretiza na publicação de poesias, contos, prefácios, artigos científicos, o lançamento de três e-books e a participação em livros no Brasil e em Portugal.

Entre premiações e homenagens já recebidas por Lupita Amorim, está o reconhecimento obtido em 2021 na Câmara Municipal de Cuiabá. A distinção foi feita em comemoração ao Dia Internacional da Mulher e está amparada nas ações sociais de Lupita junto à sociedade cuiabana. Recentemente, a Fundação Tide Setubal também a definiu como uma das principais lideranças negras no país

Solidariedade no olhar de dentro

O Coletivo Negro Universitário da UFMT integra a Coalização Negra por Direitos, uma articulação que reúne 250 organizações e durante a pandemia ajudou a promover a campanha Tem Gente com Fome que, nascida em março de 2021, cobra o governo brasileiro por ações contra a miséria e realiza atividades de combate à fome. Até o momento, a iniciativa arrecadou R$ 21,4 milhões.

A distribuição de alimentos e cestas básicas alcançou algumas localidades em Mato Grosso, chegando até onde Lupita mora. “É um bairro em que existem pessoas em situação de vulnerabilidade e com as quais eu convivo. Elas olham e agradecem, reconhecem que alguém está ajudando a fazer isso acontecer”, ressalta.

Para Lupita, existe um aspecto diferenciado na ação solidária realizada por moradores das comunidades envolvidas. Quem vem de fora do território muitas vezes não enxerga os habitantes como gente cheia de vontade e expectativas e têm, segundo Lupita, uma percepção distante e limitada.

“Em sua maioria, são brancas de classe média. O problema não é serem assim, mas a maneira como nos olham. Um olhar de ‘tadinho, nossa, é muito difícil’. Quando é a gente que entrega, não rola essa questão hierárquica e as pessoas não se sentem tão mal de estar recebendo essa ajuda”, diz. “Só veem a parte que somos pobres. E não somos só pobres precisando de alimentos. É como se fizessem uma boa ação tentando se livrar de uma culpa”, completa.

Pertencimento

A relação de solidariedade e pertencimento foi fundamental para que Lupita assumisse também a defesa da manutenção da Escola Estadual Miguel Baracat, que fica na Vila Pirineu, onde ela mora.

Ao lado de outras pessoas, denunciou e promoveu um abaixo-assinado contra a tentativa de fechamento pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc) — o órgão agiu por meio de um decreto sem negociação ou diálogo com os moradores. “Gerações da minha família estudaram ali. A escola abarca estudantes do Pirineu e outros bairros ao redor. Foi pela atuação de professores, ex-alunos e tantos outros apoiadores que conseguimos que a escola continuasse no mesmo lugar.”

Papel social

Lupita acredita que o universo acadêmico não a afasta de suas raízes, ao contrário, a empodera para ampliar sua percepção. Como pesquisadora e moradora de um bairro periférico, ela observa que a desinformação chega com força nos bairros mais pobres. “É muito mais fácil chegar fake news na periferia do que informações corretas e sem teor preconceituoso”, sinaliza.

Para o futuro, diz sobre o papel que pretende desempenhar a partir da universidade para combater preconceitos e desigualdades: “Temos que simplificar a linguagem na universidade e trazer para os bairros. Esse tem sido o meu trabalho ao lado de outras pessoas. Temos que fazer um trabalho de valorização dos nossos conhecimentos, das nossas potencialidades. É olhar para essas pessoas não com o olhar que os outros olham para a gente”, reforça.

Estado brasileiro

Representante da população LGBTQIA+ no Conselho de Política de Ações Afirmativas e extensionista do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação (Nepre), ambos na UFMT, Lupita afirma que a ausência de investimentos do governo federal intensifica o racismo. “A ciência passa por vários cortes para além da educação. Estamos diante de um governo de repressões, muito cruel no sentido de contribuir na acentuação das desigualdades sociais e raciais que já vivemos. Para além do governo, seus apoiadores se sentem confortáveis em reproduzir preconceitos”, critica.

Frente à atual conjuntura política e econômica, ela responde, como ativista, que têm apostado no caminho de formar redes e pontes. “A onda de repressão e de fascismo tem crescido contra nós, mas também estamos organizadas há muito tempo enquanto comunidade negra e LGBT. Me apego a isso.”

Mudar o foco

Incomoda Lupita o fato de, no imaginário social, a denominação “travesti” estar sempre relacionada a um aspecto negativo. De acordo com ela, basta dar uma pesquisada para encontrar notícias sobre violência, mortes, criminalidade e marginalidade.

Depois de contar histórias sobre o racismo sofrido e preconceitos relacionados ao mercado de trabalho e outros ambientes, ela avalia que uma ressignificação de pensamento se faz ainda necessária e reforça que seu lugar é “onde escolher estar”. “Hoje sou bem mais respeitada no meu bairro por conta da minha atuação, sobretudo por pessoas que, quando tinha 14 anos, já foram bastante preconceituosas comigo”, lembra. E fala sobre seu papel de cientista social. “Quero produzir conhecimento dentro da universidade e que o reconhecimento disso seja ampliado para que outras pessoas possam ver isso como possibilidade, se assim desejarem”, afirma. “Quero deixar minha história de resistência como legado a futuras gerações e que isso permita às pessoas também construir afeto entre si”, conclui Lupita.


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