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Criola: uma ‘artivista’ visual

Muralista e grafiteira mineira pintou o mural da escritora Carolina Maria de Jesus em São Paulo

2 minutos, 52 segundos de leitura

10/11/2021

Por: Riviane Lucena, Embarque no Direito

Ao usar a arte como instrumento de expressão política e social, Criola quer “modificar padrões inconscientes e doentios da sociedade”. Foto: divulgação

A muralista e grafiteira Criola, de Belo Horizonte, pintou um painel impressionante da escritora Carolina Maria de Jesus. A Ancestral do Futuro ocupa 47 metros quadrados da fachada de um prédio na Rua da Consolação, em São Paulo, e faz parte da mostra em homenagem à escritora em cartaz no Instituto Moreira Sales. Criola já expôs em muitas outras paradas. Além da capital mineira e outros endereços paulistanos, assinou trabalhos na França e na Bielorrússia.

Com graduação em Moda, a muralista usa texturas e padrões visuais que partem das subjetividades da mulher preta, além de grafismos de matrizes afro-brasileiras  — ela representa, em suas obras, personagens com geometrias sagradas e em cores vibrantes na tentativa de traduzir suas vivências enquanto artista afrodiaspórica e engajada no repertório histórico, político e cultural na negritude.

Criola pinta nas ruas desde 2012 e diz que através de simbologias ancestrais contemporâneas tenta unir passado e futuro em uma única perspectiva. “Não existe futuro para quem não sabe de onde veio”, afirma a artista. “Acredito na importância de um entendimento coletivo da história da sociedade brasileira, que foi sustentada em um genocídio dos povos de sabedorias ancestrais.”

Para um futuro saudável enquanto país, diz Criola, é importante que o Brasil cure as feridas do passado, como a própria escravização. Um modo de fazer isso é honrando e dando o devido valor à ancestralidade e a colocando no lugar de direito. “Na minha arte, a todo momento busco resgatar esse passado para, a partir daí, imaginar e criar uma nova realidade na cidade, na minha vida e no coletivo”, emenda.

Uma das suas obras mais famosas é Híbrida Astral Guardiã Brasileira, que tem 1.365 metros — a altura de um prédio de 14 andares. A pintura foi criada na fachada do edifício Chiquito Lopes, no Cura, em Belo Horizonte, a partir de uma pesquisa feita por ela sobre “um novo mundo possível”. “Híbrida acessa esse lugar e fala sobre honrarmos nossa ancestralidade para que possamos plasmar uma nova realidade na matéria onde não nos coloquemos mais como superiores diante dos outros animais e plantas”, diz.

Consciência de tempo e espaço

Criola conta que tem pensado muito na pressa e no tempo. Diante da pandemia, a artivista acredita que a intuição pede uma desaceleração para enxergar a realidade como ela é e não seguir sem saber o porquê e nem pra onde. “O artista precisa refletir sobre o seu tempo. E tenho sentido que essa correria, esse medo e esse cansaço estão nos enlouquecendo. E como são vivências individuais e coletivas, muitas vezes não temos consciência do quão doentes estamos ficando e não paramos para questionar se esse caminho faz sentido”, completa.

Os planos de Criola vão além da consciência de tempo e de estar. Ela quer dominar o mundo com a arte e abrir novos caminhos humanos de interações mais saudáveis. Mas para conseguir isso ela lembra sabe que tem de “desacelerar, cortar excessos de informação e passar menos tempo conectada nas redes sociais. É importante nesse momento coletivo que estamos vivendo juntes”.


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