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Na Perifa

‘Doamos muito de nossas histórias para Torto Arado’, diz roteirista

Entrevistamos Maria Shu, da equipe que adapta o romance ‘Torto Arado’ para o streaming

11 minutos, 4 segundos de leitura

02/06/2022

Por: Livia Lima, Nós, Mulheres da Periferia

Maria Shu faz parte da equipe de roteiristas de 'Torto Arado'; livro de Itamar Vieira Junior vai virar série da HBO Max. Foto: Christiane Forcinito/Divulgação

No ano passado escrevi sobre como a leitura de Torto Arado me afetou e me fez reconhecer a minha herança quilombola. Recentemente, foi anunciada a produção de uma série baseada no livro de Itamar Vieira Junior, vencedor do Prêmio Jabuti.

Com direção de Heitor Dhalia (O Cheiro do Ralo, entre outros), a série é exclusiva do canal de streaming HBO Max. Para a escrita do roteiro, o diretor – que adquiriu os direitos do livro – convidou a roteirista Luh Maza. Ela coordena uma equipe formada exclusivamente por mulheres negras que adaptar para o audiovisual as histórias das irmãs Belonísia e Bibiana.

Uma delas é a dramaturga e roteirista Maria Shu, moradora do Jaraguá, região noroeste de São Paulo — que o Expresso na Perifa, em parceria com o Nós, Mulheres da Periferia, entrevista nesta reportagem. As outras são, além da própria Luh Maza, Renata Di Carmo, Viviane Ferreira e Ceci Alves. Ao todo são três temporadas, que devem ser concluídas no fim deste ano. As gravações estão previstas para 2023.

Como foi essa transição da dramaturgia para o audiovisual?
Maria Shu — A minha primeira transição na verdade foi antes do teatro. Eu lecionei uns treze, quatorze anos em escolas públicas. Comecei na região de Santana de Parnaíba, e depois vim pra São Paulo, em escola pública fundamental, pro EJA [Educação de Jovens e Adultos]. Aí eu comecei a estudar teatro e caí na dramaturgia, que é uma coisa que eu sempre gostei. Foi na época que eu conheci a Jéssica. Eu estava estudando, a gente pegava o mesmo trem.

Já tinha quase dez anos escrevendo para teatro quando as pessoas começaram a me perguntar se escrevia também para audiovisual. Acho que uma das primeiras pessoas que sinalizaram que me que me abordou sobre isso foi a Renata Martins. Eu fui absolutamente sincera e eu falei: “não, eu não sei nem as ferramentas para escrever”. E aí de tanto me perguntarem eu fiquei um pouco curiosa com esse universo. Eu fui estudar roteiro audiovisual e me apaixonei. Mas eu vejo bem a diferença de linguagem. Uma peça de teatro é falar uma língua e escrever roteiro de audiovisual é outra língua, outro idioma.

Quantos trabalhos na área audiovisual você já fez?
Já fiz três séries para Netflix (Irmandade; Bom dia, Verônica), uma para Globoplay, duas para Amazon (Sentença), o especial Mães do Brasil da TV Globo, um especial infantil que pode ir para a Discovery Kids, tem inéditos que ainda não posso divulgar. Já tem bastante coisa, né?!

Como surgiu o convite para participar de ‘Torto Arado’?
O Heitor Dhalia, que é o diretor, leu o livro, ficou fascinado e procurou os direitos para transformá-lo em série. Foi uma batalha meio pessoal dele, de gostar do livro e ir atrás, porque ele também é sócio da produtora, a Paranoid. Ele foi atrás do Itamar (autor do livro) para licenciar. E aí começou a procurar as plataformas. Pelo formato que queria fazer, achou que caberia mais pra HBO, negociou e deu certo.

Ele chamou a Luh Maza, que é a nossa chefe de sala, para montar essa equipe. A primeira ideia era que fosse uma série escrita por mulheres negras, porque o protagonismo do livro é de mulheres negras, o universo é de pessoas negras. A gente também mostrou material de escritas de séries anteriores para a HBO aprovar os nossos nomes. Depois de aprovado, a gente começou a trabalhar em setembro de 2021.

Em que fase da produção está a série?
Assim como o livro é dividido em três partes, a gente vai fazer três temporadas, são dezoito episódios. Não sei como é que a HBO ainda vai lançar, mas a primeira tem seis episódios, a segunda com seis e a terceira também com seis episódios. Cada uma representando uma parte do livro.

Então a gente foi escrever a ‘bíblia’, dividir qual parte do livro exatamente seria a primeira, segunda, terceira temporada. Primeiro fazendo esses ajustes, vendo a necessidade de criação de outros personagens. Porque a literatura às vezes dá conta de uma coisa que o audiovisual não dá, né? A descrição desses personagens, o tom da série. Enfim, todo esse material a gente fez em setembro.

Essa fase de escrita para gente encerrar todos esses episódios tem muitas revisões, são várias versões internas, o canal aprova e a gente vai fazendo e ajustando. Então a gente tem até mais ou menos novembro pra escrever e revisar, entregar todo esse material e aí a série começa a ser gravada em 2023.

Como foi a leitura do livro para você? Como ele te afetou, impactou?
Torto Arado tem o protagonismo de duas mulheres negras, das profundezas do Brasil, e emociona tanta gente. É essa inspiração que eu quero trazer, o protagonismo de mulheres negras também pra série.
Eu queria falar da Belonísia, que é a minha personagem preferida. Porque ela passa por esse processo doloroso, por essa violência que resultou na mutilação da própria língua, mas de uma certa forma é uma personagem que tem voz e que é ativa, né?

Ela não tem nada a ver com esse empoderamento que a gente fala e de mulher guerreira, não tem nada a ver com isso, mas é de uma certa forma ela se impõe, é uma mulher muito forte. E se ela tivesse essa língua, digamos assim, quando ela crescesse, ela seria uma outra pessoa. Mas ela é uma pessoa que se impõe. É uma mulher forte. É uma mulher que não esmoreceu.

Belonísia é uma mulher inteligente. E que a gente entende que a inteligência não passa por esse banco escolar. É uma inteligência ancestral. Eu acho esse personagem fascinante!

Sendo um livro sobre mulheres, e a equipe de roteiristas negras, o que estão trazendo de vocês que possa acrescentar à série que não necessariamente tem no livro?
Sempre quando a gente escreve alguma coisa nossa vai para o texto. Eu acho que é impossível não ir. Escrever é se envolver o tempo todo. A gente escreve e se envolve com a história e se doa muito. Nós temos uma equipe, eu tô aqui em São Paulo, há uma em Salvador, a Renata mora no Rio de Janeiro. São mulheres de idades diferentes, geografias diferentes, mas por sermos mulheres negras, a gente tem essa coincidência que passa pelos processos de racismo, pelos processos de violências e de apagamentos. Isso tem na história de todo mundo, não só na história pessoal, familiar.

Eu não conhecia a Ceci antes, mas quando a gente conversa temos histórias muito semelhantes. Ou das nossas mães, das nossas avós. Em um Brasil tão diverso e diferente, uma história se aplica tanto à Donana, do livro, quanto à mãe da Ceci ou à Vivi, quando criança. Eu acho essa sala especial justamente porque essas vivências de pessoas negras são recorrentes e a gente sabe que não existe coincidência, não é à toa.

Teve um dia que eu estava falando de uma cena específica sobre menstruação. E aí como é que era a vivência para cada uma sendo uma pessoa negra, uma pessoa pobre. A gente fala não só da gente, mas da mãe, das avós, como é que foi esse processo. E aí, sem nos conhecermos, sem conhecermos os nossos passados, a gente vê que tem muitas coincidências nas histórias. Então, é isso que a gente traz, a gente doa muito as nossas histórias pessoais pra Torto Arado. Eu acho que essas histórias vão comover as pessoas, porque elas vão se identificar.

E como é o contato com o escritor Itamar Vieira Junior, ele tem acompanhado a produção?
O Itamar é uma pessoa absolutamente generosa. A gente teve reuniões com ele, dessas poucas que tivemos, a gente produziu esse material da ‘bíblia’. Ele leu todo o material. Nas primeiras reuniões, gostou muito e obviamente ele já deixou muito claro que ele sabe que a obra que ele criou vai ser sempre a obra que ele criou. A literatura é intocada e o que a gente está produzindo é uma outra coisa. É claro que muito ancorada no livro dele, mas é uma série, tem ganchos, tem episódios, tem personagens, tramas que são maiores em algum momento.

No Torto Arado não tem diálogo. As personagens não falam. Você não vê elas dialogando entre si. Tem o pensamento ali o tempo todo, a narração. A gente entende a Bibiana na primeira fase narrando toda aquela história, mas ela não não conversa com o pai, com a mãe. Então no roteiro é que a gente vai sentar e falar: ‘como é que ela fala?’ Ela fala mais rápido, ela é mais sarcástica. Então são essas descobertas, é a nossa criação. A Belonísia não fala. Então como é que a gente vê corporificada essa figura que não fala? Como é que Belonísia se comunica com o mundo? Quais são os gestos? A gente não sente falta, porque no livro está esse fluxo de pensamento.

Já há atores selecionados para interpretar os personagens?
Não está nada decidido ainda pelo diretor, pelo que eu sei. Obviamente já estão procurando, já está nesse processo com a produtora fazendo testes, levantando o elenco. Não só aqui em São Paulo mas principalmente nessa região da Chapada. No nosso imaginário a referência que a gente tem de atriz e de ator está sempre no sudeste.

Para mim, particularmente, eu queria ver um rosto totalmente desconhecido pra ser protagonista da série, porque teremos oportunidade de olhar para aquele rosto e falar: ‘essa aqui é a Belonísia que eu nunca vi’.

Você consegue conciliar a escrita do roteiro com outros projetos? O que você está produzindo além da série?
No momento só estou trabalhando com Torto Arado. Na verdade todas essas salas de roteiro que eu te falei, eu trabalhei sempre uma por vez. Às vezes terminava um processo e entrava em outro, mas sempre encerrando e entrando, porque acho que o processo de sala de roteiro é um processo muito ciumento.
Você assiste a uma série, sai às ruas, lê um livro e aquilo sempre te remete costura para dentro da história. ‘Nossa isso aqui poderia ser uma frase da Bibiana, isso poderia ser uma vivência do Zeca Chapéu Grande. É um processo muito ciumento porque sua cabeça fica sempre voltada para colher histórias.

Ontem mesmo eu escutei uma pessoa falando ‘laçarote’, de fita de cabelo. Aí já colho aquela palavra e coloco na minha caixinha de diálogo. Então eu vou colhendo essas coisas. É um processo diário, dia e noite você está pensando nesses personagens, tentando trazer coisas pra enriquecer.

Outro dia eu estava assistindo Pantanal e vi as pessoas na internet comentando com muita surpresa a personagem da Juma que não fala raiva, ela fala ‘reiva’. E eu vi que o público jovem adora quando ela fala porque são pessoas que estão no sudeste, na cidade. Que não têm contato com outras regiões. Você desloca o olhar também para esse universo de outros lugares. Como é que as pessoas falam em outros lugares? É gostoso você deslocar a sua imaginação e entrar num outro universo que não seja do sudeste. Que não seja o seu. E para as pessoas que já estão no nordeste, no caso, é se reconhecer. ‘Olha, minha avó falava desse jeito, minha mãe fala desse jeito…’

Torto Arado me inspira a escrever e o Itamar é uma pessoa que me inspira porque ele era um pesquisador, trabalhador de uma outra área escrevendo e essa literatura ganhando o mundo, não só o Brasil. Uma história de um Brasil muito profundo e que começa lá na década de 1960, 1970, mas a gente vê essa história tendo ecos ainda hoje em dia.

Quantas vezes a gente vê num noticiário uma história de escravidão, de exploração de corpos negros? Então é uma história que se ancora, mas dialoga o tempo todo com o presente. Infelizmente, porque a gente não queria ver essa história repetida. Ver uma mulher de oitenta anos trabalhando a maior parte da vida como empregada doméstica. E saber também que o trabalho de empregada doméstica é esse resquício da escravidão. O trabalho não mudou, é esse mesmo modelo de trabalho. Se o Itamar também insistiu nessa história durante muitos anos, porque ele queria contar desde os quinze anos de idade, um homem de quarenta e poucos anos, tem essas histórias que eu também quero contar em primeira pessoa.


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