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Na Perifa

É solitário vestir a capa da Mulher Maravilha quando a gente precisa de ajuda

Se me perguntavam como eu estava, eu sempre respondia ‘bem’, mesmo sangrando por dentro e com vontade chorar

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24/03/2022

Por: Bianca Pedrina, cofundadora e gestora do veículo de comunicação Nós, mulheres da periferia

Por mais que eu me sentisse só, estava em negação. Em vez de me reconhecer só, me mostrei forte e sempre busquei ser ombro de alguém. Percebi que cuidar dos outros me afastava do vazio que eu queria preencher. Foto: Pixabay

Pensei que havia feito as pazes com a solidão quando a pandemia me obrigou a viver comigo mesma. Este processo estava sendo maturado um pouco antes, quando decidi me separar e buscar a autonomia e a independência que não me pertenciam. O nó de não saber quem de fato eu era sozinha, desatou depois de um ano. Descobri quem era a Bianca e tive que encarar o pior e o melhor de mim.

Por mais que eu me sentisse só, estava em negação. Em vez de me reconhecer só, me mostrei forte e sempre busquei ser ombro de alguém. Percebi que cuidar dos outros me afastava do vazio que eu queria preencher.

Tentava suprir a lacuna de várias formas possíveis, com atividades físicas, encontro com amigos, relações afetivas passageiras, mas ao final do dia só sentia o cansaço de tapar um buraco em vão.

Decidi adotar um cachorro, o Fred. O objetivo era cuidar e tirar o foco da angústia que não parava de me rondar. Deu certo até eu me acostumar e novamente ter de encarar minha solidão no espelho.

Entendi, nos embates internos, que sou relacional e preciso do outro. Aprendi que minha autonomia e independência só eram possíveis por meio da troca, mas para isso seria preciso me despir da roupa da mulher-maravilha.

Aprendi que minha autonomia e independência só eram possíveis por meio da troca, mas para isso seria preciso me despir da roupa de Mulher Maravilha

Minha dificuldade em me mostrar frágil é fruto da cadeia estrutural que sempre me colocou nesse lugar. Me protegi tanto que aprendi a fingir que não existia. Quando quis pedir ajuda, não tinha ninguém ali para me acolher. Não porque as pessoas não quisessem, mas eu desaprendi o caminho de ser acolhida.

Na minha cabeça, reconhecer minha solidão feria meu processo de emancipação. Mas entendi que a autossuficiência e emancipação têm muito de solidão. Você briga tanto por este lugar de dar conta de tudo sozinha, que tem uma falsa impressão de liberdade. Na realidade, é uma prisão em si mesma.

Você briga tanto por este lugar de dar conta de tudo sozinha, que tem uma falsa impressão de liberdade. Na realidade, é uma prisão em si mesma

Me dei conta disso quando me perguntavam como eu estava e eu sempre respondia que “bem”, mesmo sangrando por dentro e sentido vontade chorar. Mesmo tendo pessoas ao meu redor, ser honesta e dizer que precisava de colo me parecia fraqueza, afinal, as demandas dos outros sempre pareciam mais importantes.

Tenho pensando em como eu construí a fortaleza que também é importante para minha sobrevivência, mas cansei de me mostrar forte o tempo todo. Ao afastar tudo que entendia ser sinônimo de fragilidade, me distanciei de mim.

Entendo que a solitude é um sentimento saudável de reclusão para entrar em contato consigo. Mas é uma escolha pessoal para quem se sentir bem com ela. Para mim, parece pote de ouro do outro lado do arco-íris, por entendê-la como utopia. Uma meta inalcançável.

Talvez o primeiro passo seja me reconhecer só e verbalizar minha solidão. Entender que se sentir assim, às vezes, é uma escolha inconsciente minha, pelo fato de eu ter desaprendido a pedir colo, mãos e ombros para seguir.

Admiro quem tenha conseguido viver a solitude, mas, por enquanto, eu tento apenas fazer as pazes com minha fragilidade misturada com minha solidão.

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