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Na Perifa

Filha de Carolina Maria de Jesus fala da polêmica sobre a estátua de sua mãe

Sem diálogo com a Prefeitura, familiares e coletivos culturais fazem abaixo assinado; ‘Expresso na Perifa’ conversou com a professora Vera Eunice de Jesus

7 minutos, 29 segundos de leitura

24/02/2022

Por: Luiz Carvalho

A ideia de que a fome tem cor acompanha Vera Eunice de Jesus desde a infância é que a fome tem cor. “Saíamos, eu e minha mãe, para catar papel. Ela sentava na calçada e vomitava de fome, amarelo, porque não tinha nada no estômago. Dizia: "a fome é amarela. Isso inspirou muitas peças e obras”, conta a filha de Carolina Maria de Jesus. Foto: Isabelle India/Expresso na Perifa

Sob o agito das folhas de eucalipto no Parque da Árvores, uma professora de pele e máscara pretas e sorriso fácil se acomoda no banco de cimento para falar de sua mãe. O parque fica no Grajaú, periferia na zona sul de São Paulo. Vera Eunice de Jesus, 68, é filha da escritora, compositora e poeta Carolina Maria de Jesus. “Um ano antes de falecer, minha mãe deixou uma carta com a vizinha, que me entregou um dia depois da morte, com uma série de pedidos. Um deles era para que não deixasse a memória dela morrer”, conta.

Vera Eunice de Jesus: filha de Maria Carolina de Jesus, a professora procura dia a dia livrar do esquecimento a memória de sua mãe. Foto: Isabelle India/Expresso na Perifa

O reconhecimento da autora de obras como Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, de 1960, publicada em 40 países e traduzida para 16 idiomas, deveria ser o suficiente para que Dona Carolina, como Vera a chama, não fosse esquecida. Não foi bem assim e, agora, movimentos culturais e familiares da escritora pedem que a Prefeitura de São Paulo não “esconda” a autora. E isso tem a ver com uma estátua em sua homenagem.

UMA PAUSA PARA CAROLINA

A memória da escritora negra que narrou suas histórias de vida, ganhou o mundo e caiu no esquecimento antes de morrer tem sido resgatada. A mineira Carolina Maria de Jesus (1914–1977), mãe de Vera Eunice, João José e José Carlos, foi catadora de papel e moradora da periferia de São Paulo. Ela vivia na Favela do Canindé, na zona norte, quando mostrou seus escritos para o jornalista Audálio Dantas (1929 – 2018). Ele publicou alguns textos no jornal em que trabalhava. Esses e outros relatos seriam editados no livro mais famoso da autora, Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada (1960).

O sucesso da primeira publicação permitiu que Carolina fosse morar no bairro de Santana, onde escreveu outro diário, Casa de Alvenaria, trata da melhora de vida da família, agora afastada da fome. Diário de Bitita, publicado primeiro na França em 1982, fala de um período anterior à chegada da escritora em São Paulo – uma criança na cidade de Sacramento (MG). Somam-se a esses Pedaços de Fome, Provérbios e Meu Estranho Diário. (Eduarda Nunes, Favela em Pauta)

Carolina no quarto de despejo?

O incêndio da estátua de Borba Gato, na zona sul da capital paulista, em junho de 2021, acendeu o debate sobre a manutenção de monumentos em referência a grupos responsáveis pela escravidão e exploração de pessoas negras e dos povos indígenas no país.

Na tentativa de diminuir a disparidade racial, no mesmo ano a Prefeitura de São Paulo anunciou a instalação de cinco estátuas em honra a personalidades negras: a escritora Carolina Maria de Jesus, os cantores e compositores Itamar Assumpção (já inaugurada) e Geraldo Filme, o pentacampeão de salto triplo Adhemar Ferreira da Silva e a sambista e ativista Madrinha Eunice.

Na cidade em que 39% da população se autodeclara parda (30,6%), preta (6,4%) e amarela (2,2%) — segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial —, há 14 homenagens a episódios e pessoas controversos ligados à ditadura militar e à escravização – Manoel Borba Gato, por exemplo, matou e oprimiu indígenas e negros entre os séculos 16 e 17

A inauguração da escultura de Carolina de Jesus deveria ter ocorrido em 14 de fevereiro (dia de sua morte, em 1977), mas esbarrou em conflitos com familiares e coletivos culturais. Eles alegam não terem sido consultados pelo poder público para alinhar a localização [Parque Linear de Parelheiros] e a data — acham importante que a obra seja apresentada no dia do nascimento da escritora, 14 de março.

O movimento considera que a escolha do Parque Linear não faz justiça à visibilidade que Carolina Maria de Jesus merece e destaca que a forma como a Secretaria Municipal de Cultura atuou, sem ouvir a família e os moradores, promove o apagamento da memória.

Vera Eunice entre a professoras Lucimeire Juventino (esq.) e Fátima Queirós (dir.). As duas integram organizações que defendem outro destino para a estátua de Carolina Maria de Jesus. Uma praça que não figure como um quarto de despejo. Foto: Isabelle Índia/Expresso na PerifaVera Eunice entre a professoras Lucimeire Juventino (esq.) e Fátima Queirós (dir.). As duas integram organizações que defendem outro destino para a estátua de Carolina Maria de Jesus. Uma praça que não figure como um quarto de despejo. Foto: Isabelle Índia/Expresso na Perifa
“A Prefeitura fez visita técnica à praça de Parelheiros (Júlio César de Campos), ao Parque Linear e ao Parque Ribeirão Colônia e optou pelo Linear. Não faz sentido, é um local distante, de difícil acesso e de pouca visibilidade”, explica a pedagoga Luara de Oliveira, 21, uma das integrantes do comitê de reivindicações referente à escultura. “

Como o Parque Linear tem pouco movimento, tende a ser mais difícil proteger e preservar a peça e prevenir depredação. Foi feito então um abaixo-assinado que já tem mais de duas mil assinaturas. O destino mais adequado, segundo os organizadores, é a Praça de Parelheiros. A centralidade e o caráter simbólico do lugar são destacados: ali há uma drogaria que era frequentada pela escritora e a centenária igreja central esteve presente na formação dos filhos. Os caminhos que partem do espaço, na região central do distrito, levam a lugares como Embu Guaçu, onde Carolina é nome de rua e será condecorada.

De acordo com Laura, não faltaram tentativas de contato e até mesmo compromissos firmados. Em reunião online realizada no dia 4 de fevereiro, a Coordenadora do Núcleo de Monumentos e Obras Artísticas do Departamento do Patrimônio Histórico da Cidade de São Paulo (DPH), Alice de Almeida Américo, aceitou discutir a data de lançamento, mas não a mudança de local.

Diante disso, o movimento conversou com o coordenador da Casa de Cultura de Parelheiros, Mauro Fonseca, que em encontro presencial no dia 7 deste mês, assumiu o compromisso de atender à reivindicação e levar o monumento para a praça central. Mas o processo não caminhou e, no último dia 21, a Secretária Municipal de Cultura, Aline Torres, foi abordada pelo coletivo em um jantar. Ela disse que não sabia do caso e se comprometeu a analisar as reivindicações.

Racismo estrutural

Vera Eunice, que no início deste texto falava de um dos últimos desejos de sua mãe, nasceu em um barraco na favela do Canindé. Uma das memórias que a acompanham desde a infância é a do dia em que soube que a fome tem cor. “Saíamos, eu e minha mãe, para catar papel. Ela sentava na calçada e vomitava de fome, amarelo, porque não tinha nada no estômago. Dizia: “a fome é amarela. Isso inspirou muitas peças e obras”, conta Vera.

Se levantasse do túmulo, a Carolina escreveria Quarto de Despejo igualzinho. Muito pouco mudou no Brasil. Os negros mudaram, estão mais fortes, têm mais conhecimento. Mas a fome e a periferia continuam iguais (Vera Eunice de Jesus, professora e filha de Carolina Maria de Jesus)

Desde então, para a professora, pouca coisa mudou no País de fortes raízes racistas e que inviabiliza homens e mulheres negras. De tempos em tempos, quando conversa mentalmente com a mãe, ouve que muito do que fez em vida seria hoje repetido exatamente da mesma maneira. “Se levantasse do túmulo, a Carolina escreveria Quarto de Despejo igualzinho. Muito pouco mudou no Brasil. Os negros mudaram, estão mais fortes, têm mais conhecimento. Mas a fome e a periferia continuam iguais.”

Outro lado

A Prefeitura de São Paulo informou que convocará uma reunião com os movimentos que pedem a alteração do local da estátua de Carolina Maria de Jesus para discutir a reivindicação.

Segundo a nota, “desde a assinatura do contrato da escultura, em 17 de agosto de 2021, o local nunca havia sido apontado, nem pelos movimentos culturais, nem pela família de Carolina Maria de Jesus, que colaborou com o DPH em todas as instâncias e nunca, até a citada visita técnica, manifestou qualquer objeção quanto ao local da estátua”, ponto que é contestado pelos movimentos culturais.

De acordo com o comunicado, a escolha do parque se deu em “referência à história da Carolina, que viveu durante anos em um sítio em Parelheiros, local tranquilo em que se refugiou e onde pôde escrever sobre suas grandes vitórias.” A prefeitura ressalta que a escolha do Parque Linear Parelheiros também considerou que a escultura estará mais protegida e valorizada, com a presença de vigilantes 24 horas no local, questão também questionada pelos moradores da região que, apontam falta de conservação e cuidados no local.

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