Na Perifa

Mona Rikumbi dança na cadeira de rodas

Na tradição africana do candomblé banto, seu nome significa filha do sol; para Mona, a cadeira é um meio de locomoção e não o limite do mundo

6 minutos, 40 segundos de leitura

22/04/2022

Por: Beatriz de Oliveira, Nós Mulheres da Periferia

Mona Rikumbi: atriz, bailarina e militante do movimento negro. Foto: Lethicia Galo/Divulgação

“Hoje faço aquilo que quero, do jeito e no formato que busco. Sei dizer não, sei dizer sim. Sei ser convidada e entrar. Quando não sou convidada, me convido”, diz a atriz, dançarina e ativista Mona Rikumbi. Aos 51 anos, moradora da zona sul de São Paulo, ela é militante do movimento negro no Brasil e foi a  primeira mulher negra cadeirante a dançar no Teatro Municipal, em 2017.

Seu nome de batismo é Érica Andrea Martins. “Sou a segunda filha de uma mulher negra, mãe solteira. Ela me deu esse nome porque é uma flor que conseguia resistir mesmo no cimento”, diz Mona. “Ela sabia que teria que ser forte.” Na religiosidade de matriz africana, a artista se reconhece no mundo. E foi essa tradição que a ajudou a ressignificar seus dias quando uma doença a fez precisar de cadeira de rodas para sempre. O nome Mona Rikumbi, aliás, significa filha do sol e lhe foi atribuído quando passou a integrar o candomblé banto.

Teatro e dança — “Sou arteira e artista”, diz Mona para se definir. Sua relação com o teatro vem da infância, quando frequentava um centro cultural perto de sua casa. Já a dança surge na tradição do terreiro: “Minha brincadeira com as minhas amigas e com a minha irmã era botar as roupas da minha mãe, bater o tambor e imitar as divindades, as entidades.”

Mona engravidou aos 24 anos e passou a trabalhar como enfermeira. Em 2000, foi diagnosticada com neuromielite óptica, uma doença neurológica rara que pode acarretar paralisia e cegueira. A maior incidência é em mulheres de descendência africana e asiática. Após alguns tratamentos e cirurgias, Mona Rikumbi continua sendo arteira, artista e militante da causa negra, com uma diferença: desde 2007, ela também é cadeirante.

‘Nunca tinha visto bailarina na cadeira de rodas’ — A nova realidade desencadeou em Mona um processo de luto. Sua primeira impressão foi de que não havia mais lugar para ela. “Nunca tinha visto uma bailarina na cadeira de rodas, nunca tinha visto ninguém numa cadeira de rodas numa roda de candomblé, capoeira ou jongo.” Foi então que buscou conhecimento na religião africana e entendeu que a deficiência não a impediria de ocupar espaços. A cadeira é um meio de locomoção e não o limite do mundo.

Fiquei surpresa, mas também muito realizada, quando entendi por que Oxum dança tão lenta e lindamente. Ela dança lentamente, porque num certo momento, em uma das várias brigas com Obá, Obá jogou dendê quente nos pés de Oxum. Em nenhum momento Oxum deixa de ser sagrada, mesmo trazendo os pés queimados (Mona Rikumbi, atriz e bailarina)

O que acontece a partir dessa nova compreensão é uma espécie de reencontro com a arte. Mona descobriu que existia dança de cadeira de rodas e começou a participar de aulas. “Só consegui entender a dança, e dançar efetivamente, quando pude extrapolar esse olhar de quem vivencia para a manutenção da tradição [africana]. Então, toda vez que estou com a minha cadeira, entro na roda e danço, estou mais uma vez dizendo: ‘Não é inclusão, é pertencimento. É a radicalidade de entender que tudo que tem vida é sagrado e importa’.”

Não é inclusão, é pertencimento. É a radicalidade de entender que tudo que tem vida é sagrado e importa

O dia em que dançou no Municipal — Em julho de 2017, Mona fez história no palco do Teatro Municipal de São Paulo. Ela participou do espetáculo Sonhos, da Associação Fernanda Bianchini – Cia Ballet de Cegos. Foi a primeira mulher negra cadeirante a se apresentar no teatro secular. A entrada de artistas não tinha rampa e a bailarina precisou da ajuda de bombeiros para subir as escadas. Um mês depois, quando voltou a dançar ali, o problema da acessibilidade tinha sido corrigido.

A proposta da companhia era que as atrizes estivessem vestidas de gala. Mona sugeriu — e sua ideia foi aceita — usar uma “gala negra”, de inspiração africana. Ela procurou uma estilista senegalesa que fez a roupa inspirada em uma rainha. “Fui a primeira a entrar e fazia o som do tambor na boca. Imagina, uma companhia toda branca e que até então era só de bailarinas cegas dançando clássico e aí eu chego, bem preta!”, conta.

Por mais que a entrada não tenha passado de cinco minutos, foi um episódio marcante e simbólico. Mona se orgulha de ter enfrentado o teatro lotado, dançado e recitado.

‘Não foi escolha, foi sobrevivência’ — Na juventude de Mona, o Brasil passava pelo processo de redemocratização. Em 1988, quando ingressou no Ensino Médio, já participava de discussões e movimentos sociais, como as Diretas Já, a construção da Assembleia Constituinte e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A militância, afirma, foi questão de sobrevivência. “Sendo da periferia e querendo atuar na arte, qual era o caminho, se não lutar para que o espaço me entenda e me acolha?”

A ativista participou de muitas organizações do movimento negro e lembra das dificuldades de encontros que eram feitos em escolas públicas, com colchonetes finos para dormir e sem água quente. “Em 1990, a gente teve o II Encontro Nacional de Entidades Negras”, conta. “Você não tem ideia o que era em 1990, sem telefone em casa, um movimento de maioria jovem. A gente ainda não tinha o legislativo negro e [queria] construir um movimento nacional. Pensa bem o que foi isso!”

Naquele ambiente engajado e pulsante, o machismo se manifestava. Por vezes os homens não davam espaço para as pautas levantadas pelas mulheres. Mona diz que logo viram a necessidade de criar um movimento de mulheres negras. Outro ponto era a questão da religiosidade de matriz africana. Segundo ela, isso era colocado em segundo plano. A vertente das pessoas com deficiência demorou ainda mais para chegar e quando virou cadeirante, em 2007, a bailarina passou a atuar também nessa causa.

Pelo direito de continuar sendo mãe — Mãe solo e filha de mãe solo, Mona conta que está abrindo mão de qualificar sua maternidade dessa maneira. Propõe outra reflexão: o direito de continuar sendo mãe.

“As mulheres negras são as que mais deixam de ser mães. Quando a gente perde a mãe a gente vira órfão, quando a gente perde o filho não tem nem nome. Nós, em função da nossa vulnerabilidade, em função do processo racista, toda vez que nosso filho sai, é o caso do meu que já tem quase 30 anos, aparece a dor e o medo de botar esse filho na rua e saber que uma bala perdida pode achar o corpo dele.” Ela lembra que costurava os bolsos da calça do filho para evitar que a polícia colocasse algo, e que orientava ele a jogar bola com camiseta para que, em caso de morte, fosse possível identificar. “Que mãe que não é preta tem que passar por esse caminho?”, questiona.

Ser mãe foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. No meio de todo esse turbilhão de coisas que vivi, é muito bom saber que botei um cara do bem no mundo. Um cara que vai saber respeitar a mulher, que sabe entender de onde veio, e sempre a partir desta visão de mundo africana

Na infância, a mãe de Mona dizia que ela teria de ser excelente para ser considerada regular. Passando pelo processo de redemocratização e a luta no movimento negro, Mona achava que não precisaria falar isso para seu filho, mas precisou. Talvez seu neto vá ouvir a mesma coisa.


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