Na Perifa

No Capão Redondo, brechó Loyal busca popularizar a moda

A criadora da iniciativa afirma que o movimento reúne moradores em aprendizado coletivo

3 minutos, 14 segundos de leitura

05/11/2021

Por: Julia Santiago, Embarque no Direito

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Quando são realizados eventos com produtores do bairro e os moradores são protagonistas, Jaqueline é tocada pelo pertencimento. “Coletividade é empoderador. Acredito na política do corpo ser o que quiser”, diz a produtora cultural Jaqueline Leal, do Loyal. Foto: Divulgação/Alex Costa

No bairro de Capão Redondo, periferia da zona sul de São Paulo, a publicitária e produtora cultural Jaqueline Leal, de 23 anos, trabalha para que a palavra moda vá além de marcas com um preços altos ou grandes desfiles em lugares muito distantes. Para ela, o ideal é que o conceito esteja ligado à busca da identidade de cada pessoa.

Em 2014, quando tinha 16 anos, Jaqueline foi provocada por um amigo com quem fazia teatro a abrir um brechó. Ela aceitou o convite e os dois começaram a procurar e a customizar algumas peças. Desde então, já fizeram dez desfiles na região.

Batizado de Loyal, o brechó vai além da venda de roupas. É uma plataforma de experimentação que reúne diversas linguagens, a exemplo de teatro, performance e hip hop, e usa a moda como ferramenta para mostrar identidade pessoal. “Se é para ser visto como marca, então que seja no sentido de marcar mesmo”, diz Jaqueline. Algumas vezes por ano, o grupo organiza eventos. Nos desfiles, por exemplo, o objetivo é mostrar que vestir também é um ato político, na medida em que as peças podem manifestar emoções e sentimentos.

Em 2018, o Loyal trouxe à passarela a história do triângulo da morte, expressão que surgiu nos anos 1990 para nomear a tríade dos bairros Jardim Ângela, Capão Redondo e Jardim São Luiz, por causa dos altos índices de violência que apresentavam. “Todos os desfiles respondem a urgências”, explica Jaqueline.

Todas as atividades são resultado de um processo coletivo que desemboca no desfile-festa. Depois do reconhecimento da importância e da escolha do tema, são organizados pelo menos cinco encontros com modelos e outros participantes para formação e conversas. Por último, há um encontro aberto à comunidade.

Batizado de Loyal, o brechó vai além da venda de roupas. É uma plataforma de experimentação que reúne diversas linguagens, a exemplo de teatro, performance e hip hop, e usa a moda como ferramenta para mostrar identidade pessoal. Foto: divulgação/Larissa Estevan

Por uma moda mais sustentável e consciente

Outra motivação para o surgimento do Loyal é o combate à lógica do fast fashion, termo que define a constante renovação das peças vendidas no varejo da moda, algo que, segundo especialistas, gera consumo intenso e competitivo nas grandes redes e grifes de moda.

Na opinião de Jaqueline, se nos anos 1990 boa parte da sociedade achava importante ostentar marcas famosas, a busca pela própria identidade faz brotar iniciativas locais e originais. Estimula o consumo consciente. “É importante desvincular-se da ideia de que moda é só roupa”, emenda.

No cenário pandêmico, a Loyal realizou duas intervenções virtuais e conseguiu atingir outros territórios e outros fazedores de moda, como Coletivo Chita, Brasilândia Co, Da Lama e Revista Aquenda. Jaqueline sonha que, no futuro, suas criações alcancem outros estados, sem nunca deixar de lado as narrativas do Capão Redondo, onde nasceu e vive. Para ela, o sucesso dos brechós nas periferias vem da conscientização de quem não aceita mais a mensagem de que só vai ser legal se estiver usando um kit da grife estrangeira. “Se o produto não é nem acessível nem necessário, consumir brechó e entender sua identidade fica muito mais fácil”, comenta.

Quando são realizados eventos com produtores do bairro e os moradores são protagonistas, Jaqueline é tocada pelo pertencimento. “Coletividade é empoderador. Acredito na política do corpo ser o que quiser”, finaliza.

A crise social agravada pela pandemia contribuiu para o aumento dos brechós, de acordo com pesquisa publicada em dezembro de 2020 pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Dos entrevistados, 40,5% já adquiriram “itens usados” de vestuário ao menos uma vez; outros 32,6% fazem isso com frequência

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