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‘O Nego Vai Longe’: brasileiro saiu da periferia para viajar o mundo inteiro

Nos primeiros dois meses, viajante negro já passou por Tailândia, Camboja, Vietnã, Malásia e Singapura

4 minutos, 19 segundos de leitura

19/04/2022

Por: Nataly Simões

Imagina deixar uma carreira de 14 anos em gestão hospitalar, embarcar numa viagem pelo mundo e virar referência para outras pessoas parecidas com você. Foi essa a escolha de Robson Jesus. Ele saiu da periferia de Osasco, na Grande São Paulo, e construiu uma trajetória que o converteu em produtor de conteúdos de viagem e agora vai levá-lo a visitar 196 países até 2025 e tentar, assim, entrar para o Guinness Book (o livro dos recordes).

Filho de mãe solo, Robson tem dois irmãos. Estudou em escola pública, se formou em administração e com bolsa de estudos se especializou em gerenciamento de projetos. Ele atuava como gestor do Hospital das Clínicas de São Paulo, um dos mais importantes da América Latina, quando em 2018 desligou-se do emprego e foi fazer um intercâmbio nos Estados Unidos e encontrar um modo de vida que contribuísse para um mundo melhor. Buscou conhecimento de marketing digital, passou a estudar geografia e planejar formas de juntar experiências de viagem e produção de conteúdo. O desejo de percorrer o planeta e a criação do projeto O Nego Vai Longe foi uma consequência natural — e Robson afirma que não pretende voltar para a área em que trabalhava antes.

Desde 1o de março, quando a viagem efetivamente começou, ele já esteve em cinco países. Ao fim da experiência, Robson poderá ser reconhecido como o primeiro (homem) negro do planeta, de acordo com o levantamento feito por ele, a ter estado em ‘todos os países’  — atualmente, a Organização das Nações Unidas (ONU), uma das principais referências nessa contagem, considera que existem 195 países, incluindo Vaticano e Palestina. Esse é um parâmetro, mas não o único.

Até hoje, só se tem conhecimento de uma pessoa negra que já tenha viajado o mundo tendo como base estados, territórios e nações reconhecidos pela ONU. Jessica Nabongo, uma empresária de nacionalidade ugandense e estadunidense, concluiu a experiência em 2019, quando esteve no último dos 195 territórios que planejou visitar. Seu percurso pelo planeta deu origem a um livro editado pela National Geographic. The Catch Me If You Can será lançado em junho deste ano.

Quando soube que não havia um homem negro em uma lista de 150 pessoas que já tinham conhecido todos os países do mundo, Robson resolveu assumir a missão. “A falta de oportunidade causada pelo racismo estrutural poderia estar entre as principais razões para vermos essa realidade em que pessoas negras têm menos condições. Tive dificuldades em dormir, por indignação, e só tive paz quando decidi colaborar para mudar esse cenário”, conta.

Para colocar o projeto em prática, o viajante procurou Anderson Dias, primeiro brasileiro a viajar o mundo em tempo recorde. O pernambucano — que esteve em 196 países em 1 ano, 5 meses e 28 dias — abraçou a ideia e ofereceu uma mentoria. Já o empreendedor digital Igor Ivanowsky, que viaja há seis anos, ajudou a fazer um orçamento baseado em custos (passagens, hospedagens, alimentação, pontos turísticos e internet, fundamental em um programa amparado na produção de conteúdo).

Robson tem investido na carreira de influenciador digital. Já são mais de 15 mil seguidores no Instagram, onde registra a experiência em fotos e vídeos e, além de compartilhar viagem, conhecimento e dicas, também levanta debates e reflexões de Identidade, representatividade e racismo. Até o momento, O Nego Vai Longe já passou por Tailândia, Camboja, Vietnã, Malásia e Singapura. “O que mais me motiva é mostrar para todas as pessoas a vivência de nós, negros, em cada país. Criando uma conexão que se estende a tudo e a todos, isso é definitivamente um projeto que vai colaborar com a história da humanidade”, avalia.

Poucas roupas na mala e muitos desafios à frente — Para facilitar seu deslocamento, Robson apostou em uma bagagem minimalista, com poucas peças de roupa e somente alguns itens eletrônicos, como o notebook e o celular. Ele também diminui os custos ao se hospedar, quando possível, nas casas de moradores das cidades. Em troca, oferece serviços. Cozinhar é um deles.

Já no começo da jornada Robson constatou a ausência de outros viajantes negros — que já aparecia nas estatísticas e agora é constatada empiricamente. “Me questionaram nas redes sociais sobre a razão de eu não ter feito amigos negros nas viagens. Eu tenho contato apenas com pessoas brancas porque não há pessoas negras viajando como eu. Esse é o cenário que a gente vive”, diz.

Em meio a outros desafios como a comunicação, Robson pretende concluir sua missão até 2025, sem deixar de visitar os países que enfrentam conflitos, como é o caso da Ucrânia, no leste da Europa. “O meu maior desafio é visitar os países que estão em guerra para deixar registrado em algum momento”, conclui.

Robson Jesus em frente ao maior monumento do mundo, no Camboja. O templo budista Angkor Wat fica na cidade de Siem Reap. Foto: divulgação

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