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Na Perifa

Seis iniciativas de transformação digital e social nas periferias

A tecnologia só melhora a vida das comunidades se estiver conectada à realidade dos territórios

7 minutos, 58 segundos de leitura

11/03/2022

Por: Expresso na Perifa

A InfoPreta se distingue de outras prestadoras de serviço do ramo porque coloca o foco na inserção de pessoas negras, LGBTQIAP+ e mulheres no mercado de tecnologia. Foto: Isabelle India/Estadão Expresso

Conheça ações e projetos que nascem em comunidades periféricas de São Paulo e ampliam os horizontes de seus moradores com conhecimentos de programação, educação em informática, startup verde e inclusão.

INFOPRETA
Lucas Veloso

‘[Na InfoPreta], ninguém é padrão’, diz o fundador Akin Abaz. CEO da empresa, ele é um homem negro e trans. Foto: Isabelle India/Expresso na Perifa

Akin Abaz tem 27 anos é CEO da InfoPreta, empresa de manutenção de computadores de todas as marcas, e atua em projetos de impacto social. A InfoPreta se distingue de outras prestadoras de serviço do ramo porque coloca o foco na inserção de pessoas negras, LGBTQIAP+ e mulheres no mercado de tecnologia.  Criada na cidade de Osasco, na Grande São Paulo, a InfoPreta ocupa um prédio comercial na zona oeste da capital paulista e adota programas como o Notes Solidários da Preta. “Recolhemos em empresas e recebemos de pessoas equipamentos que não usam mais”, explica Akin. “Consertamos, reciclamos e doamos para estudantes universitários.” Alunos da rede pública também podem ser beneficiados

A startup apoia a criação de laboratórios de tecnologia e de audiovisual nas comunidades e oferece também oportunidades de formação em manutenção de equipamentos de informática a pessoas negras. “Sem esses projetos sociais, a InfoPreta é apenas uma empresa como qualquer outra. Não adianta ensinar sobre tecnologia sem considerar a realidade de quem está na comunidade”, explica Abaz. A ideia é “jogar o jogo do mercado”, gerar lucro e crescimento e promover o empoderamento de jovens com uma história muito semelhante à de Abaz, morador da periferia de São Paulo e que saiu da escola com poucos conhecimentos sobre tecnologia.


JOVENS HACKERS
Riviane Leite, Embarque no Direito 

Jovens Hackers: programação, robótica e cultura maker. Foto: Mariana Lima/Divulgação
Jovens Hackers: programação, robótica e cultura maker. Foto: Mariana Lima/Divulgação

Organização voltada ao ensino de programação, robótica e cultura maker para crianças e adolescentes da periferia, a Jovens Hackers foi criada pelo empreendedor social Arthur Gandra, de Franco da Rocha. “Apesar de tudo, eu tive alguns privilégios. Estudei com bolsa de 100% pelo Programa Universidade para Todos (Prouni) e queria devolver isso para a sociedade”, diz Arthur. “Quando a gente recebe uma criança aqui, ela pode ter um emprego na área de tecnologia e também acessar outros aprendizados, como criatividade, trabalho em equipe e raciocínio lógico, para usar na vida, independente da profissão que escolher”, conta.

Em 2017, o projeto da Jovens Hackers foi contemplado no edital municipal do Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais (Vai Tec). Já na primeira turma, conseguiu formar 500 crianças entre 8 e 12 anos de alta vulnerabilidade social. Surgia ali uma escola que cobra, de quem pode pagar, o equivalente a 25% de cursos particulares convencionais. E há aulas gratuitas online para quem não tem como arcar com a mensalidade. Adolescentes de 13 a 17 anos também são atendidos. A partir dos 16, são oferecidos cursos de empreendedorismo e mercado de trabalho. Ao todo são 1.200 alunos em 24 Estados e no Distrito Federal. O sonho agora é montar um banco de talentos e encaminhar a juventude para o mercado de trabalho por meio de parcerias com empresas.


MAIS1CODE
Nataly Simões

“Temos psicólogos que ajudam a evitar a síndrome do impostor, para que eles não pensem que não são capazes de estar onde estão, porque são jovens sem oportunidades e com muito desejo de fazer acontecer”, diz Tauan Matos, um dos líderes do programa. Foto: divulgação
“Temos psicólogos que ajudam a evitar a síndrome do impostor, para que eles não pensem que não são capazes de estar onde estão, porque são jovens sem oportunidades e com muito desejo de fazer acontecer”, diz Tauan Matos, um dos líderes do programa. Foto: divulgação

O projeto de formação em tecnologia ensina linguagem da programação para a juventude da periferia. A ideia é preparar os estudantes para solucionar problemas nas comunidades em que vivem, além de fazer com que sejam reconhecidos como mão de obra qualificada no mercado de trabalho. Em dois anos na ativa, a Mais1Code já tocou a trajetória de 490 jovens acima de 16 anos e ganhou o selo de negócio de impacto social da Artemisia, organização sem fins lucrativos pioneira na disseminação e no fomento de negócios de impacto social no Brasil. As atividades são online e gratuitas.

Com o auxílio de empresas parceiras e encontros semanais com profissionais do mercado que atuam como mentores, os estudantes passam por um letramento em banco de dados, desenvolvimento web, software e outras ferramentas. O projeto também ajuda a identificar quem tem perfil de empreendedor e quem prefere trabalhar em empresas de tecnologia. “Temos psicólogos que ajudam a evitar a síndrome do impostor, para que eles não pensem que não são capazes de estar onde estão, porque são jovens sem oportunidades e com muito desejo de fazer acontecer”, diz Tauan Matos, um dos líderes do programa. (Nataly Simões)

Paulo Vinicius, de 20 anos, morador do Grajaú, teve de trancar a faculdade na pandemia, voltou a estudar na Mais1Code, retomou o ensino superior e hoje é voluntário no projeto. Ele afirma que a mentoria que recebeu quando era aluno o ajudou a desenvolver um projeto de reciclagem para periferias. “As pessoas vão conseguir agendar coletas de materiais, como latinhas e papelão, e trocar óleo de fritura por sabonete”, diz Paulo. “Tudo será feito a partir de um agendamento num aplicativo que mapeia os locais de coleta. Meu objetivo é que o valor da taxa de uso da plataforma seja investido em projetos de educação.”

METARECICLAGEM
Andressa Marques

Karina do Carmo e José Neto estão à frente da startup verde. Foto: Isabelle India/Estadão Expresso
Karina do Carmo e José Neto estão à frente da startup verde. Foto: Isabelle India/Estadão Expresso

Criada em 2017 por José Sales Neto na comunidade Capadócia (extremo norte da cidade de São Paulo), a MetaReciclagem é uma reconhecida startup verde e de desenvolvimento tecnológico voltada para a transformação social. Não se trata de restaurar computador para doar: um eletrônico que não funciona mais é desmontado e suas partes ganham outras finalidades. Coolers de computador, por exemplo, viram ventiladores residenciais. “De uma impressora antiga, a gente faz um kit para utilização em robótica educacional com mais de 20 aplicações para crianças do fundamental 1 ao ensino médio”, diz José.

A estação de coleta e processamento da rede fica na Brasilândia e tem capacidade para tratar até 5 toneladas por mês de lixo eletrônico. Na Escola Criativa da Comunidade Capadócia, mantida pelo projeto, as reciclagens são documentadas em fotos e catálogos para que sejam monitoradas até que a peça tenha sido efetivamente transformada. “Se uma impressora vira três motores, tudo é registrado e acompanhado para a destinação que a gente deu. E essa é a certeza, para quem descarta conosco, de que a utilização vai ser correta e potencializada com educação”, conta José.


MINAS QUE PROGRAMAM
Ester Caetano

Aula presencial do Minas que Programam, pré-pandemia. Foto: divulgação
Aula presencial do Minas que Programam, pré-pandemia. Foto: divulgação

Criado em 2015 para confrontar o padrão básico de gênero e raça nas áreas de ciência, tecnologia e computação (em que predominam homens brancos), o Minas que Programam ensina meninas e mulheres a programar, principalmente negras e indígenas, além de promover palestras, oficinas e grupos de estudo. “Percebíamos cursos a preços proibitivos e poucos espaços onde elas estivessem confortáveis”, conta a programadora Bárbara Paes, uma das três autoras do projeto junto de Fernanda Balbino e Ariane Cor. “‘Vamos fazer isso ser uma coisa fácil’, pensamos.”

Engajado na criação de um ambiente acolhedor e feminista, o trio convocou profissionais dispostas a compartilhar conhecimento. Começou a oferecer cursos em São Paulo, chegou ao Rio de Janeiro e, na pandemia, o modelo online se espalhou pelo País. Um balanço dos primeiros cinco anos de atividade mostra que 60% das ex-alunas ingressaram no mercado de trabalho – algumas ensinam no projeto. Outro fenômeno importante é a influência das participantes na comunidade, porque elas estimulam amigas e familiares a trilhar o mesmo caminho.


PERIFATEC
Ester Caetano

Estimular jovens das periferias de São Paulo a usar a tecnologia a favor do próprio desenvolvimento e da qualidade de vida em seus territórios é um dos principais objetivos do coletivo Perifatec. “[O projeto] nasceu pra quebrar barreiras e educar tecnologicamente pessoas que não têm acesso ou não sabem utilizar as ferramentas para trabalho e para estudo”, afirma Luis Nascimento, jornalista e um dos criadores da iniciativa. “Acho que o futuro é isso que a gente está vivendo agora, mas nem todos têm acesso, esse é o problema. Nem todos têm o celular de qualidade, o computador, um videogame de primeira geração. É um pouco do que a desigualdade traz.”

O Perifatec é formado por jovens da região do ABC e de periferias da cidade de São Paulo. Eles atuam junto aos moradores no ensino da tecnologia como ponte para autonomia, solução de problemas, desconstrução de estereótipos e encurtamento de distâncias sociais. Em 2021, o grupo promoveu oficinas online e trilhas de aprendizado em parceria com a IBM. O Black Tech reuniu mais de 180 pessoas participantes no aprendizado de criação de currículos, lógica de programação, e inteligência artificial. “As pessoas agradeceram todo o evento e ficaram animadas com a ideia da tecnologia em favor dos territórios, entusiasmadas”, relembra.


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