Na Perifa

Um dos maiores desafios na cena rap é o boicote, diz Quebrada Queer

Em maio de 2019, nasceu o Quebrada Queer, coletivo musical de jovens moradores das periferias da Grande São Paulo. O grupo nasceu do desejo de Murillo, atual integrante, de convidar MCs LGBTQIA+ para construir uma cypher [quando vários MCs decidem juntar versos livres sobre algum tema em uma única faixa]. A equipe é composta por […]

4 minutos, 32 segundos de leitura

27/10/2021

Por: Negona Dance, Lá da Favelinha

quebrada queer em na perifa
Quando paramos para analisar toda a construção de quem somos e quem nós éramos quando o QQ surgiu, nos deparamos com o nosso discurso salvando muita gente", diz Harlley, do Quebrada Queer. Foto: divulgação/Lucas Silvestre

Em maio de 2019, nasceu o Quebrada Queer, coletivo musical de jovens moradores das periferias da Grande São Paulo. O grupo nasceu do desejo de Murillo, atual integrante, de convidar MCs LGBTQIA+ para construir uma cypher [quando vários MCs decidem juntar versos livres sobre algum tema em uma única faixa]. A equipe é composta por Apuke, Guigo, Harlley, Boombeat, Murillo e Tchelo.

Naquele ano, lançaram a faixa Rap Box, onde cantam versos como este abaixo.

“Vai ter bicha no rap sim! / E eu nem sou pioneiro” e “Nois tá aqui por cada bicha com a vida interrompida / Por causa de homofobia, ódio e intolerância / Resistimos no dia a dia / Pra poder chegar o dia que prevaleça / respeito, igualdade e esperança”.

Depois da primeira faixa, decidiram manter o grupo e continuar a produzir músicas para discutir sexualidade e gênero nas periferias. As letras falam dos riscos de ser um jovem gay e negro no país e passam mensagens de motivação para essa população.

Real e assombroso

Entre 2008 e junho de 2016, 868 travestis e transexuais morreram de forma violenta no Brasil O Brasil é o país mais violento para essas pessoas, pelo 12º ano consecutivo Nos primeiros nove meses de 2020, 124 pessoas transexuais foram mortas

Fontes: ONG Transgender Europe e estudo Trans Murder Monitoring (Observatório de Assassinatos Trans, em inglês)

No objetivo de mudar as estatísticas, a começar por onde moram, é que o Quebrada Queer existe e se posiciona musicalmente. Nesta entrevista ao Expresso na Perifa, Harlley fala, em nome do grupo, sobre desafios no mercado da música, sonhos e projetos coletivos.

Vocês se definem como um grupo de gays na música?

O Quebrada Queer nunca foi um grupo de gays e podemos perceber isso durante a fase em que estávamos amadurecendo, como coletivo mesmo. Quando paramos para analisar toda a construção de quem somos e quem nós éramos quando o QQ surgiu, nos deparamos com o nosso discurso salvando muita gente. Nossa música sempre foi direcionada para a comunidade LGBTQ+ se sentir melhor com suas próprias questões, então isso acabou reverberando nos nossos próprios corpos. Hoje, BoomBeat é uma travesti e Harlley se identifica como não binarie. Estamos em constante evolução e o questionamento sempre estará presente, mas definitivamente, não somos só um grupo gay.

Hoje, qual o principal objetivo do grupo?

Quando lançamos a cypher, o nosso objetivo principal era levar nossa mensagem para todos os cantos do país, e a partir do lançamento, até em outros continentes a nossa música tocou. Então, agora estamos sonhando com os pés no chão e tendo total consciência do nosso local de partida. Posso dizer que o nosso maior objetivo atualmente, é concluir as gravações do nosso próximo projeto e re-apresentar o Quebrada Quer, após dois anos de hiato, com um conhecimento renovado e mais fortes do que nunca.

Um dos maiores desafios na cena rap é o boicote. Nós nunca estivemos no line up de um grande evento de rap, mesmo com toda a repercussão que nossa música teve

Quais são os desafios dentro da cena brasileira do rap?

Acredito que um dos maiores desafios dentro da cena rap é o boicote. Nós nunca estivemos no line up [quem vai tocar nos festivais] de um grande evento de rap, mesmo com toda a repercussão que nossa música teve. Nós enxergamos o preconceito, e ele não parte somente dos MCs conservadores, mas também dos contratantes, do público e até na área técnica dos eventos. Hoje em dia, o nosso maior foco é continuar fazendo música e levando nossa mensagem para quem nos fortalece de fato, que é o público LGBTQIA+.

[O preconceito] não parte somente dos MCs conservadores, mas também dos contratantes, do público e até na área técnica dos eventos

Como é o processo para escrever as músicas?

Somos muito livres em relação à parte de escrita, podendo fazer isso em nossas próprias casas mesmo, quando bate a inspiração, ou temos o nosso modo atual de compor, que é se encontrando, batendo um papo, trocando inspirações. Não somos apegados aos nossos próprios versos, então experimentamos cantar versos escritos por outros integrantes e assim vai, no geral, mantemos esse processo bem livre.

Nosso maior foco é continuar fazendo música e levando nossa mensagem para quem nos fortalece de fato, que é o público LGBTQIA+

Quais os sonhos e desejos futuros do grupo?

O nosso maior desejo é fazer um show presencial bem grande e lotado. Sabemos que o momento ainda não é propício para a ocasião, mas esse é o nosso maior desejo agora, ver a reação das pessoas de perto, cantando as letras e sentindo cada batida com a gente. Isso tudo causa muita saudade, mas sei que em breve vamos subir em palcos novamente e matar essa saudade gigante que aperta nosso peito.

Alguma notícia para os fãs?

Estamos oficialmente trabalhando no primeiro single do primeiro disco do Quebrada Queer. Teremos um disco, em uma nova fase, repaginada e mais ousada do que nunca. Não posso dar muita informação ainda, mas boatos dizem que esse single sai ainda neste ano, com clipe e tudo. Aguardem.



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